Reportagem de Capa Edição 74
de Julho/Agosto de 2002
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Chuva de dinheiro no setor
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Uma chuva de dinheiro poderá cair no setor de álcool
e açúcar, caso se concretizem todos os acordos, pedidos e contratos
que envolvem os produtos e subprodutos provenientes da cana de açúcar.
No setor discute-se a co-geração de energia, o protocolo de Kyoto,
carro a álcool, oxigenação do diesel, plantas de biogás, exportação
de anidro e, inclusive, extração de hidrogênio a partir do álcool
para utilização no projeto de célula de combustível. Tudo é interessante
e abre perspectivas para um setor que sempre foi apoiado na balança
de produção: mais álcool menos açúcar e vice-versa. Entretanto, é
preciso lembrar que o bolo de dinheiro virá caso o setor esteja apoiado
em um bom planejamento de mercado interno. Nesse sentido, não adianta
pensar em exportar carro a álcool para Alemanha ou Inglaterra se não
tivermos uma política firme e consistente para o uso do veículo internamente.
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| Da esquerda para a direita: Boris Gorestin (Ciro), Ildo Sauer
(Lula), Wagner Victer (Garotinho) - mediador Ricardo Brito Pereira,
diretor da Vale do Rosário - e Luiz Paulo (Serra). |
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As questões internas, por sua vez, recaem sobre os
planos do próximo presidente do Brasil e que política possui para
o setor sucroalcooleiro. Vale lembrar que estamos em época de campanha
e, chama a atenção um setor que emprega mais de 1,3 milhão de trabalhadores.
Na cabeça de um político 1,3 milhão de trabalhadores é igual ou superior
a 2 milhões de votos.
Os planos dos presidenciáveis e as respectivas propostas para o setor
sucroalcooleiro foram apresentadas durante o 2º Seminário Internacional
Cana & Energia, promovido pelo Instituto Nacional de Eficiência Energética.
Nesse encontro, líderes do setor puderem ver de perto quais políticos
estão mais interagidos com o setor e quais políticas estão mais de
acordo com a retomada da produção de veículos a álcool, com a co-geração
de energia e com a imersão no mercado internacional.
Durante o encontro, que reuniu assessores dos quatro principais candidatos
à Presidência da República, o setor sucroalcooleiro foi exaltado por
toda a sua contribuição e potencial de desenvolvimento. Muito se falou,
mas nem todos agradaram o público presente com as propostas apresentadas.
Wagner Granja Victer, representante do presidenciável Anthony Garotinho,
foi um dos que mais agradou o público do seminário. Falou sobre as
diversas vantagens da biomassa e a dimensão econômica do setor sucroalcooleiro.
Lembrou da proibição que o Estado do Rio de Janeiro impôs ao uso das
barcaças para geração de energia elétrica. “O gasto é superior ao
que poderia se investir com bagaço de cana”, disse.
Victer também lembrou que o bagaço de cana não é sensibilizado pelas
altas de dólar, assim como acontece com o gás natural. “O bagaço dá
sustentabilidade para projetos futuros”. Citando o meio ambiente,
Victer disse que não houve esforços suficientes para a substituição
do diesel pelo álcool. Caso Anthony Garotinho seja eleito presidente
em outubro, Wagner Victer deixou no 2º Seminário uma série de promessas.
Vale a pena anotar para poder cobrá-lo. Prometeu reduzir a carga tributária,
a nível estadual e federal, para veículos híbridos; a redução tributária
de ativos para projetos de co-geração (IPI, ICMS e II); obrigar às
concessionárias a adquirirem pelos menos 10% de sua energia de fontes
alternativas; recuperar atraso de mais de 20 anos em derrubar barreiras
tarifárias; elaborar programa, a fundo perdido, de inventário do potencial
de biomassa com bagaço; desburocratizar linhas do BNDES para investidores
em biomassa; melhorar infra-estrutura para a transferência de álcool
entre a produção e o consumo; financiar o produtor desde que se faça
investimentos em tecnologia (uma remodelação do Rio Cana); definir
valor para que o produtor receba parte do ICMS de volta; e remodelar
o “Cheque-Cidadão” para atender o setor sucroalcooleiro.
Boris Garbati Gorestin, representante do presidenciável Ciro Gomes,
acha que o país não tem uma política energética integrada, motivo
pelo qual a energia proveniente de biomassa estaria fora da pauta
de discussão do atual governo. Os projetos eólicos, biomassa e de
PCHs estariam sendo tratados de forma distintas e não em conjunto.
“É como um míope que precisa andar dois metros e só enxerga dois centímetros”,
disse Gorestin. Ele acha que é preciso ter um desenvolvimento tecnológico
no país envolvendo o setor de energia, através de um elo entre a iniciativa
privada e o governo. “Com muitos recursos é possível investir em vários
desenvolvimentos, mas com poucos recursos é preciso ver onde pretende-se
investir”, argumenta.
Gorestin e Victer comungam da idéia que não é preciso haver a criação
de novos fundos para o Brasil avançar na capacitação tecnológica.
Acreditam que fundos já existentes poderiam ser utilizados para o
avanço das pesquisas da energia de biomassa. É o caso do 1% de contribuição
que a Aneel arrecada das concessionárias para custear programas de
desperdício, pesquisa em novas fontes energéticas e modernização das
atuais.
O representante de Ciro Gomes acredita que no setor sucroalcooleiro
falta um compromisso social com o homem do campo, diante da mecanização
que avança nos canaviais. “Não se deve ser contra o desenvolvimento
tecnológico, mas é preciso ter uma política social”. Ele também lembrou
que a solução para o problema no campo não é algo fácil de se resolver.
