Reportagem de Capa – Edição 77 de Jan/Fev de 2003
Safra 2002/2003 apresenta crescimento, mas não atende as expectativas iniciais
Produção de açúcar registra aumento de 15,83% no Centro Sul do país
As previsões iniciais da União da Agroinústria do Estado de São Paulo para a safra 2002/2003 do Centro-Sul apontavam para uma colheita de 272 milhões de toneladas de cana, índice não alcançado devido a fatores climáticos. Mesmo assim, os dados finais divulgados recentemente pela entidade determinam um crescimento de 10,37% no volume de cana-de-açúcar moída. Até o dia 16 de janeiro, haviam sido esmagadas 269.452 milhões de toneladas de cana na região. No período 2001/2002, este número atingiu 244.219 milhões de toneladas.

Em razão de fatores climáticos (precipitações pluviométricas e seca), muitas usinas anteciparam o final da moagem, o que provocou uma inversão das expectativas iniciais informadas. Mas a interferência do clima também colaborou com o aumento do rendimento industrial verificado nesta safra, que registrou maior quantidade de açúcar contida em cada tonelada de cana.

A safra 2002/2003 do Centro-Sul alcançou índice recorde de ATR (Açúcar Total Recuperável em produto) com 39,3 milhões de toneladas – a maior taxa havia acontecido em 99/00 (38,4 milhões de toneladas). Desta vez, cada tonelada de cana produziu em média 147 kg de ATR. O balanço da Unica mostra que na segunda quinzena de outubro houve um aumento inesperado do rendimento industrial, com 157,46 kg de ATR por ton/cana, o que ajudou a elevar a média.

“Nós esperávamos uma colheita de 12 a 15% maior. Embora tenha havido um crescimento, não foi aquilo que se projetava. Nós tivemos, porém, aspectos bons. O rendimento industrial foi muito melhor do que o da safra anterior, o que compensou relativamente a menor produção agrícola”, analisa Manoel Ortolan presidente da Orplana (Organização dos Plantadores de Cana do Estado de São Paulo) e da Canaoeste (Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo).

A concentração de açúcar na cana, aliada à desvalorização do real ocorrida no ano passado, estimulou as exportações do produto. O mercado externo absorveu 13,35 milhões de toneladas de açúcar, o que gerou uma arrecadação estimada de U$S 2 bilhões – sem crescimento da receita em relação a safra anterior. “Esse índice contribuiu para o saldo positivo da balança comercial brasileira”, destaca Antônio de Pádua Rodrigues, consultor da Unica.

A produção de açúcar registrada no Centro-Sul acumulou 374 milhões de sacas de 50 kg, aumentando 15,83% sobre as 318,869 milhões de sacas da safra anterior. Também foram fabricados 11,142 bilhões de litros de álcool, volume 9,93% superior aos 10,147 bilhões de litros do período 2001/02. A produção de álcool hidratado aumentou 10,6%, enquanto a de anidro subiu 9,4%.

Através destes volumes, o setor sucroalcooleiro também conseguiu atingir bons índices de rendimento monetário. “Com a quantidade de cana menor, conseguimos obter mais vantagens financeiras. O faturamento foi bom e em relação à safra anterior melhorou devido à desvalorização do real que favoreceu a exportação e a produção enxuta, o que acabou elevando os preços a partir de outubro”, confirma Ortolan.

Aumento da demanda de álcool

Para a Única, apesar da produção mais alta tanto em matéria-prima quanto nos subprodutos da cana, a grande surpresa foi o aumento do consumo do álcool combustível, que ultrapassou as expectativas do setor e do governo. Mesmo com o aumento de 1 bilhão de litros de álcool na safra 2002/03, os estoques não conseguiram suprir a demanda, incentivada por práticas não tradicionais da utilização do combustível.
Fatores climáticos influenciaram a antecipação da moagem
A maior procura pelo álcool deveu-se o uso do combustível com índice de 25% de mistura à gasolina, ao grande número de conversões de automóveis movidos à gasolina para o álcool e à prática do chamado “rabo-de-galo”, que é a mistura feita por conta própria do álcool na gasolina. O volume de consumo acima do esperado pelo setor e pelo governo atingiu 700 milhões de litros de álcool. “Tudo isso ocorreu porque havia vantagem econômica do preço do álcool sobre a gasolina”, afirma Eduardo Carvalho, presidente da Unica.

