Reportagem de Capa Edição 78
de Mar/Abr de 2003
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Colheita mecanizada exige adaptações
no processo e pode estimular mercado de máquinas e implementos
agrícolas
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o uso das queimadas, a colheita será realizada inteiramente
por máquinas no prazo de 18 anos. |
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As entidades brasileiras responsáveis pelo meio- ambiente
estão intensificando a fiscalização e realizando diversas revisões
nas leis que estabelecem normas para trabalhos industriais e agrícolas,
nos quais se incluem as atividades das usinas de açúcar e álcool.
Uma das questões mais polêmicas é a extinção do fim da queimada de
cana, prática considerada extremamente agressiva ao ar. Em São Paulo,
o governador Geraldo Alckmin promulgou, no ano passado, uma modificação
na legislação para determinar a extinção do processo de queima, mas
através de um prazo de redução progressiva que termina definitivamente
em 2021. A legislação ambiental em vigor atualmente regulamenta que
25% das lavouras de cana-de-açúcar devem ser colhidas cruas em 2003.
A Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) também
ampliou a fiscalização e este ano já está estruturada com um plano
de monitoração realizado via-satélite, que permite identificar com
precisão uma área queimada irregularmente, semelhante ao mecanismo
de vigilância eletrônica da Amazônia.
Mesmo ainda restando 18 anos para o fim do prazo de eliminação da
queima, muitas usinas já estão se adequando às determinações ambientais.
“Com a nova lei, quem ainda não despertou para essa realidade pode
ter problemas, porque vai chegar um ponto em que será necessário atender
a todas as normas estabelecidas, e é preciso estar preparado para
isto”, comenta Edson Vieira Joaquim, técnico agrícola e encarregado
de colheita mecanizada da Usina Santo Antônio.
Com o estabelecimento da legislação que proíbe o uso das queimadas
como método despalhador da cana-de-açúcar, o setor produtivo da agroindústria
canavieira já iniciou um processo de mudança radical na estratégia
de colheita. “Sem a queima, a matéria prima deve ser colhida crua,
o que seria inviável manualmente, porque haveria muitos riscos de
acidentes e queda acentuada de produtividade.
A tendência é a mecanização do corte”, explica Joaquim. A mecanização
da colheita de cana-de-açúcar provoca um movimento maior de aquisição
de equipamentos, o que ainda pode determinar algumas alterações no
mercado de máquinas e implementos agrícolas. “A longo prazo ainda
é cedo para prever, mas com certeza os fornecedores vão precisar se
estruturar para a mudança. Ao passo que sobe a procura por colheitadeiras,
diminui a necessidade de utilização de tratores com carregadeiras,
por exemplo”, destaca Paulo Beraldi, gerente de marketing da empresa
Valtra do Brasil. A demanda por máquinas novas também começa a sofrer
elevação e as renovações de frota passam a acontecer com maior freqüência.
“A substituição de equipamentos agrícolas é determinada pelo número
de horas de trabalho. Com a colheita sendo realizada mecanicamente,
o tempo de vida útil dos aparelhos será reduzido e a renovação conseqüentemente
antecipada”, menciona Beraldi.
Por ainda possuir bastante tempo até a adaptação completa da colheita,
muitas usinas devem seguir um cronograma lento de mecanização. “O
aumento de vendas de colhedoras está devagar, mas o mercado de máquinas
e implementos de uso geral apresenta aquecimento . O setor ficou sem
investir por um tempo, agora, com perspectivas de melhores anos, os
investimentos foram retomados e os produtores estão renovando e adquirindo
novos equipamentos”, frisa Marcos Françóia, consultor econômico/financeiro
e diretor da MBF Assessoria.
Moderfrota
Para aumentar a produtividade através de máquinas novas, as usinas
podem contar com uma política de financiamentos do Governo Federal
que incentiva a reposição da frota agrícola. O principal projeto é
o Moderfrota (Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas
e Implementos Associados e Colheitadeiras), lançado em janeiro de
2000, com recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social).
O Moderfrota revolucionou o setor rural porque, além de promover renovação
de frotas, também conscientizou o produtor sobre a necessidade da
agricultura de precisão, da redução das perdas, do conforto do operador
e, principalmente, do aumento da produtividade. Com facilidades de
crédito, o Programa ainda estimulou o crescimento do mercado de tratores
e implementos agrícolas. Desde a criação do Moderfrota, em 2000, as
vendas de tratores agrícolas cresceram 36,6% e as de colheitadeiras
54,8%. “Em média, 80% das vendas destas máquinas são feitas com recursos
do Programa”, revela o vice-presidente da Anfavea (Associação Nacional
de Fabricantes de Veículos Automotores) Pérsio Pastre. O Moderfrota
trouxe um aumento na arrecadação do IPI na ordem de 390%, evoluindo
de R$ 31 milhões do ano em que foi criado para R$ 152 milhões.
