|
Assim como um jogador de futebol se prepara com chuteiras, meiões
e shorts largos no vestiário prestes a entrar em campo, o
produtor rural Antônio Sarti veste macacão, óculos,
chapéu, máscaras e luvas antes de pulverizar defensivos
agrícolas em uma lavoura de cana na região de Sertãozinho
em épocas de plantio. Os Equipamentos de Proteção
Individual (EPI) são adquiridos a partir de orientação
técnica das usinas que compram as 3,3 mil toneladas colhidas
anualmente na propriedades de 48 hectares. A roupa incomoda,
mas já tive problemas de dores de cabeça e estômago.
Acho que foi intoxicação. Por isso, uso o EPI.
A consciência, porém, se restringe à necessidade
do uso. A compra do EPI, assim como ocorre em algumas usinas, avalia
critérios subjetivos de escolha. Estamos acostumados
a algumas marcas, mas também compramos pelo preço,
admite o produtor. A gente acaba sabendo se é bom usando
mesmo, completa.
Campeão mundial em produtividade agrícola e custos
de produção, e principal beneficiado pelas perspectivas
globais para o uso de energias renováveis, o Brasil precisa
investir em setores básicos da atividade sucroalcooleira
para atingir a excelência. Mais de 470 anos após o
surgimento da cultura (as primeiras mudas chegaram em 1532), o país
ainda não dispõe de normas para certificar a qualidade
de equipamentos de proteção usados na pulverização
e corte de cana.
A falta deste tipo de parâmetro de avaliação
ganha mais evidência no momento em que o setor tem contra
si acusações de mortes por maus tratos a cortadores
de cana. Algumas inspeções da Procuradoria do Trabalho
em usinas paulistas analisam, além de irregularidades nas
condições de trabalho de ruralistas, o fornecimento
de equipamentos de proteção.
Mas a composição formada pelo uniforme, embora possa
atender as fiscalizações, não garante a segurança
do colaborador. Os equipamentos usados para manuseio de defensivos
agrícolas e algumas peças necessárias ao trabalhador
do corte de cana não passam por testes de qualidade antes
de chegar ao mercado. O principal prejuízo é
para a saúde do trabalhador. Sem critérios definidos
para avaliação da qualidade, não há
como atestar que o EPI é eficaz, ou em quais situações
o produto pode ser utilizado com segurança, afirma
o pesquisador do IAC, Hamilton Ramos.
No Brasil, a única exigência para que um produto seja
considerado como equipamento de proteção é
o Certificado de Aprovação (CA) do Ministério
do Trabalho documento emitido com base na apresentação
de uma Anotação de Responsabilidade Técnica
elaborada pelo próprio fabricante. O Governo não realiza
qualquer teste de comprovação da eficiência
do EPI ofertado.
A deficiência deriva de uma indicação que começou
a ser usada no início da década de 90. Quando foram
desenvolvidas as primeiras vestimentas de algodão com tratamento
hidrorrepelente, que hoje são a base da proteção
para riscos químicos no campo, o mercado brasileiro selecionou
duas normas da American Association of Textile Chemists and Colorists
como padrões para avaliação da qualidade.
Até hoje, a maior parte dos fabricantes que se preocupam
com a qualidade dos equipamentos produzidos utilizam estas normas.
Mas, a AATCC não é uma associação com
atribuição de normatizar EPI.
Esta situação faz com que o trabalhador use
vestimentas que possuem o CA para manipulação de agrotóxicos,
que, no entanto, lhe proporcionam pouca ou nenhuma proteção
contra o risco a que está exposto, acredita o pesquisador
do IAC.
Segundo o gerente de segurança do trabalho da Usina Guaíra,
Mário Márcio do Santos, que também é
presidente do Grupo de Segurança Ocupacional do Setor Sucroalcooleiro
(GSO), muitos EPIs usados na área agrícola atualmente
foram idealizados para a área industrial das usinas e adaptados
para utilização no campo.
O GSO defende a criação de comissões técnicas
tripartites entre usinas, usuários e fornecedores
- para discutir de forma contínua a elaboração
de projetos de EPIs exclusivos para a área agrícola.
A criação de normas específicas via entidades
como a ABNT resolveria a questão, aponta.
Dias contados
Segundo o IAC, a situação, entretanto, deve durar
apenas até o início de 2007. Neste prazo, a entidade
deve anunciar o desenvolvimento de normas que atestem a qualidade
dos equipamentos. O trabalho é realizado em parceria com
um conjunto de fabricantes, com a Fundação de Apoio
à Pesquisa Agrícola (Fundag) e com usuários
de EPIs junto à Associação Brasileira de Normas
Técnicas (ABNT) a Associação dos Fabricantes
de Equipamentos de Proteção Individual (Animaseg)
também apóia a iniciativa.
O projeto faz parte do Programa IAC de Qualidade em Equipamentos
de Proteção Individual na Agricultura (Quepia). Os
pesquisadores da entidade vêm estudando normas nacionais e
internacionais que possam ser aplicadas às vestimentas de
proteção. Este trabalho vem sendo desenvolvido há
três anos no âmbito do CB 32:006.03 Comissão
de Estudos de Luvas e Vestimentas de Proteção
Riscos Químicos da ABNT, através de reuniões
mensais, ocorridas na sede do IAC em Campinas (SP).
|