Reportagem de Capa II – Edição 77 de Jan/Fev de 2003
Nova lei ambiental intensifica preocupação com o tratamento de efluentes
Vista geral do Sistema Aerado de Lodo Biológico - Usina Colombo
Em vigor desde o dia 5 de dezembro do ano passado, uma nova determinação da Legislação para controle de poluição ambiental administrada pela Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) estabelece que as unidades industriais devem passar por um Licenciamento Renovável para legalizarem a sua operação. A ingerência da entidade ambiental através de leis existe desde 1976 e prevê que toda usina precisa de uma aprovação realizada através projeto de licenciamento.

Atendendo a todas as exigências ambientais, a unidade recebe licença de instalação, licença de funcionamento e licença de operação, sobre a qual incide o Licenciamento Renovável, que a partir de agora deve ser realizado a cada dois anos. “Esta é uma inovação como sistemática de licenciamento e vem para exigir um aperfeiçoamento das condições ambientais”, explica Marco Antonio Artuzo, gerente da Agência Ambiental da Cetesb de Ribeirão Preto.

A planta industrial de uma usina é analisada inteiramente no processo de licenciamento ambiental e verificada através de, no mínimo, seis fiscalizações ocorridas no período da safra de cana-de-açúcar.

“A agroindústria possui atividades agrícolas e industriais que provocam poluição, impactos que precisam ser minimizados. A usina gera resíduos sólidos, efluentes líquidos, queima de combustível e liberação de fuligem. Precisamos controlar as conseqüências destas ações”, detalha Artuzo.

Para se adequar a todas as exigências ambientais, as unidades sucroalcooleiras estão buscando desenvolver mecanismos eficientes. Uma das mais novas tecnologias em tratamento de efluentes está implantada na Usina Colombo, de Santa Adélia (SP), que desde o ano passado utiliza o Sistema Aerado de Lodo Biológico, suficiente para uma cidade de 200 mil habitantes. Formado por três lagoas e dois tanques de decantação, este processo utiliza bactérias para decompor a matéria orgânica e atingir os níveis de poluição recomendados pela Cetesb.

As águas residuais são geradas e encaminhadas para o sistema de tratamento. A primeira etapa abrange o processo de separação de óleos e graxas através de caixas de decantação. Depois o efluente vai para a lagoa de recepção, para haver uma homogeneização da matéria orgânica.
Tanque de decantação , onde acontece a separação do lodo - Usina Colombo
Logo em seguida, o efluente é encaminhado para o tanque de digestão, onde ocorre a estabilização da matéria orgânica, que causa a poluição dos rios. Esse reservatório possui capacidade de 19 milhões de litros de água e abriga as cepas que vão fazer a decomposição dessa carga orgânica. As cepas são o lodo biológico, constituído de rotíferos, protozoários e bactérias.

O tanque de digestão é completamente aerado, composto por aeradores mecânicos que ficam na superfície, ancorados por bóias, oxigenando a água ininterruptamente. É necessário oxidar o tanque, pois se trata de uma ligação química do oxigênio com a matéria orgânica, que se estabiliza nesta fase do tratamento”, explica Marcos Domingos, diretor do departamento de meio ambiente da Usina Colombo.

Assim, a matéria orgânica passa a não ser mais agressiva ao meio ambiente e atinge os níveis recomendáveis de DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio) - um indicador de laboratório para a estabilização dos resíduos sólidos. “Se o efluente entra nesse processo com 1000 mg/l de DBO, no final sai com 100 mg/l. Um esgoto residencial pode ser neutralizado nesse tanque e se houver um tratamento seqüencial a água fica própria para consumo humano”, garante Domingos.

Durante o processo, um técnico responsável utiliza o laboratório construído ao lado do sistema para recolher amostras da água e medir o índice de oxigênio presente no efluente em períodos determinados de tempo. “É uma maneira de verificar a eficiência do tratamento durante o transcorrer da operação”, afirma Juliano Santos químico da usina.

Após a digestão dos sedimentos, o efluente passa para o tanque de decantação, onde acontece a separação do lodo, que é recolhido e retornado para o tanque de digestão. Esses agentes se multiplicam e a cada 600 ml/l uma parte é descartada. Através de bombeamento o lodo é enviado para área agrícola, e é usado como nutriente, adubo. Livre dos agentes biológicos, o efluente vai para o tanque de polimento que diminui mais um pouco a carga de impurezas sólidas e atinge os 60 mg/l de DBO exigidos pela Cetesb.

Além dos bons resultados ambientais, o sistema aerado também pode proporcionar outras melhorias para a usina. “O mecanismo também aumenta o controle de processos, minimiza a quantidade de produtos químicos de água usada. Ainda melhora o tipo de poluente gerado e obriga a controlar melhor a área industrial, para dar maior qualidade ao efluente que vai ser tratado”, enumera o diretor.