“Não se tem soluções mágicas. Temos de realizar uma ampla discussão
com a sociedade”.
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| Biogás começa a se tornar viável com petróleo a US$ 28 |
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Gorestin falou ainda que é preciso conciliar os diversos
interesses energéticos, que competem com a tradicional fonte de energia
no país que é a hidrogeração. Discordando de Wagner Victer sobre a
compulsoriedade de aquisição de fontes energéticas, Gorestin disse
que é preciso criar cultura nas concessionárias sobre o assunto. “Não
se pode obrigar as concessionárias a comprarem esse tipo de energia”.
O representante de Ciro Gomes apresentou propostas que envolvem todo
o setor energético: estabelecimento de regras claras e estáveis; eliminação
de regras que geram volatividade excessiva; expansão competitiva do
setor elétrico; parcerias entre capital público e privado em projetos
de interesse nacional; criação de mecanismos efetivos que garantam
transparência; mecanismos para avaliação do desempenho de agências;
aproveitamento recursos energéticos; fornecimento de derivados do
petróleo em todo o território nacional; desenvolvimento sustentado
e defesa dos interesses do consumidor. Luiz Paulo Vellozo Lucas, representante
do presidenciável José Serra, teve a dura batalha de defender o que
Fernando Henrique Cardoso (FHC) fez para o setor sucroalcooleiro nesses
oito anos de governo. Foi atacado pelos outros três presidenciáveis
durante boa parte do tempo e, sem querer, acabou admitindo que FHC
deixou de dar a devida atenção às usinas, destilarias e aos produtos
por elas produzidos.
“O Pró-álcool foi reestruturado da pior maneira possível permitindo
que as empresas quebrassem... O governo não deu a oportunidade para
uma reestruturação ... O setor é portador de vantagens competitivas”,
disse Luiz Paulo. Ele acredita que o relançamento do álcool combustível,
no momento, é uma oportunidade que o país não pode deixar passar em
branco.
Luiz Paulo apresentou as seguintes propostas do candidato José Serra:
reocupação da capacidade ociosa das usinas; o álcool deverá ser prioritário
para conquista do mercado externo; atenção às inovações da indústria
automobilística; e dar competitividade ao álcool hidratado.
Ildo Sauer, representante do presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva,
foi outro que agradou muito o público com as propostas apresentadas.
Demonstrando conhecimento do setor, Sauer discorreu sobre a situação
das empresas antes e depois dos anos 1998 e 1999 (momento que o álcool
combustível passou por uma de suas piores crises). “Há possibilidades
da exploração do diesel para aumentar a participação do álcool”, pontuou
Sauer.
Ele chamou a atenção para o sucateamento da frota alcooleira e defendeu
mudanças para evitar a extinção do veículo. “Se não houver uma política
adequada teremos uma saída progressiva dos veículos a álcool”, advertiu.
Sauer apresentou as dez propostas do PT ao setor e que serão implementadas,
caso Lula seja eleito em outubro: definição do álcool como aditivo;
criação de mecanismo regulador através de câmaras setoriais; transparência
da necessidade do setor para que sejam identificadas as reais necessidades
de subsídios; tratamento especial para as relações de trabalho, especialmente
em 20% das usinas onde o problema não foi resolvido; implantação de
mecanização da lavoura; definição de áreas adequadas da cana; pôr
fim às queimadas; implantação da alcoolquímica como substituto da
petroquímica; aproveitamento de usinas falidas para reforma agrária
ou utilização daquelas com débitos impagáveis; e política fiscal justa
para o álcool e açúcar.
O representante de Lula disse que o potencial do álcool poderia ter
livrado o país do racionamento do ano passado. “A razão da crise não
foi a falta de água”, comentou. Ele sinalizou para um potencial teórico
de geração de energia da ordem de 10 mil MW com a tecnologia atual,
sem contar o uso de palhas pontas. Lembrou ainda que o modelo elétrico
atual cria riscos para o investidor internacional e usuários, motivo
pelo qual há uma certa escassez de investimentos.
Ouvintes dos quatro representantes dos candidatos consideraram que
o encontro, promovido pelo INEE, foi muito positivo para o setor sucroalcooleiro
e abre perspectivas para cobranças futuras, uma vez que muitas das
propostas apresentadas vão de encontro com os anseios de usinas e
destilarias.
“O encontro foi muito positivo. Nunca aconteceu um evento desses”,
analisa Rodrigo Biaggi, diretor geral da Cevasa. Ele acredita que
todos os candidatos estão alinhados com o setor, mas acha que o candidato
do governo, José Serra, pelo que foi exposto, está com uma visão mais
voltada para o mercado externo. “Tem muita coisa a fazer no mercado
interno”.
Manoel Régis Lima Verde Leal, diretor da Copersucar, considera que
todos os representantes fizeram uma abordagem geral sobre o setor
de álcool e açúcar, mas que nenhum deles comentou sobre prazo para
as propostas apresentadas. “Eles deram alguns números mágicos. A abordagem
foi razoável. Realmente, tem que ter a definição de uma política energética”,
comentou o diretor.
Para Ricardo Brito Pereira, diretor da Vale do Rosário, seria interessante
que as propostas fossem implantadas ao longo de quatro anos, seja
lá qual for o governo. “Fico feliz em ver propostas não muito distantes
daquilo que buscamos para o setor”, pontuou Pereira. |
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Nº 74 Jul/Ago de 2002
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