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Edição 100 de Março de 2006
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Largada polêmica
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| Com viés social, formatação
do Programa Nacional de Biodiesel provoca enxurrada de críticas |
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O Ministério da Agricultura calcula que até o final
do ano, mais de mil postos de revenda ofereçam diesel misturado
a 2% de biodiesel aos consumidores brasileiros. A comercialização
efetiva evidencia na prática a entrada em vigor da Lei que
introduz o produto na matriz energética nacional. Também
ofereceram impulso ao início do Programa Nacional de Produção
e Uso do Combustível dois leilões de venda realizados
pela Agência Nacional do Petróleo ANP e o anúncio
de novos projetos para instalação de plantas produtoras.
Cinco usinas já fabricam biodiesel no Brasil número
que deve dobrar em breve, após a regularização
oficial de outros cinco projetos. Segundo o coordenador da Comissão
Executiva Interministerial do Biodiesel, Rodrigo Rodrigues, existem
também outras 25 plantas em fase de construção
ou consultas.
Para o Governo Federal, o interesse pelo mercado de biodiesel vai
proporcionar ofertas superiores às previstas pela lei do
combustível, que determina produção superior
a 800 milhões de litros no início de 2008 e a 2,5
bilhões de litros em 2013, quando a mistura obrigatória
subirá para 5%.
De acordo com Rodrigues, o Brasil deve produzir 1,118 bilhão
de litros de biodiesel em 2008, oferta 39,75% maior que a demanda
prevista pela legislação. O volume será integralmente
produzido por plantas certificadas pelo Selo Combustível
Social criado pelo Governo. Com esse aumento, esperamos que
mais 250 mil famílias sejam incorporadas ao mercado.
O selo indica que a usina utiliza como matéria-prima oleaginosas
cultivadas por agricultores familiares, e pode ser obtido pelas
empresas que adquirirem percentuais mínimos de matéria-prima
do agricultor familiar também beneficiadas com redução
de tributos. A lei exige aquisição de matéria-prima
originária de agricultura familiar de 50% no Nordeste, 30%
no Sul e Sudeste e 10% no Norte e Centro-Oeste percentuais
mínimos.
Embora a diversificação da matriz energética
e a economia com importação de petróleo sejam
pontos positivos, a inclusão social é o principal
argumento de Lula para o desenvolvimento do Programa do Biodiesel,
que se transformou em xodó do Governo petista.
Recentemente, Lula usou um antigo slogan de Getúlio Vargas
para promover o combustível. O biodiesel é nosso,
disse em discurso. Invariavelmente, o presidente mostra sementes
de mamona e apresenta Programa Nacional a convidados estrangeiros.
Foi assim durante a rápida visita do roqueiro politicamente
correto Bono Vox, líder do grupo U2.
Lula também já afirmou repetidas vezes que o biodiesel
representará uma revolução na geração
de empregos, sobretudo para a agricultura familiar. De acordo
com dados do Governo, o mercado de biodiesel já criou 60
mil empregos e outras 100 vigas serão geradas até
o fim deste ano.
O Governo calcula que para cada trabalhador na indústria
do biodiesel, surjam mil empregos no campo. Lula chegou a comparar
o Programa Nacional ao histórico New Deal,plano
de recuperação da economia executado a partir de 1933
pelo então presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt.
Nosso sonho é fazer como o presidente Roosevelt fez
no Vale do Mississipi: produzir um grande desenvolvimento no Nordeste
a partir do biodiesel, disse há pouco tempo.
Para alcançar a meta, o Governo definiu as diretrizes para
o Programa Nacional de Biodiesel com foco exclusivo na inclusão
social. O projeto privilegia no a agricultura familiar com incentivos
fiscais, não extensivos a grandes empresários. A
participação da iniciativa privada é imprescindível,
mas precisamos também criar uma rede sistêmica para
a fixação do homem no campo, confirma Rodrigo
Rodrigues.
A norma de tributação de produção de
biodiesel a partir de matéria-prima de agricultura mecânica
é semelhante a do diesel mineral, que paga atualmente R$
218 por m3 de contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins.
Se a matéria-prima utilizada for de agricultura familiar,
o valor é reduzido para R$ 207. Além disso, caso utilize
a mamona e a palma das regiões Norte e Nordeste, o PIS/Cofins
será isento os exemplos abrangem tributos federais
e soam válidos para empresas portadores do Selo Combustível
Social.
Reclamações
Embora priorizem a geração de empregos, as diretrizes
apresentadas, provocam descontentamento de empresários e
tornam o Programa Nacional polêmico. Segundo os investidores,
a formatação atual do projeto não apresenta
viabilidade econômica.
Trata-se de um setor altamente estratégico, de uma
nova fronteira que necessita de créditos, isenções,
de garantias de preço e tudo mais que possa facilitar sua
implantação, afirma o empresário Vitório
Medioli, presidente da Sada Bioenergia, que está construindo
uma planta de biodiesel no Norte de Minas com capacidade de produção
de 80 mil m3 por ano. Medioli também é deputado federal
pelo PSDB de Minas Gerais.
