Edição 100 de Março de 2006
Exportação ambientalmente correta
Brasil já estuda aplicação de sistemas de detecção de vazamento nos futuros dutos de álcool

Em meio a mais recente crise do álcool, o diretor da Transpetro, Marcelino Guedes confirmou o prosseguimento dos estudos da Petrobras acerca da viabilidade de construção de uma rede de dutos de terminais para a exportação de álcool. O projeto, que demanda investimentos de até US$ 440 milhões, deve ser concluído ainda no primeiro semestre de 2006.

Além da instalação de novos terminais, aquisição de barcaças e empurradores, o levantamento técnico e comercial também considera a construção de 90 km de dutos. Segundo previsões da Transpetro, com o projeto concluído, o Brasil poderá exportar até 8 milhões de m3 de álcool a partir do fim de 2009.

O Brasil já exporta álcool, mas a falta de dutos, sobretudo para embarques aos países asiáticos, encarece os negócios. Também não há tancagem suficiente nos portos. Empresários do setor afirmam que, por razões de custos, segurança e rapidez, o transporte por dutos é a opção mais interessante em relação a rodovias e ferrovias.

Os dutos brasileiros, entretanto, apresentam impedimentos: transportam gasolina, combustível produzido com alta concentração de enxofre. A substância, aderida aos dutos, pode contaminar o álcool, que seria preterido pelo mercado internacional. “Precisamos de equipamentos exclusivos para álcool. É uma exigência de mercado”, diz o presidente da Câmara Setorial de Açúcar e Álcool, Luiz Carlos Carvalho.

Embora ainda inédito para o transporte de álcool, o uso de dutos no Brasil demonstra um grande crescimento. Foi iniciado a partir da década de 30 no século passado, como alternativa para condução de petróleo e derivados. A escolha pelo procedimento prioriza a facilidade de interligação entre três pontos importantes deste setor: fontes de produção, refinarias e centros de consumo.

Para atender as exigências do mercado internacional, o setor sucroalcooleiro precisa se adequar a rigores tão importantes como a garantia de abastecimento e qualidade do álcool. No mercado globalizado, a história mostra que a utilização de dutos pode provocar acidentes ambientes de grandes proporções.

Especialistas garantem que vazamento de produtos líquidos, gasosos ou multifásicos desencadeam desastres ambientais e graves conseqüências. Em alguns casos, também podem provocar mortes humanas.

A explosão de um gasoduto, em Guadalajara, no México, vitimou 200 pessoas em 1992.

No Brasil, o caso de maior repercussão foi observado há 22 anos em Cubatão, onde está instalada a Refinaria Presidente Bernardes, interligada ao Porto de Alemoa, em Santos. O rompimento de um duto causado por uma corrosão incitou vazamento de gasolina em uma área que servia de assentamento para diversas famílias carentes. Um incêndio matou 38 pessoas e deixou 500 desabrigados.

Além de prejudicar ecossistemas e comunidades, um acidente com este tipo de transporte pode causar prejuízos ao patrimônio e à imagem das empresas – e ao segmento de atuação. A Lei Brasileira de Crimes ambientais é severa, e imputa multas pesadas a causadores de desastres ambientais. A Justiça também pode determinar prisão dos responsáveis.

Segundo o professor Paulo Seleghim Júnior, da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), da Universidade de São Paulo (USP), os valores gastos com vazamentos de líquidos antipáticos ao meio-ambiente são, geralmente, muito altos. Além da multa e perdas de produção, a empresa arca com indenizações. “O custo pode chegar a R$ 200 mil por hora de vazamento”.

Esquema de funcionamento do sistema da Aselco: R$ 3 milhões para nacionalizar o produto
Sistemas anti-vazamento

Assim como ocorre com o petróleo, os futuros dutos e álcool estarão expostos ao mesmo tipo de eventualidade. Para evitar prejuízos, algumas empresas já estudam adaptar para os novos equipamentos, aparelhos usados pela indústria do petróleo para identificar possibilidades de vazamentos.

De acordo com o engenheiro Júlio Alonso, diretor da Aselco Automação, qualquer duto, mesmo de água, requer proteção disponível para manter sua integridade. Mesmo assim acidentes acontecem. “Quando ocorre um vazamento num duto, o mais importante é sua imediata detecção e alarme. A parada de bombas e/ou o fechamento rápido de válvulas de bloqueio evitarão o desastre”.

A Aselco garante que o Sistema Acústico de Detecção e Localização de Vazamentos para Dutos (ALDS), que monitora aproximadamente 500 quilômetros de dutos de petróleo no Brasil, pode ser utilizado para álcool “sem nenhum problema”, confirma Alonso.

