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Durante um painel do 1º Congresso Brasileiro da Cachaça,
que discutia a diferença entre a tributação
imposta às bebidas de alambique e de coluna, um dos congressistas
deixou o debate realizado no Hotel Ouro Minas, foi a um supermercado
próximo. Voltou minutos depois. Trazia nas mãos uma
garrafa de aguardente industrial vendida em larga escala no Brasil.
Interrompeu a apresentação e expôs a nota fiscal
o produto. Embalado em garrafas do tipo pet, o litro
da bebida foi comprado por R$ 1,99.
O valor final do produto é menor em relação
ao custo do Imposto sobre Produtos Industrializados pago por um
litro de cachaça de alambique. O Governo Federal aplica aos
grandes produtores a tributação do IPI de até
R$ 0,30 por litro e, aos pequenos produtores artesanais a taxação
de até R$ 2,26/litro. O gesto do congressista exemplificou
materialmente a necessidade de revisão na carga tributária
que incide sobre a cachaça de alambique.
Organizado pela a Federação Nacional das Associações
dos Produtores de Cachaça de Alambique (Fenaca) recentemente,
o Congresso reuniu argumentos para basear a proposta de criação
de uma proposta para a criação de uma política
pública voltada para o setor.
A partir do Congresso, os produtores de cachaça se organizaram
pela redução de problemas fiscais - e decidiram pressionar
o Governo Federal pela criação de políticas
públicas. O papel do produto dentro da sociedade, tanto
do ponto de vista econômico quanto cultural, já deveria
ser motivo de um tratamento mais cuidadoso. O que se vê hoje
é uma situação de injustiça fiscal com
o pequeno produtor, muito mais penalizado que o grande, afirma
o assessor técnico da Fenaca, José Vieira.
Provas físico-químicas
Durante o evento, o setor ganhou um argumento de peso. Uma pesquisa
desenvolvida por uma equipe de cientistas da Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG), coordenada pelo pesquisador alemão
Helmut Siedald, apontou um conjunto de diferenças físico-químicas
entre a cachaça de alambique e a bebida produzida a partir
de colunas de destilação.
Segundo Vieira, a indústria nacional, por motivos mercadológicos,
se recusava a reconhecer a distinção entre os dois
processos de produção. Isso é um grande
avanço. Essa comprovação representa um diferencial
competitivo para a cachaça de alambique. De acordo
com o assessor da Fenaca, a pesquisa explicitou que o produto apresenta
qualidade superior, provoca menores efeitos fisiológicos
no organismo do consumidor e tem maior reflexo sensorial ao paladar
em relação à bebida de coluna.
A Fenaca pretende usar os resultados da pesquisa para interferir
no processo de normatização da cachaça, que
ainda está em andamento. A legislação ainda
está em fase de construção, muitas regras não
foram estabelecidas. Neste contexto, este estudo é
muito importante, porque apresenta base científica. Não
está argumentado sobre opiniões ou interesses comerciais
e pode ajudar a cachaça de alambique a conquistar uma tributação
justa, acredita Vieira.
A cachaça de alambique busca atingir o público da
classe média, mas o mercado é amplamente dominado
pela bebida industrial. Cerca de metade da aguardente de cana
consumida no Brasil é produzida pelas quatro maiores empresas
do ramo de forma industrial, conta o assessor da Fenaca. É
impossível para o produtor de pequeno porte competir com
os grandes.
Existem no Brasil cerca de 30 mil pequenos produtores de cachaça
de alambique, responsáveis por volume aproximado de 400 milhões
de litros/ano - 65% dos profissionais produzem até 20 mil
litros/ano, contexto que os insere no conceito de agricultura familiar.
Consideramos que, em função da grande oligopolização
do setor e dos altos custos de marketing internacional de bebidas,
o caminho dos pequenos é buscar o chamado pequeno mercado
os 20% que estão fora do controle das gigantes e grandes
do setor, comenta o diretor executivo da Fenaca, Murilo Albernaz.