O Programa também foi um dos responsáveis pelo aumento da safra agrícola
de 83 milhões de toneladas em 1999 para 112,4 milhões em 2003. “Isto
mostra que investimentos bem dirigidos trazem resultados não apenas
para determinado segmento e sim para o conjunto da economia”, observa
Manoel Ortolan, presidente da Orplana (Organização dos Plantadores
de Cana do Estado de São Paulo). O Programa foi temporariamente suspenso
em janeiro, quando a venda de máquinas no mercado nacional sofreu
um revés imediato, chegando a apenas 1.500 unidades, em comparação
com as 2.300 peças comercializadas no mesmo mês de 2002. Com o restabelecimento
do Moderfrota em fevereiro, os índices voltaram a se equilibrar e
registraram saída de 2.600 máquinas contra 2.700 do mesmo período
do ano passado.
A Anfavea estima que cerca de 75% das frotas agrícolas nacionais já
estejam renovadas até a safra 2006/2007. A entidade acredita também
que o setor sucroalcooleiro será um dos líderes do ranking de reposição
de máquinas. “Trabalhando 15 horas por dia, as máquinas precisarão
ser trocadas a cada três anos”, especula Pastre. Se não houver um
trabalho minucioso de utilização da máquina, o tempo de vida útil
pode ser abreviado ainda mais. “É preciso haver regulagem diariamente,
manutenção preventiva e preditiva e não somente a corretiva. E isso
envolve assistência mecânica, lavagem adequada, principalmente as
partes que mantêm muito contato com a terra, que é abrasiva, além
de uma reforma detalhada no fim da safra”, ressalta o técnico agrícola
da Usina Santo Antônio.
As máquinas em estado pleno de trabalho são fundamentais para manter
a produtividade alta, garantia de quem dispõe de equipamentos novos.
“Sem os financiamentos, a mecanização da lavoura estaria inviabilizada,
porque com máquinas novas a capacidade de produção aumenta. Hoje o
custo da colheita mecanizada é elevado e é preciso manter uma produtividade
grande para poder pagar os gastos”, detalha Edson Joaquim. Este ano
os produtores rurais (pessoas físicas ou jurídicas) e suas cooperativas
já têm à disposição R$ 800 milhões repassados por intermédio dos agentes
financeiros. A renda utilizada como parâmetro para definir as condições
de financiamento no âmbito do Moderfrota é de R$ 150 mil de renda
bruta anual do tomador dos recursos. As taxas de juros são 9,75% a.a.
ou 12,75% a.a., variando de acordo com esse rendimento.
Assim, as operações para beneficiários com renda agropecuária bruta
anual abaixo de R$ 150 mil e aquelas destinadas à aquisição de equipamentos
para preparo, secagem e beneficiamento de café terão taxa de juros
de 9,75% a.a. e até 100% de participação do BNDES. Quando o rendimento
for igual ou superior a R$ 150 mil, os juros serão de 12,75% a.a.
e o Banco financiará até 80% do valor da máquina adquirida.
Os financiamentos para compra de tratores, implementos e equipamentos
para preparo, secagem e beneficiamento de café terão prazo de até
cinco anos. Na aquisição de colheitadeiras, o prazo será de até seis
anos. “Outro aspecto positivo do Moderfrota é o incentivo ao aumento
do índices de nacionalização dos produtos, pois só é acessível a quem
tem 60% de peças nacionais”, lembra Françóia.
Mas com algumas usinas ainda inadimplentes, dívidas adquiridas no
período complicado vivido pelo setor no final da década de 90, o consultor
financeiro defende que é necessário continuar a dar oportunidades
para que o produtor, pequeno ou grande possa regularizar suas pendências
de crédito. “Há um costume de nossos bancos de renegociar suas dívidas,
que nem sempre são como o produtor precisaria que fosse, e depois
abandonar o cliente, ou seja, enquanto não liquidar o débito não tem
mais crédito. Isto dificulta e força muitas vezes o produtor a tornar-se
devedor novamente”, sustenta.
Adequações à colheita mecanizada A mecanização da colheita de cana-de-açúcar
exige um conjunto de adequações que começam a ser realizadas antes
mesmo do plantio para a obtenção de rendimentos satisfatórios. Com
isso, o mercado fornecedor de tratores e implementos agrícolas novamente
terá papel fundamental neste processo, podendo desenvolver novos equipamentos
e estimular vendas.