A tecnologia ALDS, desenvolvida nos Estados Unidos, recebeu, de 2001 até hoje, investimentos de R$ 2 milhões para ser 100% nacionalizada. Neste ano, a Aselco inicia uma nova etapa do projeto, que prevê implementação de melhorias, de acordo com necessidades identificadas entre os usuários do sistema.  

A empresa prevê aplicar mais R$ 1 milhão em 2006 no desenvolvimento da tecnologia. “Os investimentos serão voltados para incrementar mais recursos ao sistema com o objetivo de melhor atender as necessidades de operação dos usuários e tornar o sistema ALDS sem concorrente no mundo”, afirma o engenheiro Miguel D’Avilla, diretor de marketing da Aselco.

O sistema ALDS identifica e localiza escoamentos indesejados por meio da detecção de ondas acústicas causadas pela ocorrência do próprio vazamento. As ondas são captadas por sensores acústicos de alta sensibilidade instalados no duto que está sendo monitorado.

“Estas ondas acústicas são processadas via unidade eletrônica local que analisa os sinais recebidos, eliminando os ruídos espúrios normalmente existentes no duto e enviando dados sobre o vazamento para uma unidade central, na sala de controle do duto”, explica o engenheiro Alonso.

| O sistema é equipado com um banco de dados de ruídos que sustenta uma espécie de rede de filtros digitais para qualquer ruído espúrio, característica que reduz a possibilidade de alarmes falsos. Pode ser aplicada em dutos que transportam fluidos em qualquer estado (líquidos, gasoso ou multifásicos). Dutos aéreos, subterrâneos ou submarinos são capazes de receber instalações.

Segundo Alonso, a tecnologia permite também o fechamento automático de válvulas de bloqueio, assim que o vazamento for identificado. O sucesso de uma operação de detecção, porém, depende do tempo de observação do vazamento. “Quanto mais rápido detectamos o vazamento menor será o impacto ambiental e de riscos.O mais importante é o tempo de resposta, o que podemos assumir menos do que 60 segundos”. A Aselco também garante que permite a localização do vazamento com precisão de aproximadamente 50 metros. 

Protótipo

Ainda em fase de estudos, um outro modelo de identificação de vazamentos em dutos de petróleo pode ser adaptado para uso em equipamentos de transporte de álcool – o software foi desenvolvido por uma equipe de pesquisadores da Escola de Engenharia de São Carlos. “O nosso equipamento não se baseia em equações específicas. Por isso, se treinado, pode ser usado em dutos de álcool”, garante o professor Seleghim, coordenador do projeto.

Os estudos foram iniciados em 2004, a partir de uma demanda observada na Petrobras, que utilizava sistemas importados. Necessidades Sistema de Água e Esgoto de São Carlos, no interior paulista, também estimularam a pesquisa.

Em dois anos de análises, os pesquisadores realizaram três mil simulações de vazamentos artificiais em um oleoduto piloto da construído na universidade. Os primeiros testes foram feitos em tubulações de água e ar. “No laboratório, tivemos índice de acerto de 100%”, conta o professor.

O software da EESC também é programado para identificar vazamentos com base em informações obtidas por meio de medidas de pressão identificadas através de sensores. “Treinamos o sistema para identificar as várias condições de operação normal do oleoduto. Assim, o software passa a monitorar a tubulação e ao verificar qualquer problema emite um sinal de alerta”, informa Seleghim.

O sistema utiliza um procedimento chamado pelos pesquisadores de lógica difusa, elemento da inteligência artificial que permite tomadas de decisões precisas, como o acionamento do desligamento da bomba em caso de vazamento.

A próxima etapa do projeto, programada para este ano, pretende observar se todos estes resultados obtidos nas operações simplificadas de laboratório vão se repetir nas provas de campo. Os pesquisadores negociam com a Petrobras autorização para fazer os testes em oleodutos reais, onde há as misturas bifásicas de óleo e gás.

Seleghim espera começar as análises no início do segundo semestre. Inicialmente os testes devem ser feitos em oleodutos de 500 metros e ampliados para distâncias de centenas de quilômetros.

O pesquisador também negocia parceria com empresas fornecedoras para a comercialização do equipamento. “Já temos algumas interessadas”, adianta. O professor garante que o custo do equipamento será até cinco vezes menor se comparado com os similares oferecidos no mercado atualmente. “Os concorrentes são mecanicistas e importados. Por isso, mais caros”.

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