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Edição 101 de Abril de 2006
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Gargalo no meio do caminho
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| Se não investir em infra-estrutura
logística, o setor sucroalcooleiro corre o risco de se tornar
um fornecedor incapaz de entregar ao cliente o produto contratado |
| Porto de Santos: um dos únicos preparados
para exportação de álcool |
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As pesquisas e os desenvolvimentos voltados para as áreas
agrícola e industrial, que marcaram a evolução
da cadeia canavieira no Brasil, oferecem ao setor sucroalcooleiro
do país o custo de produção mais competitivo
do mundo. No momento em que vê as oportunidades de exportação
explodirem, os executivos da cana percebem também que a logística
não recebeu o mesmo tratamento dos carros-chefes do segmento.
Para ser beneficiado pelo interesse demonstrado pelo mercado internacional,
o país se precisa se transformar em uma nação
comerciante o que requer muitos investimentos em infra-estrutura.
Veteranas em exportação, as culturas de grãos
do agronegócio brasileiro sofrem inúmeros prejuízos
provocados pelos nós logísticos. Além de herdar
essas mesmas limitações, o setor sucroalcooleiro começa
a esbarrar em dificuldades específicas para o armazenamento
e transporte necessários à comercialização
de açúcar e álcool para o exterior.
O país precisa se adequar rapidamente. A construção
de novas usinas e o aumento de capacidades das unidades atuais vão
elevar as produções a níveis nunca vistos.
As possibilidades de exportação são os principais
motivadores destes investimentos.
Um estudo da Consultoria Datagro prevê crescimento de 33%
nos embarques de açúcar até 2011. Este volume
adicional representa incremento de 6,2 milhões de toneladas
em relação às vendas atuais. O Brasil será
o principal beneficiado pela punição conferida recentemente
pela Organização Mundial do Comércio à
União Européia, o que abre um mercado de 1 milhão
de toneladas por ano já em 2006 a exportação
do produto nacional deve apresentar crescimento para os Emirados
Árabes, Argélia, Síria, Nigéria e Iraque.
O panorama positivo também enumera possibilidades para a
comercialização de etanol. Segundo estudo da Sociedade
Corretora de Álcool, a indústria brasileira, que atualmente
responde por 50% do mercado global, deve alcançar produção
de 30 bilhões de litros em 2015 na safra passada foram
fabricados 17,5 bilhões de litros. Dados do Ministério
da Agricultura mostram que as vendas externas do álcool passarão
de 2,5 bilhões de litros por ano para 8,5 bilhões
de litros anualmente no mesmo período.
Com o menor custo de produção do mundo, o setor sucroalcooleiro
nacional pode perder parte dos lucros conquiestados com pesquisas
durante o processo de exportação. Se não investir
em infra-estrutura logística, o Brasil corre o risco de se
tornar um fornecedor incapaz de entregar ao cliente o produto contratado.
A competitividade do Brasil é inequívoca: cerca de
R$ 0,20 por litro produzido, e os Estados Unidos, segundo local
de custo mais baixo, pagam quase o dobro do valor brasileiro. O
custo logístico nacional chega a ser, em alguns casos, três
vezes superior ao valor investido pelos principais concorrentes
no mercado. Hoje somos o mais eficiente produtor de açúcar
e álcool do mundo, mas deixamos boa parte da nossa vantagem
em estradas, ferrovias e portos, reclama o presidente da Unica,
Eduardo Pereira de Carvalho.
Segundo a Unica, entre um terço e 50% dos ganhos de produtividade
obtidos nas lavouras e unidades industriais são pulverizados
por falta de estrutura logística no Brasil. Para transportar
1 m³ de álcool de Araçatuba, no noroeste de São
Paulo, ao Porto de Santos, as usinas precisam investir US$ 45, o
equivalente a quase 20% do valor do negócio. Nos Estados
Unidos, esse custo está avaliado em US$ 10.
O custo da logística no Brasil corresponde a 16% do Produto
Interno Bruto (PIB). Nos principais concorrentes nacionais, a operação
é menor do que 10% do índice de riqueza de cada nação.
