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Edição 103 2006
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Super ferramenta
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| Expansão no setor deve se basear em
pesquisa científica para ter vulnerabilidade reduzida e crescimento
sustentável; mas especialistas apontam queda de investimentos |
| Uma das etapas de criação de
uma nova variedade: aplicação de recursos nessa
área já foi maior
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Quando um estrangeiro pretende recepcionar com simpatia em seu
país um visitante do Brasil, se mune dos conhecimentos que
tem da nação para demonstrar hospitalidade. Brazil:
futebol, samba, carnaval, caipirinha. No mundo dos negócios,
um novo item integra a lista de saudações. Se com
a bola nos pés a seleção nacional não
tem o mesmo prestígio, no cenário econômico
das energias renováveis o verde e amarelo ainda é
o adversário a ser batido.
Mas nem sempre foi assim. Há 20 anos, o ranking de competitividade
em cana-de-açúcar era comandado por Cuba e Austrália.
Hoje, o Brasil lidera a tecnologia de produção de
cana, com a maior produtividade do mundo. Segundo a Companhia Nacional
de Abastecimento (Conab), possui área plantada de 6,2 milhões
de hectares. Cada hectare produz 6 800 litros de álcool
mais da metade do índice alcançado pelo maior produtor
do mundo, os Estados Unidos, onde se obtém 3 200 litros de
etanol.
Essa competitividade oferece perspectivas superlativas ao Brasil.
A Unica identifica projetos de construção de 89 usinas
- 10 unidades no Norte-Nordeste e 79 no Centro-Sul. São Paulo
absorve praticamente 52% do número total, embora Goiás,
Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso também apareçam
como fronteiras da expansão.
A produção de álcool, que na última
safra alcançou 16,5 bilhões de litros, passará
de 31 bilhões de litros em 2013 se as demandas doméstica
e internacional forem confirmadas. Para atender tamanhos volumes,
serão necessárias 680 milhões de toneladas
de cana-de-açúcar.
Favorecido por clima e insolação, o Brasil se tornou
foco da ânsia mundial por energias renováveis. Mas
essas características não são as únicas
responsáveis pela supremacia brasileira. Os investimentos
em pesquisas científicas e avanços em tecnologia de
produção de cana foram fundamentais, argumenta
o pesquisador William Lee Burnquist, coordenador do Programa de
Melhoramento Genético do CTC.
Na década de 60, a produtividade média de São
Paulo era de 65 toneladas por hectare, que as pesquisas elevaram
para 90 toneladas por hectare atualmente, o que significa, segundo
cálculos do IAC, 92,5 milhões de toneladas a mais.
Comercializada, esta quantidade adicional soma R$ 4,6 bilhões.
Apesar dos custos baixos e da alta eficiência de produção
conquistados pela indústria sucroalcooleira nacional, ainda
é possível aumentar os níveis de produtividade.
Entretanto, para continuar à frente é necessário
que continue investindo em novas tecnologias. Só com
o investimento em pesquisa e a manutenção na qualidade
que temos hoje é que o setor vai continuar forte, reconhece
o diretor técnico da Unica, Antônio Pádua.
Retração de investimentos
O investimento em pesquisa é apontado como uma das atuais
deficiências do setor sucroalcooleiro neste processo de expansão.
A aplicação de recursos nessa área já
foi maior. Os canaviais estão se expandindo para áreas
não tradicionais e os riscos são maiores. Precisamos
reduzi-los com pesquisa, aponta o usineiro Maurílio
Biagi Filho.
O pesquisador João Carlos Bespalhok Filho, da Universidade
Federal do Paraná, que integra a Ridesa, alerta que as atividades
sucroalcooleiras tem crescido de forma expressiva nos últimos
anos, mas o dinheiro investido em pesquisa científica não
acompanha os avanços na mesma proporção. Se
continuarmos a diminuir investimentos em pesquisa, o setor corre
sérios riscos de diminuir a competitividade que possui atualmente,
reitera.
Segundo Bespalhok, os investimentos devem incidir no desenvolvimento
de variedades de cana mais produtivas, tecnologias de produção
mais baratas e limpas, além processos de produção
industriais mais eficientes.
