Reportagem de Capa – Edição 72 de Mar/Abr de 2002
Responsabilidade social nas usinas
e destilarias
Nas diversas reuniões de empresários de usinas e destilarias sempre se fala muito em trabalhar o marketing do setor. O assunto costuma ser dividido em marketing do produto e em marketing do setor perante a sociedade. Neste segundo tópico há várias ações de empresas que poderiam servir de munição sempre que a grande mídia passa uma imagem negativa para o público de alguma usina ou destilaria.

No que diz respeito à responsabilidade social, o caso mais notório é o da Companhia Energética Santa Elisa, única usina do mundo e uma das quatro empresas do país, até o momento, credenciada com a norma SA 8000. O coroamento de todo o processo de certificação e de todo o investimento no bem estar e instrução de seus funcionários, veio com a vitória de Maria Zeferina Rodrigues Baldaia, na São Silvestre de 2001 (veja quadro).

Vários são os caminhos para que as unidades sucroalcooleiras trabalhem sua imagem perante a sociedade. O caminho através da certificação SA 8000, por exemplo, passa por uma série de lições de casa que precisam ser aprendidas não só pelo setor sucroalcooleiro mas também por todos os segmentos industriais do Brasil e do mundo.

Na indústria em geral, o maior problema em lidar com a SA 8000 está no fato dela contemplar obrigações previstas na CLT - Consolidação das Leis do Trabalho. Foi observado que as empresas possuem dificuldade em acertar horas extras de empregados; outra dificuldade é recomendar aos seus fornecedores que trilhem o caminho da responsabilidade social. “O que normalmente as empresas fazem é enviar uma carta para seus fornecedores recomendando alguns procedimentos”, disse Reginaldo Maia, gerente da DNV-São Paulo, uma das oito empresas do mundo que emitem a certificação SA 8000.

Esse envolvimento entre a empresa e o fornecedor depende muito da freqüência dos produtos comprados ou serviços contratados. Traduzindo: a cobrança é maior quando a empresa está lidando com um fornecedor que está todos os dias prestando algum tipo de serviço na planta.

Trabalhar o marketing do setor e despertar empresas sobre responsabilidades sociais não são características exclusivas do setor sucroalcooleiro no Brasil. Existem, no mundo, 117 empresas com a certificação SA 8000, um número baixo se forem considerados os seis anos de existência da norma. Quando foram lançadas as ISO 9000 e 14001, o número de empresas que procuraram se certificar foi bem maior que isso. A ISO 14001, por exemplo, que foi lançada um ano antes da SA 8000, certificou até o final de 2001, só no Brasil, mais de 400 empresas. “A taxa de crescimento da SA 8000 realmente é muito pequena”, observa o gerente da DNV.

Das 117 empresas que já obtiveram a cerificação SA 8000, mais de 80% estão situadas na Ásia. O motivo principal está na tradição que os países asiáticos possuem em empregar o trabalho e por fugirem de obrigações trabalhistas. O Brasil não está muito longe desse quadro, mas a liberdade conquistada após a queda da ditadura e a facilidade de levar denúncias à grande mídia obrigou muitas empresas a cumprirem direitos trabalhistas.

Segundo Maia, o comprador pode até aceitar pagar um ágio sobre um determinado produto, uma vez que fica sabendo das certificações do seu fornecedor. Ele destaca o movimento similar que está acontecendo na área do café.

Após a certificação da Companhia Energética Santa Elisa na norma SA 8000, o gerente da DNV acredita em boas perspectivas nesse setor. “Como a Santa Elisa passa a ser referência estamos confiantes nesse setor”, disse ele destacando empresas situadas na região Centro-Sul do país quando o assunto é responsabilidade social. O setor de cosméticos é o que mais destaca-se no país na busca pela certificação SA 8000. Isto porque a multinacional de cosméticos Avon baixou uma instrução interna pedindo para que todos os seus fornecedores busquem a certificação SA 8000. Atualmente, a DNV tem cinco empresas em processo de certificação no país, das quais, três pertencem ao setor de cosméticos.

Recentemente, a norma SA 8000 passou pela revisão 2001 que passa a vigorar no lugar da revisão de 1997. A partir de janeiro de 2005 só terá validade a norma SA 8000, com a revisão de 2001. “As principais revisões de 2001 estão na área doméstica”, disse o gerente da DNV. As bases para a construção da norma SA 8000 são originárias de estudos da Organização Internacional do Trabalho.

Além de abordar aspectos éticos dos negócios das empresas, a Norma SA 8000 analisa nove itens: uso de trabalho infantil, trabalho forçado, saúde e segurança, liberdade de associação e negociação coletiva, discriminação, uso de práticas disciplinares, horas trabalhadas, remuneração e sistemas de gerenciamento. Também é baseada na Declaração Internacional dos Direitos Humanos e da Criança.

A norma ISO 9000, que visa sistemas da qualidade, foi a primeira que expandiu-se no mercado. Em seguida, veio a ISO 14001 que contempla políticas de meio ambiente. Caminham para o conhecimento do público, hoje, as normas SA 8000 de responsabilidade social, OHSAS 18001 de segurança e saúde ocupacional. Sempre há uma tendência das normas se integrarem, mas há outras específicas de pouco conhecimento do público. A TL 9000 do setor de telecomunicações; AS 9000 das empresas aeroespaciais; QS 9000 para a automobilística; e BS 7750 de tecnologia de informação.

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Na Edição Impressa
Nº 72 – Mar/Abr de 2002

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