Precisamos nos equivaler aos patamares mundiais, reivindica
Carvalho..
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| Os avanços na indústria são
alternativas para aumentar produção e produtividade
do álcool |
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Segundo um levantamento da LMC International, os custos
de fobização do Brasil (transporte, armazenagem e elevação)
são o dobro da média paga pelos principais exportadores.
A Frette & Cargo Intermodal calcula que a logística represente
entre 14% e 16% do custo FOB da comercialização do álcool.
Para reduzir, somente com investimentos que combatam o esgotamento
logístico, sugere o diretor comercial da empresa, Marco
Aurélio Dias.
Segundo o gerente geral de novos projetos da Transpetro, Charles Labrunie,
a empresa vai implantar corredores de exportação, que
podem reduzir o custo logístico. Temos que ajudar, de
forma que o investidor que vai buscar essas novas fronteiras mais
ao interior do país, encontre condições de manter
essa competitividade que existe porque se ficar nos mesmos
modais praticados hoje, o quanto vai comer da margem dele?,
questiona.
Obras necessárias
Para reduzir os custos logísticos e tornar-se mais competitivo,
o setor deve direcionar investimentos específicos para o transporte
de etanol. As exigências para exportação de álcool
são mais rigorosas em relação aos requisitos
necessários para os embarques de açúcar. Por
ser inflamável, o combustível passa processo de inspeção.
Será necessária uma intervenção para
a modernização dos portos, confirma o presidente
do Sindaçúcar/PE, Renato Cunha.
Dos 14 principais portos brasileiros, apenas os de Santos e Paranaguá,
no Centro-Sul, e Suape, no Nordeste, têm condições
ideais de recepcionar o produto apenas estes três ancoradouros
possuem sistemas de tancagem para produtos inflamáveis.
Um estudo feito pelo Centro de Estudos em Logística da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (Coppead UFRJ) revela a necessidade
de investimentos de R$ 800 milhões apenas em portos
para a exportação de 10 bilhões de litros por
ano.
Mais de 50% desses recursos serão aplicados pela Petrobras
nas obras de construção de dutos para o transporte de
etanol. É o meio mais barato de transporte de etanol,
aponta o diretor superintendente do Teaçú Armazéns
Gerais, Renato Dias de Gouvêa. Para chegar até o porto,
hoje o único meio de transporte é a rodovia.
Mas a carência abrange outras áreas. Os portos também
demandam investimentos em dragagem dos canais para ampliação
das áreas de estacionamento e pátios de espera nos portos,
aumento do calado, maiores janelas no afretamento de navios e aquisição
de novos navios bandeira. |
| Armazém de açúcar e transporte
por ferrovias: locomotivas e vagões sucateados |
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A ampliação da capacidade de tancagem
deve reduzir o tempo de demora para descarregamento dos caminhões.
Alguns veículos chegam a ficar três dias apenas
esperando, o dobro do tempo que levou para sair da usina e chegar
ao porto. Isso aumenta o custo da operação, informa
Dias, da Frette.
Integração de modais
Embora os investimentos no sistema de dutos e portos estejam em primeiro
plano, a solução logística brasileira depende
da utilização de diferentes modais, e conseqüente
necessidade de reformas em rodovias e ferrovias principalmente
para a exportação de açúcar.
Mais usado no Brasil, o modal rodoviário também apresenta
limitações. Em primeiro lugar, este modal está
sobrecarregado, o que desencadeia outros problemas nas próprias
estradas, aponta o superintendente do Teaçú Armazéns.
Estatísticas divulgadas há dois anos pela Confederação
Nacional de Transportes apontam que mais de 80% das estradas nacionais
apresentam condições regulares ou ruins, com buracos,
afundamentos e trechos sem pavimentação.
O setor também precisa de mais rodovias para evitar congestionamentos.
Um caminhão demora cerca de 40 horas ininterruptas para chegar
obras estão lentas, diz o diretor da Frette.