O diretor titular do Departamento de Infra-estrutura da Fiesp, Saturnino
Sérgio da Silva, reitera que o biodiesel é uma grande
oportunidade de crescimento para o Brasil, mas também ressalta
a necessidade de uma política nacional de estímulo
à produção.
Para o professor José Roberto Moreira, presidente do Conselho
Gerenciador do Centro Nacional de Referência em Biomassa,
o programa do biodiesel deve ser encarado como um programa econômico,
e não apenas conforme uma plataforma social.
O Governo não pode querer lançar um combustível
que tenha competitividade de preços e resolver o problema
da miséria humana, que tem dois mil anos. É um risco
muito grande não contar com a iniciativa privada. Tem que
colocar o empresário do circuito, afirma.
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| Amostra de biodiesel: Brasil produzirá
mais de 100 bilhões de litros em 30 anos |
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Estudos do pesquisador Bautista Vidal, considerado
o pai do Proálcool, indicam a necessidade de investimentos
de R$ 4 bilhões para oferecer posição de destaque
ao Brasil no mercado internacional do biodiesel. Com este volume de
recursos, o País teria estrutura para produzir 45 bilhões
de litros de óleos vegetais até 2015.
Segundo seus estudos, seria preciso investir no setor R$ 4 bilhões
ao ano para que o Brasil atingisse um patamar de destaque no mercado
internacional. Isso, de acordo com Vidal, seria suficiente para que
o País produzisse, em dez anos, 45 bilhões de litros
de óleos vegetais.
De acordo com o diretor da Udop (Usinas e Destilarias do Oeste Paulista),
Antônio Salibe, baseado apenas na agricultura familiar o programa
não vai alcançar estes índices. Mas para investir
no mercado, o empresário solicita incentivos fiscais. Nenhum
empresário vai investir em fábrica para vender biodiesel
mais caro que diesel e não ter garantia de venda, compara.
A Bunge Alimentos, maior processadora de soja no Brasil, analisou
há pouco tempo a viabilidade de investimentos em plantas de
biodiesel, mas descartou a possibilidade. Nas condições
atuais do programa, não achamos interessante investir no País
agora, afirma o gerente de Tecnologia da empresa, Federico Kladt.
Segundo o gerente, a diferenciação na tributação
para o combustível e a priorização da agricultura
familiar inibem os investimentos da empresa, que é americana.
Para produzir biodiesel no Brasil, a Bunge utilizaria matéria-prima
própria, não isenta de tributações. As
regras têm que ser iguais. Poderia até haver um bônus
para agricultura familiar, mas sem penalizar os grandes agricultores,
reivindica.
Sem os incentivos, e com os custos de logísticas considerados,
empresários acreditam que o custo de produção
do biodiesel, independente da rota metílica ou etílica
ainda será durante grande período de tempo maior
em comparação aos valores empregados na fabricação
do diesel.
Incentivo aos assentados para a produção de mamona,
com uma perspectiva de rendimento igual ou menor que R$ 700 por hectare,
não vai causar um impacto econômico muito positivo, e
para o produtor de biodiesel, se depender apenas da agricultura familiar
será um negócio inviável, opina o empresário
Carlos Augusto Garcia Júnior.
O empresário Garcia Júnior produz o combustível
para uso próprio e participa de dois grandes projetos já
em andamento, em Campo Grande (MS) e Cuiabá (MT). Segundo ele,
a construção das plantas pode ser adiada, por inviabilidade
econômica. Porque o incentivo não se estende a
toda cadeia produtiva. As usinas que arrendam terras de assentamentos
familiares deveriam ser beneficiadas pelos mesmos critérios,
pois está ajudando ao pequeno produtor.
As respostas do Governo
Por enquanto, o protesto dos investidores não sensibilizou
o Governo. Rodrigo Rodrigues informa que as diretrizes do Programa
Nacional são definitivas. É natural que grande
produtores solicitem tratamento tributários diferenciados,
mas a posição do Governo é de perseverar na priorização
da agricultura familiar. Já ouvimos todas as ponderações
e não temos previsões de mudanças.
O secretário-executivo da Câmara de Biodiesel do Ministério,
Décio Gazzoni, pondera, porém, que o programa requer
uma política fiscal arrojada, mas discorda do viés paternalista
atribuído ao programa pelos críticos. O projeto
possui um eixo econômico que garante a sua viabilidade, independente
da ação do Governo, que lhe dá uma conotação
social.
Gazzoni também diz que não é possível
vislumbrar o programa exclusivamente sob os aspectos energéticos
e econômicos. O problema do emprego, do ponto de vista
global, é tão sério quanto o problema energético.
Para o pesquisador, Lula cumpre o papel de usar todas as alternativas
disponíveis para criar empregos, gerar novas oportunidades
de renda, distribuir renda e interiorizar desenvolvimento.
Estima-se que, em 30 anos, o Brasil esteja produzindo mais de 100
bilhões de litros de biodiesel. Com um mercado deste tamanho,
acredita Gazzoni, a escala de produção seria privilegiada.
Isso alijaria os pequenos agricultores. O que o legislador propõe
é um contrapeso à selvageria do mercado, protegendo
os mais fracos, que são os agricultores familiares, justifica. |
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