Vinhaça

Outro alvo da fiscalização da Cetesb é a vinhaça, produto proveniente da fabricação do álcool. No início das atividades canavieiras no Brasil, em meados dos anos 70, a vinhaça era evacuada em rios e canais abertos, o que provocava um índice incontável de morte de peixes e um comprometimento significativo de flora e fauna das regiões próximas às usinas. Com o início da sistemática de controle da poluição da Cetesb algumas medidas transitórias foram adotadas e a vinhaça passou a ser armazenada em solo. Logo surgiram, porém, as áreas de sacrifício, que acabaram comprometendo a qualidade da terra e das águas subterrâneas e foi necessário realizar um maior aprimoramento da questão.

A grande concentração de potássio observada na vinhaça estimulou estudos integrados para o aproveitamento do produto na área agrícola como fonte de adubação dos canaviais. Hoje essa prática é realizada em muitas unidades industriais e a Usina Santa Elisa possui um sistema integrado com base tecnológica para a utilização agronômica da vinhaça.

A Usina Santa Elisa desenvolveu uma estação de concentração de vinhaça exlcusiva, que funciona através de um sistema semelhante ao de fabricação de açúcar a vácuo. A vinhaça inatura é introduzida no equipamento com 3 graus brix e, através de múltiplos estágios de evaporação com água, fica concentrada e é separada. Os evaporadores elevam a vinhaça a 60 graus brix, com uma consistência bem pastosa.

Após esse processo, a vinhaça é aplicada na lavoura através de um sistema de fertirrigação em distâncias longas. Para isso, são usados vinhodutos, desenvolvidos por tubos plásticos de 16 polegadas que levam o produto até um determinado ponto para bombeamento até a lavoura. A Santa Elisa possui 20 Km de vinhoduto para transportar a vinhaça até o ponto mais alto da propriedade e irrigar as distâncias mais longas.

“Em vez de usar 100 m3 de vinhaça por hectare, você pode usar 7 m3 com o mesmo efeito do produto inaturo. Além disso, com os vinhodutos pode-se levar o restilho uma distância de até 60 Km. É um sistema fantástico, que contempla as nossas preocupações com a questão ambiental”, revela Maurílio Biagi Filho, diretor da Santa Elisa.

“Sendo aplicada de forma correta e ordenada, a vinhaça pode ser um eficaz fertilizante orgânico, desde que o processo de aproveitamento do resíduo siga rigorosamente os padrões agronômicos com critérios técnicos e sem agressão ao meio ambiente”, alerta o gerente da Cetesb. “O ganho na lavoura precisa estar associado ao ganho ambiental, que é a segurança exigida”, diz Artuzo.

A aplicação da vinhaça no solo também é realizada pela Usina Alta Mogiana, que armazena o resíduo em tanques e o bombeia para a lavoura. “Controlamos a quantidade de vinhaça utilizada na fertiirrigação para não causar danos ambientais”, afirma o engenheiro João Sisdelli Neto, gerente de produção industrial da unidade

Outro sistema de controle de efluentes utilizado pela Alta Mogiana e pela Santa Elisa é a torta de filtro, subproduto da fabricação de açúcar por filtragem, obtido em equipamentos rotativos para extração da sacarose residual da borra, que é o material decantado, resultante da clarificação do caldo de cana-de-açúcar. Através desse processo, dois produtos são gerados: o caldo filtrado e a impureza removida, levada diretamente para um caminhão preparado, que a transporta para o campo e a usa como adubo e esterco, misturado à terra. A produção da torta de filtro é da ordem de 2,5 a 3,5% da cana moída. É utilizado principalmente como fertilizante orgânico aplicado no sulco do plantio e ainda pode ser usada em fertilização orgânica de soqueiras, ou aplicado em área total, incorporado na camada arável do solo.
Aeradores mecânicos que ficam na superfície, ancorados por bóias, oxigenando a água ininterruptamente.
Tratamento através da água

Para contribuir com o tratamento dos efluentes gerados pela atividade industrial, a Santa Elisa desenvolveu um equipamento que alia a lavagem da cana com a diluição da vinhaça despejada na fertirrigação. Este circuito de água de lavagem de cana trata água suficiente para uma cidade de quase 200 mil habitantes, através de um processo de decantação, que retira toda a terra inerente à água e a devolve para a lavoura. O sistema trata 3 milhões de litros de água por hora.

A água chega nesse equipamento pelo chão e entra em contato com pás que giram e precipitam a terra. Assim, o líquido puro é colocado na parte de cima do aparelho e a terra é jogada para baixo, de onde entra em um sistema com uma bomba própria que a insere diretamente em um caminhão. Posteriormente a água é utilizada para diluir parte da vinhaça destinada ao processo de fertirrigação em aproximadamente 25 mil hectares de terras. O transporte acontece por um sistema que leva esta mistura até a terra por infiltração, passando por dois mil quilômetros de canais na extensão da usina.

A Santa Elisa também possui um sistema de resfriamento de águas, funcionando através de torres, que fecham o ciclo de águas industrias. A usina já investiu maciçamente para evitar más conseqüências ao meio ambiente. “Esse conjunto de sistemas propicia à usina possuir um circuito fechado de tratamento de efluentes. São mais de R$ 300 milhões investidos em todos esses equipamentos”, contabiliza Biagi.