Para o pesquisador Marcos Guimarães de Andrade Landell, diretor
do IAC, a principal preocupação deve ser criar material
tecnológico para as áreas consideradas novas fronteiras
da cana, como Sul de Goiás, Oeste de São Paulo, Rio
Grande do Sul, Tocantins, e Mato Grosso do Sul. Precisamos
construir estações experimentais nessas áreas
para oferecer sustentabilidade ao crescimento nessas áreas.
Não enxergo no momento organização para investir
compativelmente com a expansão.
Landell credita a redução de investimentos a uma mudança
de foco nas usinas, que estariam mais interessadas em desenvolver
sistemas industriais neste momento de expansão. De
certa forma, algumas unidades já estão satisfeitas
com os resultados das pesquisas obtidos até agora e priorizam
tecnologias modernas. Mas não podem esquecer que quem faz
açúcar e álcool é um ser biológico
que demora 10 anos para ser criado.
O pesquisador ainda aponta a mudança no sistema de financiamento
de pesquisas como outro aspecto favorável à queda
de investimentos. Segundo ele, parte dos recursos oferecidos por
instituições de fomento (CNPq, Fapesp e Finep) é
disputada com outras culturas e os critérios de prioridade
nem sempre são simpáticos à cana.
Ao contrário de outras culturas, as pesquisas em cana são
financiadas prioritariamente pela iniciativa privada e produtores.
Para o professor da Esalq/USP, Marcos Silveira Bernardes, a responsabilidade
deveria ser compartilhada com o Governo. Isso é louvável
do ponto de vista do esforço dos produtores. Mas comprova
o descaso dos Governos com essa atividade, que apresenta resultados
de longo prazo e é tipicamente responsabilidade do Estado.
De acordo com Bernardes a proporção de recursos oficiais
aplicados na pesquisa com a cultura da cana-de-açúcar
é muito inferior à participação dessa
cultura na geração de tributos, superior a 30% no
setor agrícola.
Embora em proporções menores do que as consideradas
ideais, Governo e iniciativa privada investem na área, diz
Burnquist. Segundo o pesquisador, mesmo sem especificar programas
de melhoramento genéticos como beneficiários, o Governo
disponibilizou recentemente recursos que podem ser usados pela biotecnologia
para desenvolver o setor sucroalcooleiro.
A Embrapa está acolhendo propostas de Projetos de P&D
em biologia avançada e suas aplicações no agronegócio
- o valor total máximo de recursos aplicados nessa chamada
será de R$ 18, 5 milhões. O Governo lançou
um plano estratégico para contribuir com a expansão
indústria de biotecnologia que oferece R$ 7 bilhões
em dez anos.
Para Burnquist, os números de evolução do CTC
demonstram aumento de investimento em pesquisa. Desvinculado da
Copersucar desde agosto de 2004, o Centro aumentou o número
de associados de 79 para 123 até o início de julho,
responsáveis por 52% da produção de cana do
Centro-Sul. Não posso dizer que estou totalmente satisfeito
com o nível de investimento nacional hoje, mas aqui no CTC
pelo menos eu também não posso chorar, diz.
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| Pesquisadora observa teor de sacarose na cana:
ainda é possível aumentar os níveis de
produtividade |
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Ambiente desconhecido
Os recursos que o CTC movimenta estão sendo investidos para
desenvolver variedades adaptáveis às novas fronteiras
de cana. O Oeste Paulista deve agregar às 62 usinas de açúcar
e álcool instaladas na região outras 40 novas unidades
até 2013 a Udop garante que ainda há mais espaço
para crescer, sobretudo em áreas ocupadas antes por pastagens.
O mesmo acontece em outras regiões que vão receber novos
empreendimentos. Em todas, os solos para plantio nunca haviam cultivado
uma muda de cana sequer.
Assim como a produção de soja se desenvolveu no cerrado
por meio de variedades especialmente desenvolvidas para a região,
a expansão da cana depende de material biológico adequado.
Quando há expansão, a tecnologia industrial acompanha,
mas a biológica, não, explica Burnquist.
