Vaca louca abre mercado de leveduras
Levedura de cana tem mercado de R$ 350 milhões/ano
Em apenas cinco minutos de conversa, o telefone celular do chileno Tito Carlos Droghetti toca no mínimo umas três vezes. São clientes querendo saber o que pode ter tanto valor comercial em uma usina como o açúcar hoje. A resposta pode até parecer estranha, mas encontra-se na parte de efluentes, ou no lixo, de muitas usinas produtoras: a levedura. O produto, é verdade, assim como sua comercialização, já é de conhecimento da maioria das pessoas. O que há de novo é o processo de secagem que agrega valor à levedura e pode abastecer tanto o mercado interno como externo.

Estima–se que, hoje, as usinas estejam secando perto de 50 mil toneladas/ano movimentando um mercado de R$ 350 milhões. Do montante produzido, apenas 5 mil toneladas são consumidas no mercado interno, mas com as constantes altas do dólar dá para perceber que o lucro não vai secar tão cedo.

A levedura seca já apareceu uma vez no setor sucroalcooleiro. O produto era prensado em rolos e, quando surgiu pela primeira vez, seu valor comercial era muito baixo. Hoje, com o aparecimento do Mal da Vaca Louca o valor comercial da levedura seca e de outras proteínas de origem vegetal subiram de forma extraordinária. De acordo com Tito, o valor da tonelada seca de levedura está cotado em R$ 700, uma remuneração atraente se comparado com o açúcar, principal produto de uma usina hoje.

Pode–se dizer que o valor atraente da levedura encontra apoio em uma lei européia que proíbe a protéina de origem animal para a alimentação de animais ruminantes. Vale lembrar que o Brasil, um dos grandes produtores de carne no mundo, ao mesmo tempo é um grande consumidor de proteínas de origem animal.

A primeira planta de secagem de levedura, nessa nova geração, foi entregue pela Tecnape, empresa de Tito Droghetti que também presta serviço para quem tem qualquer coisa para secar. O primeiro projeto foi desenvolvido em parceria com a Destilaria Virálcool (que hoje já virou Usina) que funcionou como projeto piloto e que encontra–se em plena atividade. Das 300 usinas instaladas no país, perto de 25 estão dotadas com essa nova tecnologia de secagem de levedura (veja quadro), das quais, 20 foram implantadas pela Tecnape. Uma planta de secagem de levedura, com capacidade de 10 toneladas, custa para a usina em torno de R$ 500 mil. Entre as unidades produtoras com essa nova tecnologia encontram–se: Santo Antônio, Galo Bravo, São Martinho e Equipave. A empresa ICC é a maior exportadora do produto.
Tito: levedura seca de cana custa R$ 700 por tonelada
Tito conta que o “mapa da mina” foi descoberto a partir de algumas conclusões próprias: “A partir de várias leituras vi que o mundo ia precisar de muita proteína”, lembra. Além de levedura, o mercado brasileiro de secagem de alimentos abrange produtos como ovo, glicose, maltose, melaço, sangue de suínos e bovinos, uréia e outros. No momento dessa entrevista, a Tecnape estava fechando um contrato para a secagem de 50 mil “litros” de ovos por semana até fevereiro de 2000. “Para a fábrica não ficar ociosa caçamos qualquer coisa para secar” diz brincando. Recentemente, a Tecnape recebeu a visita de pesquisadores de uma Universidade argentina que estão engajados em um projeto para a secagem de melaço e uréia. A secagem estende o prazo de validade da levedura variando entre um e dois anos. Quando abrimos um frasco ou um pacote estamos fazendo com que o alimento nele contido entre em contato com a umidade relativa do ar e, como água é vida, estamos provocando o nascimento ou a proliferação de milhões de microorganismos. A secagem de alimentos retarda o desenvolvimento de uma série desses seres microscópios.
Marta, nova chance de emprego após fechamento da destilaria
O dinheiro que está movimentando o negócio de secagem dá para ser percebido no que está acontecendo na planta de melaço, única no mundo para esse fim e que funciona ao lado da planta própria de secagem da Tecnape, na Usina São Geraldo. Foi dado o start-up na planta apenas para teste, mas tamanha foi a procura pelo produto que a planta não parou mais. “Não temos como parar a fábrica” disse Tito lembrando que a planta tem ajustes para serem feitos. No empreendimento, que traz a marca de produtos Indumel, 25% do projeto pertence à Tecnape, enquanto que os outros 75% pertencem à Santa Elisa, controladora da Usina São Geraldo. No caso do melaço em pó, o preço de revenda não sai por menos de R$ 520 a tonelada. A levedura de cana não serve apenas para a alimentação de animais. Um projeto que encontra–se parado em Brasília, à espera de uma alma caridosa, prevê o uso da levedura de cana como complemento alimentar na merenda escolar de crianças. O projeto, de autoria desconhecida, estima que o consumo de apenas 20 gramas por dia é o suficiente para extinguir os problemas de desnutrição no Brasil.
Produto aguardando para ser exportado
Processo de secagem

A secagem de alimentos na planta da Tecnape, que encontra–se anexa à Usina São Geraldo, começa com a chegada do caminhão carregado de matéria–prima. Através de diversos equipamentos assépticos, o produto é colocado em tubulações até encontrar–se junto com ar filtrado e aquecido por gás ou vapor. De um lado dos equipamentos sai a umidade da levedura na forma de vapor, do outro, o produto pronto e seco para ser embalado. Depois de ensacado, o produto é empilhado e fica à espera de transporte. Apenas um funcionário por turno, numa planta de dez toneladas, é o suficiente para tocar todo esse processo descrito acima.

A planta da Tecnape possui capacidade para secar 15 toneladas/dia de levedura. O número de funcionários é bem maior que o citado acima porque é nessa planta que funciona o escritório de Tito Droghetti. Boa parte dos funcionários que trabalham com ele vieram da destilaria que foi desativada da Usina São Geraldo. É o caso da bióloga Marta Zolim Leite, responsável pelo controle de qualidade dos produtos que saem da planta. Após perder o emprego de laboratorista na Usina São Geraldo, Marta foi chamada para gerenciar os produtos que são secados pela Tecnape.

Sem comprometer a produção de álcool, uma Usina pode “sangrar” entre 20 e 30 gramas por litro da parte de fermentação para a produção de oito toneladas/dia de levedura. O resíduo numa planta de secagem de levedura é perto do zero, o líquido resultante evapora-se no ar. Um dos objetivos da Tecnape no Brasil, segundo revelou o diretor, é prestar serviços para empresas de várias segmentos secando tudo que é possível. Tito quer implantar no país uma planta semelhante a uma que viu no México durante uma viagem.
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