Segundo o diretor superintendente do Teaçú Armazéns
Gerais, os responsáveis pelo modal rodoviário têm
realizado investimentos em melhorias, sobretudo para agilizar o problema
da descarga. O mesmo, porém, não se aplica aos
responsáveis pelas ferrovias, que continuam com muitos problemas
e poucas ofertas de soluções.
A logística atual do modal ferroviário no Brasil não
apresenta mudanças significativas em relação
à estrutura vista há 50 anos. As ferrovias seriam alternativas
viáveis ao escoamento, mas o Brasil hoje não dispõe
de quantidades suficientes de vagões e locomotivas.
Para Dias Gouvêa, a logística ferroviária não
funciona adequadamente. Além de estar equipada com veículos
sucateados, há demora no carregamento e desgarregamento dos
produtos. Uma vez, a porta de um vagão caiu sobre um
funcionário do Teaçú. A estrutura está
horrível.
Enquanto no modal rodoviário carretas possibilitam o descarregamento
de 50 toneladas de açúcar em 30 segundos, as locomotivas
não conseguem desembarcar 62 toneladas em menos de meia-hora.
É uma ineficiência significativa para fornecedores
e parceiros das ferrovias, completa o executivo da Nova América.
Responsabilidades
Para Renato Dias Gouvêa, a intervenção do Governo
Federal pode ajudar a resolver o problema das ferrovias. O diretor
do Teaçú sugere que a União transforme as ferrovias
em empreendimentos públicos, como acontece com a cogeração
de energia, que tem linhas de transmissão administradas pelo
Estado. Assim, todos os exportadores poderiam usar vagões
e trilhos compartilhados. Hoje vários equipamentos são
privatizados e não abrem acesso comum.
Assim como no modal ferroviário, as soluções
totais para os problemas logísticos do país dependem
de posicionamento do Governo. A infra-estrutura de portos é
responsabilidade pública, defende o diretor da Frette.
Mas as reivindicações não incidem apenas sobre
novos investimentos. Problemas administrativos do Governo também
inibem reformas e construções. Existem projetos
de infra-estrutura para portos, mas alguns apresentam indefinições
em problemas de concessão, comenta Dias.
No caso do setor sucroalcooleiro, as usinas também são
responsabilizadas pelo atraso de infra-estrutura. Segundo o diretor
do Teaçú Armazéns, falta consciência
logística para as unidades brasileiras.
De acordo com Dias Gouvêa, as unidades produtoras conseguiram
reduzir custos no embarque de açúcar ensacado da porta
das usinas até os navios de US$ 73/tonelada, em 1994, para
US$ 40/ ton no ano passado. Acompanham no mesmo período aumento
da eficiência de embarque de 700 ton/dia para cerca de 5 mil
ton/dia. Esses resultados significariam melhores condições
de negociações se as usinas entendessem a cadeia logística.
Segundo ele, faltam responsabilidade e profissionalização
das competências, principalmente nas expedições,
o que facilitaria o envio de maior quantidade de carga aos portos,
em menor tempo, e com mais segurança. As usinas usam
porto como unidade de armazenagem e utilizam mão-de-obra cara.
Ainda é preciso amadurecer as relações com a
estiva.
O executivo recomenda ainda a formação de um pool de
comercialização de álcool por todas as usinas,
assim como já fazem Crystalsev, Cosan e Cargill. Separadamente,
cada usina vai ter dificuldades para vender com bons preços
o próprio produto.
Enquanto Governo e iniciativa privada não reconhecem as responsabilidades,
os investimentos são retardados - e as produções
aumentam. O gargalo logístico, conhecido e debatido, precisa
ser minimizado com agilidade. O Brasil sabe que não adianta
mais crescer produção se não houver mecanismos
para entregar as cargas aos clientes. Esses problemas são
graves, mas solucionáveis. Apenas discutir sobre eles, porém,
não vai resolver. O setor precisa agir. E rápido,
completa o diretor da Frette. |
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