O CTC estima que a expansão do cultivo atinja dois milhões
de hectares nas novas fronteiras. Mas o material biológico
disponível atualmente foi desenvolvido para as regiões
tradicionais, principalmente o Centro-Sul. Segundo Burnquist, a planta
está sendo cultivada em ambientes que desconhece e pode apresentar
comportamento indesejável. Solo, pragas e clima são
diferentes. O desenvolvimento da cana tende a ser pior do que no lugar
de origem.
Há dez anos, uma usina da região Centro-Oeste e o IAC
estudaram o desempenho de variedades. Uma cultivar foi plantada em
30% da área da unidade. Não adaptada às condições
locais, produziu 29,4% menos açúcar do que em regiões
tradicionais.
Para produzir índices competitivos, as regiões exigem
variedades com características particulares: aumento do teor
de açúcar; maior resistência a pragas; inibição
de florescimento; resistência a doenças; resistência
a fatores abióticos adversos; tolerância a herbicidas;
maior produtividade; sistema radicular mais profundo (para usar melhor
os nutrientes do solo); maturação boa; brotação
da soqueira em condições adversas de secura; porte para
mecanização de plantio; e colheita, longevidade do canavial
(7 ou 8 cortes)
Segundo Bespalhok, no Centro-Sul as usinas têm buscado variedades
precoces com o intuito de prolongar o período de safra. Essas
características tem grandes possibilidades de serem alcançadas
em um futuro próximo, diz. O CTC já realiza cruzamento
dirigido entre variedades com características desejáveis
para uso específico nas novas fronteiras.
Pragas
Além de desenvolver variedades resistentes, as pesquisas também
buscam alternativas de combate a pragas. O controle biológico,
estabelecido com sucesso principalmente em São Paulo, ainda
não foi desenvolvido para estas regiões. Segundo Burnquist,
a cigarrinha e a broca representa a principal preocupação.
Estas pragas podem surgir com força, e sem inimigos naturais
a disposição do produtor.
O pesquisador afirma que não há risco de aparecem pragas
desconhecidas das usinas, podem atrapalhar os insetos já habituais,
mas com intensidade. As características de solo e clima do
Oeste de São Paulo, por exemplo, favorecem o ataque de migdolus,
nematóides e cupins.
Algumas pragas, que não representam problemas no Sudeste do
Brasil, atacam lavouras em Goiás. As lagartas desfolhadoras,
beneficiados pelo clima seco do Centro-Oeste, que retarda o crescimento
da cana, comem as folhas da planta.
Os pesquisadores agora testam fungos para criar inimigos naturais
nessas regiões. O trabalho, porém, é lento. Acredito
que em dois ou três anos vamos ter resultados concretos,
estima Burnquist.
Outros desafios
Os desafios da pesquisa não estarão terminados quando
variedades e inimigos naturais estiverem totalmente desenvolvidos.
Embora líder no mundo, teoricamente a produtividade potencial
brasileira pode ser maior em relação aos índices
vigentes.
O potencial biológico da cana é de 350 toneladas de
colmo/ha/ano, mas hoje apenas 28% deste total é alcançado
a produção média de cana de 12 meses é
90 t/hectare em São Paulo. Burnquist estima que em poucos anos
o Brasil possa melhorar a produtividade atual em até 25%. Precisamos
aumentar ainda mais a produtividade, porque açúcar e
álcool são commodities, e o preço está
caindo. Temos que diminuir também os custos de produção,
diz Maurílio Biagi Filho.
O programa de melhoramento de variedades será um dos mais importantes
pontos de apoio para o Brasil, no curto prazo, aumentar da produção
e se manter competitivo. Até porque o mundo não
está parado, comenta Burnquist.
No passado, a descrença às vezes até o
deboche sobre a possibilidade de fabricar álcool a partir
do milho era comum no Brasil. Hoje, em quantidade de litros produzidos,
os Estados Unidos dominam o mercado mundial utilizando esta matéria-prima
(17 bilhões de litros/ano) mas o custo econômico
ainda é maior. Mas eles estão trabalhando. E se,
de repente, descobrirem o ovo de Colombo? Não podemos
ficar sentados. |
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