Para garantir o abastecimento do combustível na entressafra, os produtores de álcool determinaram algumas providências de emergência e anteciparam o início da safra em um mês – a colheita deve começar no fim de março e início de abril. Outra medida negociada com o governo foi a redução temporária do índice de mistura à gasolina, que passou de 25% para 20%. “É uma disposição extrema, é a melhor solução diante desta situação”, garante Maurílio Biagi Filho, conselheiro da Unica.

Em reunião recente realizada com o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, os produtores de álcool se comprometeram também a produzir 600 milhões de litros de álcool em 2003, adicionar 1,5 bilhão de litros à oferta da safra 02/03 e assegurar um teto de preços do produtor de R$ 0,90 o litro de álcool hidratado (com PIS e Cofins) e R$ 1,00 o litro de álcool anidro.

“São providências de socorro. Quando estamos antecipando a safra em um mês, significa que nós vamos precisar moer mais cana para fabricar uma mesma quantidade de álcool. Vamos solucionar um problema, mas também vamos estragar um pouco de cana”, pondera Manoel Ortolan. Com os estoques de álcool apertados, outras medidas também foram tomadas como a importação de 30 milhões de litros do Nordeste e de 60 milhões litros do estoque da Petrobras.

Em conseqüência, o acordo firmado entre o governo e o setor produtor de cana-de-açúcar deverá resultar na redução da exportação de duas toneladas açúcar em 2003. A quantidade de açúcar que deixará de ser enviada ao exterior corresponde a aproximadamente 15% do total exportado no ano passado. Segundo as projeções da Unica, a safra da região Centro-Sul deverá crescer 4,75% - somando 282,3 milhões de toneladas – no período 2003/2004. O aumento reflete o crescimento de 5,15% da área plantada, que chegará a 3,5 milhões de hectares. Parte significativa da cana-de-açúcar a ser colhida será destinada à produção de álcool, que crescerá 13% em relação à safra passada – chegando a 12,6 bilhões de litros. Já a produção de açúcar deve retrair para 17,2 milhões de toneladas – o que representa uma queda de 7,8%.

Antecipar a colheita significa, por um lado, um tempo de manutenção menor – já que as unidades precisam ser remontadas com certa rapidez para voltarem a moer a cana – e também um menor teor de sacarose – já que, nos meses de março e abril, a cana ainda não está madura o suficiente para ser colhida. Com isso, os custos de produção devem ser maiores.

A antecipação da safra também resulta na redução do teor de ATR. Mesmo assim, as projeções indicam um crescimento de 2,78% sobre os números da safra anterior – atingindo 40,6 milhões de ATR. Segundo Biagi, as maiores usinas do Brasil vão fabricar 15% a mais de álcool para atingir a projeção de produção estimada para a safra 2003/2004. Não é possível prever ainda se haverá prejuízos, que estão condicionados à reação dos preços no mercado internacional. “Se os preços no mercado externo aumentarem, pode-se exportar um volume menor sem perda da receita”, acredita a professora Heloisa Lee Burnquist, pesquisadora do Cepea (Centros de Estudos Avançados em Economia Aplicada) e da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz).

A mesma opinião é compartilhada por Eduardo de Carvalho. “A redução do açúcar será residual, tudo o que for a mais para moagem será destinado para o açúcar. Os preços do álcool estão bons e devem inibir os prejuízos”, prevê.