Na Alta Mogiana, o tratamento de água também beneficia a redução da emissão de resíduos para fora da usina. A unidade armazena a vinhaça em tanques, que precisam ser permeabilizados pelo menos duas vezes por ano. Nesse processo, nutrientes e minerais podem atingir o lençol subterrâneo. “Passamos a tratar a água usada na permeabilização com Policloreto de Alumínio em substituição ao sulfato de alumínio. Este produto demora mais para lavar os filtros e usa-se uma quantidade menor de água, o que provoca a diminuição da emissão de resíduos no esgoto”, detalha Demétrius Freitas, gerente industrial da usina.

A Alta Mogiana já iniciou os estudos para o uso de um produto lançado recentemente, o Poli Alumínio Clorado, que pode reduzir ainda mais a capacidade de impurezas sólidas no despejo final. O PAC é fabricado com menor concentração de alumínio - na base líquida possui 10.3 a 10.6 de alumínia ou a metade do que tem o metal em teores. “Quanto menos alumímio no sistema, melhor é o resultado final, porque vai se estar inibindo a formação de lodo. Com o Poli Alumínio Clorado, ocorre menos poluição. Além de despoluir a água, não há a contaminação do lodo. Este produto reduz tudo o que é sólido e não interessa para a água”, explica Luiz Maranhão, gerente de marketing da Art Aratrop, empresa fabricante do PAC.

O produto pode ser uma ferramenta na nova tendência do setor sucroalcooleiro de desenvolver tecnologias que consigam realizar um trabalho de redução da emissão de efluentes, em detrimento do sistema mais usado atualmente por muitas usinas, de tratar os resíduos no final do processo industrial. “No futuro todas as usinas devem usar tecnologia de ponta para tratamento de efluentes porque as entidades ambientais estão muito pertinentes na fiscalização. Será preciso fazer um projeto a fim de se conhecer os resíduos desnecessários e que podem ser removidos”, acrescenta Freitas.

Para isso, é necessário o desenvolvimento de mecanismos que tornem a produção mais limpa. “Algumas unidades já estão reduzindo os contaminantes na origem, não deixando somente para tratar no final. Quando se pensa em uma produção mais limpa, em diminuir desperdício, pode haver retorno de qualidade e financeiro também. É uma evolução que favorece o lado industrial e ambiental”, defende o gerente da Cetesb.

Efluente sólido

A fuligem, o chamado efluente sólido, também recebe fiscalização constante da Cetesb e é avaliada através de sistemas de controle de poluição. “Este é mais um caso que pode ser resolvido com redução na emissão”, diz Artuzo. Já existem usinas com sistemas de controle de poluição da chamada “fagulha”.

Para isso, estão disponíveis no mercado caldeiras automatizadas, que apresentam eficiência de queima melhor e conseqüente diminuição da emissão poluidora. Também são implantados sistemas de controle seco e lavadores de pressão, processo usado na Usina Santa Elisa.

As caldeiras da unidade estão 100% automatizadas. Uma das malhas de controle é especifica para a combustão, garantindo assim uma perfeita relação entre o ar de combustão injetado na fornalha através de um ventilador e o combustível dosado por alimentadores rotativos.

Após a queima do combustível dentro da fornalha os gases quentes percorrem um circuito dentro da caldeira realizando trocas térmicas e dirigindo-se aos lavadores de gases existentes em todas as caldeiras, que dirigem água em forma de spray lavando os gases em contracorrente. “Os gases limpos são emitidos através das chaminés conforme os padrões de qualidade exigidos. A água proveniente está em circuito fechado sendo filtrada, recirculando no sistema. A fuligem é recolhida e transportada para área agrícola, pois possui teores de potássio benéficos ao solo”, descreve o engenheiro da usina Hermes Rezende.

Com o objetivo de solucionar definitivamente a questão da queimada de cana, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, promulgou uma lei no final do ano passado, que estabelece novos critérios para a atividade e agradou aos representantes do setor sucroalcooleiro. As principais mudanças estão relacionadas ao prazo de redução progressiva da queima. Pela nova lei, na safra 2003/04 as usinas deverão reduzir a queimada nas áreas mecanizáveis em 20%, aumentando este índice para 30% em 2006, para 50% em 2011, 80% em 2016 e 100% em 2021.

Para as áreas não-mecanizáveis - com declividade superior a 12% ou menores que 150 hectares -, os prazos são mais longos. O texto prevê que 10% da área não-mecanizável deixe de ser queimada em 2011, 20% em 2016, 30% em 2021, 50% em 2026 e 100% em 2031.

O ar limpo agora também pode significar um novo produto das usinas, com o estabelecimento do mercado do carbono. Certificada no ano passado para comercializar créditos de carbono através de um projeto de co-geração de energia a partir da queima do bagaço de cana, a Santa Elisa deve aumentar o seu faturamento com este novo filão. “Temos essa preocupação porque vamos seqüestrar 1.200.000 toneladas de monóxido de carbono até o ano de 2012, para vendermos créditos aos países que precisam comprar o direito de poluir”, anuncia Biagi.
Na Edição Impressa
Nº 77 – Jan/Fev de 2003

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