Edição 102 – 2006
Máquinas invadem os canaviais
Falta de mão-de-obra e crescimento da atividade canavieira impulsionam mecanização no Brasil, que vê recordes de vendas de colhedoras; cultura ameniza prejuízos das fornecedoras com crise de grãos

Em 2002, a Case IH, líder de mercado no fornecimento de colhedoras de cana, comercializou 35 máquinas no Brasil, recorde histórico de vendas na época. Até o início de maio deste ano, a empresa já havia faturado 70 equipamentos e prevê negociar até dezembro outras 50 unidades.

No mercado, devem ser vendidas 180 colhedoras de cana em 2006, contra as 130 máquinas comercializadas no ano passado. A mistura de características favoráveis à mecanização da cana – falta de mão-de-obra e expansão da atividade – impulsiona o faturamento das empresas fornecedoras no segmento cana e ajuda a minimizar a queda de negociações com as culturas de grãos afetadas pela crise brasileira.

Estimativas do mercado apontam que devem ser instaladas no Brasil cerca de 90 novas usinas de açúcar e de álcool até 2013, além de projetos de ampliação das unidades já existentes. Os empreendimentos vão elevar a área plantada com cana-de-açúcar no país dos atuais 5 milhões de hectares para 9 milhões de ha no mesmo período.

Para o diretor de vendas da Case IH, Isomar Martinichen, a expansão das áreas canavieiras exigem aumento de produtividade, o que beneficia a tecnologia oferecida pela mecanização. “Em novas fronteiras, principalmente as de pastagens, a tendência de mecanização, desde o plantio até a colheita, é maior. As perspectivas de vendas, portanto, são muito interessantes”.

A empresa projeta dobrar as vendas de colhedoras em quatro anos. “Prevemos crescer 25% ao ano”, detalha Martinichen. O negócio de máquinas para o corte mecanizado deve crescer proporcionalmente à previsão da Case IH. Segundo expectativas do mercado, serão comercializados aproximadamente 400 equipamentos em 2010.

O espaço para crescimento da mecanização faz os diretores comerciais de fornecedoras vislumbrarem muitos cifrões. O uso de máquinas para a colheita da cana no Brasil ainda é pequeno se comparado à aplicação da tecnologia na Austrália, por exemplo, onde 100% do corte são realizados mecanicamente.

Hoje apenas 30% dos 5 milhões de hectares da área cultivada com cana no país são colhidos por máquinas. São Paulo, com 75% do total, lidera o ranking da mecanização. “Outro motivo que favorece a mecanização é a falta de mão-de-obra. Não haverá funcionários suficientes quando a plantação atingir 9 milhões de hectares”, aponta o gerente de marketing para tratores agrícolas da AGCO, Rubens Sandri de Moura. A marca é responsável pela fabricação dos equipamentos Massey Ferguson.

Moura também comenta que o setor sucroalcooleiro renova as frotas mais rapidamente em comparação com outras culturas. “As usinas trabalham 24 horas por dia, a fadiga da máquina é maior. Um trator usado em cana tem vida útil de até sete anos. Em grãos, 15 anos”.

Evolução

O Brasil já dispõe de tratores e colhedoras de última geração, mas ainda existem detalhes técnicos que demandam evolução. “Por isso, investimos em pesquisas e novos produtos”, conta o diretor da Case IH. Assim como a empresa, todas as fornecedoras de equipamentos para cana estão lançando produtos em 2006.

Se o potencial de expansão das máquinas na cana representa argumento suficiente para investimentos das fornecedoras, a crise dos grãos ofereceu mais um motivo para as empresas focarem esforços em novidades tecnológicas voltadas à cana.

Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) indicam queda da venda de máquinas para as culturas de grãos. Segundo a entidade, os negócios com colheitadeiras caíram 72,6% de 2004 para o ano passada: passaram de 5,6 mil para 1,5 mil unidades comercializadas. “O balanço de 2006 não deve ser muito diferente. A cana vai continuar sendo suporte de faturamento para muitas empresas. Quem fornece apenas para grãos, passa por momento crítico”, avalia o gerente de marketing da AGCO.

O presidente da Câmara Setorial de Máquinas Agrícolas, Francisco Maturro, alerta, entretanto, que o faturamento com a cultura canavieira ameniza, mas não absorve integralmente as quedas de vendas das empresas.

Segundo Maturro, os canaviais ocupam parcela pequena da área plantada no Brasil – soja, por exemplo, ultrapassa 23 milhões de hectares. Além disso, apenas 20% da plantação de cana são cultivados por ano, porque a cultura é semi-perene e garante até cinco cortes. A soja tem ciclos de 120 dias. “A cana não vai compensar os prejuízos. Se cobrisse toda a área agricultável, só teríamos açúcar para comer e morreríamos de fome”, argumenta.


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