Além disso, com os dois principais concorrentes enfrentando problemas climáticos, o faturamento do setor sucroalcooleiro nacional pode ser favorecido. A União Européia, segundo maior exportador de açúcar, pode ter quebra da safra de beterraba devido a geadas e a Austrália, terceiro maior exportador, deve reduzir de 10% a 15% a colheita de cana-de-açúcar em decorrência da seca.

Ainda assim, o que deve mesmo ocorrer é o aumento do valor do açúcar comercializado no Brasil. “O preço pode sofrer aumento. Se no início da safra ficar caracterizado que vamos exportar menos, certamente o valor do produto sobe no mercado interno para recuperar a diferença do que foi ganho com o álcool e do que se deixou de exportar”, imagina Ortolan.
Segundo o IBGE, área plantada ou a plantar para a safra 2003/2004 deve crescer 4,84%
Safra

De acordo com informações do Ministério da Agricultura, a safra 2002/2003 do Brasil produziu 302 milhões de toneladas de cana, contra 292, 32 milhões de toneladas somadas em 2001/2002. Deste montante, 190,1 milhões de toneladas de cana foram moídas no Estado de São Paulo.

São Paulo, que produz cerca de 60% da cana colhida no país, teve aumento de 4,77% em relação a 2002 e apresenta previsão de produção da ordem 226,161 milhões de toneladas para a safra de 2003, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A produção total de açúcar no país chegou a 21,3 milhões de toneladadas – 14,2 milhões fabricadas em usinas paulistas. Na safra passada o Brasil totalizou 18,99 milhões de toneladadas de açúcar. No ano passado, o país exportou 2,18 milhões de toneladas de açúcar a mais que em 2001, apesar de o valor de rendimentos ter sido inferior em US$ 185,42 milhões.

O Brasil também amealhou 12 bilhões de litros de álcool produzidos, sendo 6,7 bilhões do tipo anidro e 5,28 bilhões de hidratado. Só em São Paulo foram fabricados 7,69 bilhões de litros do combustível.

O IBGE também indica que a área plantada ou a plantar para a safra 2003/2004 deve crescer 4,84% em relação a 2001/2002, chegando a 34,619 milhões de hectares. A expansão de 4,27% pontuada na produção de cana-de-açúcar para 2003 foi incentivada pelos preços da matéria-prima e dos seus principais derivados, o açúcar e o álcool.

Já no Nordeste, a safra 2002/03 deve atingir 49 milhões de toneladas de cana moída – 15% do total produzido no Brasil. Houve um breve aumento em comparação com o volume registrado no ano passado de 47 milhões de toneladas de cana. Até o fim de janeiro já haviam sido moídas cerca de 20 milhões de toneladas.

Para o presidente do Sindicato das Indústrias do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar), Renato Cunha, este crescimento pode ser atribuído a uma soma de fatores. “Fomos beneficiados por uma melhoria da produtividade associada a uma precipitação chuvosa menor que a registrada durante o período da colheita passada”, afirma.

Alagoas provavelmente será o maior estado produtor, com uma expectativa de colheita estimada em 23 milhões de toneladas. Apesar da seca, o estado atingiu as metas e é o segundo maior produtor de cana do Brasil. O setor também representa o maior nível de emprego de mão-de-obra não qualificada, com 150 mil registros em carteira diretos. Com previsão de 15,5 milhões de toneladas, Pernambuco garante o segundo lugar no Nordeste, seguido de Paraíba (4 milhões/ton.), Rio Grande do Norte (2,1 milhões/ton.), Bahia (2,050 milhões/ton), Sergipe (1,3 milhão/ton), Maranhão (1,1 milhão/ton) e Piauí (0,27 mil/ton).

Se comparada com os números do Centro-Sul, a produção do Nordeste representa índices baixos, mas possui grande valor estratégico para o Brasil. “Como acontecem em épocas distintas, as safras se complementam. Em alguns meses do ano, a produção nordestina corresponde a 100% da fabricação nacional”, detalha Cunha.
Na Edição Impressa
Nº 77 – Jan/Fev de 2003

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