Mesmo sem competitividade, o produtor artesanal tem conquistado
algumas fatias de mercado das grandes empresas. Estatísticas
da Fenaca informam que a bebida amplia participação
no cenário interno em 5% ao ano. Com qualificação
e profissionalização dos produtores, a Federação
estima que a cachaça de alambique possa alcançar até
45% do mercado nacional até 2016.
O produtor brasileiro começa a investir também no
mercado externo. Com a aplicação de novas tecnologias
no plantio e fabricação, a cachaça de alambique
está atingindo melhores níveis de qualidade e sabor,
tornando-se bebida de luxo e de exportação.
Antes de buscar o mercado externo, porém, a Fenaca explica
que precisa resolver questões domésticas como a informalidade.
Segundo Albernaz, no sistema atual de tributação os
impostos são altos e levam o produtor à informalidade.
As grandes indústrias, que produzem cachaça
de coluna, pagam menos tributos porque operam com produtos mais
baratos, de pior qualidade, o que é injusto com os pequenos
que investem mais em tecnologia.
Para a Fenaca, também será preciso delinear uma estratégia
de internacionalização da cachaça que contemple
a diversidade do setor, diferenciando os produtos de coluna e de
alambique. Não há informações
consistentes sobre o mercado internacional de destilados, sua dinâmica
e características, e os diferentes contextos que possam orientar
as ações, permitindo uma priorização
fundamentada, acrescenta Vieira.
A entidade ainda recomenda o estudo do Caso Tequila,
último destilado internacionalizado. Atualmente, a bebida
gera ao México (seu país de origem) entre US$ 80 e
90 milhões por ano, e para seus engarrafadores norte-americanos
aproximadamente US$ 650 milhões de dólares anuais
segundo dados divulgados pela Agência USP Notícias.
Tributação discriminatória
Para reduzir impostos e criar condições de exportação,
a Fenaca pretende aumentar a articulação do setor,
que tem ambições e desafios que exigem mobilização.
Temos passado por um desenvolvimento significativo nos últimos
anos, mas persistem problemas estruturais que o atual nível
de organização não permite que sejam tratados,
acredita o assessor da Fenaca, José Vieira. Precisamos
lutar por uma política governamental para a cachaça
de alambique.
Os produtores artesanais reclamam das alíquotas que incidem
sobre a bebida. Até o ano 2000, eles tinham acesso ao sistema
Simples de tributação, mas a Medida provisória
2033/34 alterou a lei 9.317/96, vedando essa opção
a partir de 2001.
Segundo o diretor da Fenaca, a tributação privilegia
o grande produtor em detrimento do pequeno, que teria maior necessidade
de apoio do governo. Consideramos a tributação
excessiva, principalmente porque é discriminatória.
São pequenos empresários que investem numa bebida
de maior qualidade. Por isso, custa mais, diz Albernaz.
Apenas três Estados brasileiros comercializam mais da metade
da produção brasileira. Conforme a entidade, o conhecimento
tecnológico hoje disponível permite a produção
da cachaça em todo o território nacional. Como
fator de justiça social e desenvolvimento do setor, a política
a ser construída deve buscar o incentivo à regionalização
da produção, construída também em bases
científicas, descreve o diretor da Fenaca.
Carta
As discussões realizadas no evento alicerçaram a elaboração
da Carta do I Congresso Brasileiro da Cachaça, documento
que busca identificar as ações prioritárias
para a construção de estratégias de desenvolvimento
do setor.
Além da revisão imediata da atual estrutura tributária
do setor, com o intuito impedir a comercialização
de bebidas alcoólicas destiladas a R$ 2/litro, a Fenaca também
reivindica a realização de um censo nacional das indústria
e consumo de bebidas alcoólicas no Brasil. Esses dados
constituem uma insubstituível base científica para
uma política pública do álcool e para uma política
de desenvolvimento do setor produtivo, explica Vieira.
As considerações já foram encaminhadas à
Inteligência Comercial da Agência de Promoção
de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). O setor
deve apresentar, no prazo de seis meses, um projeto que inclua ações
de promoção e comercialização de cachaça
no exterior e no Brasil. Enquanto aguarda um parecer do Governo,
o pequeno produtor continuará pagando R$ 2,26 de IPI por
litro de cachaça comercializado.
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