Para receber uma colheita mecanizada, é recomendável que um canavial
seja submetido a um processo de reforma, expediente geralmente aplicado
quando a plantação proporciona quantidades inferiores a 50 toneladas
de cana por hectare. Definida a necessidade de reformulação, é realizada
um exame do solo (coleta de pontos aleatórios da terra com amostras
que possibilitem uma homogeneidade da área). Depois da análise em
laboratório, é conhecida a composição do solo e a quantidade de nutrientes
em defasagem
A próxima etapa é uma movimentação mecanizada para assegurar o arranquio
da soqueira, trabalho realizado por um trator equipado com um implento
agrícola de grade aradora. Após esse processo, o solo fica muito bem
acertado, sem qualquer resquício da cultura do canavial que está sendo
substituído. “Nesta etapa, faz-se necessário a utilização de equipamentos
de qualidade, senão o plantio e a colheita serão comprometidos”, diz
Joaquim.
Antes de haver a plantação da cana, alguns produtores realizam a rotação
de culturas, que favorece o solo. Finalizada a colheita, passa-se
para o processo de sulcação, e colocação de colmos da cana, feitos
com tratores e implementos. A distribuição da muda pode ser feita
manualmente ou através do plantio mecanizado. Nesse sistema, a máquina
colhe a muda, passa para um caminhão transbordo que a transfere para
a plantadora e este equipamento para o sulco, antes do fechamento.
Para Joaquim, as lavouras que não estão estruturadas para a colheita
mecânica, serão prejudicadas pelas perdas de cana e quebras nas máquinas
e danos na soqueira. “Três itens são indispensáveis para o sucesso
deste procedimento: uma colhedora tecnicamente avançada, de alta qualidade,
um operador bem treinado e, principalmente, um canavial adequadamente
preparado”, enumera.
Ele também defende que a sistematização da colheita deve ser precedida
de um processo de replanajamento das lavouras, através de um programa
de controle de qualidade no campo. “Milagres não existem. Não há no
mundo uma colhedora de cana que vai corrigir o preparo do solo, o
plantio ou o cultivo que não foram realizados adequadamente. Só com
um planejamento bem feito, os resultados aplicados na lavoura atingirão
as metas desejadas”, completa.
Diante deste conjuntura, produtores e fornecedores já introduziram
as primeiras adequações ao processo mecanizado. “Antes um implemento
era usado só no processo de plantio. Hoje o fabricante faz adaptações
na estrutura do equipamento que permite a desacoplação da parte que
sulca para a implantação do aparelho para cultivo”, afirma o técnico
agrícola.
Nenhum lançamento é tão inovador, entretanto, quanto o novo sistema
de navegação por satélite desenvolvido pela Valtra - em parceria com
a empresa Santiago & Cintra e a Usina Catanduva - que permite evitar
o pisoteio da soqueira e inibe perdas na produtividade agrícola.
Ideal para plantio, cultivo, colheita, sulcação e aplicação de insumos,
o sistema GPS (Global Position System) RTK (Real Time Kimematic) é
o primeiro processo no mundo a trabalhar em curvas de nível. Segundo
a empresa, o “Valtra NavSat Auto-Pilot”, possibilita que o trator
seja operado automaticamente, sem a interferência do funcionário,
o que reduz erros e excessos nas aplicações de produtos. “Há uma diminuição
significante do pisoteio da linha de cana com aumento expressivo de
produtividade", informa Paulo Beraldi.
Além do uso de equipamentos modernos, uma usina deve realizar um trabalho
intenso de preservação da sua área agrícola, atividade desenvolvida
há alguns anos pela Usina Santo Antônio. “Procuramos sempre manter
a longevidade do canavial, mas se determinados cuidados não forem
adotados, há chances de destruição da lavoura. Alguns cuidados básicos
são: uso bem regulado dos equipamentos, precisão para não danificar
a soqueira e treinamento do operador”, lista Edson Vieira Joaquim.
A Usina só trabalha com colheitadeiras equipadas com esteiras. “São
equipamentos de 15 toneladas e assim há uma distribuição muito mais
homogênea. Em todas as operações estamos nos preparando para não comprometer
o solo e a soqueira”, esclarece. A empresa também modificou o sistema
de transbordo e carregamento da cana colhida, através de uma renovação
radical da frota de caminhões ocorrida no ano passado.
Antigamente, o carregamento era realizado na própria plantação por
um caminhão plataforma com pneus tradicionais que transportava o material
diretamente da colheitadeira. Esse sistema foi substituído por um
processo mais agronomicamente correto, com a adoção de veículos especiais
de transbordo equipados com pneus de alta flutuação.
O equipamento de alta flutuação possui libragem menor e possibilita
maior distribuição do peso do caminhão, o que impede danos à lavoura.
“Estes pneus trabalham com 30 libras enquanto os tradicionais precisam
de até 100 libras, peso prejudicial ao solo”, especifica Joaquim.
Hoje a Usina Santo Antônio possui uma área total avaliada em 14500
hectares e cultiva 10800 hectares de canaviais para corte. Nesta safra,
mais de 7000 hectares serão colhidos mecanicamente, índice superior
a 70%. Para conseguir minimizar perdas na colheita, a empresa instalou
nas máquinas o corte de base flutuante, um projeto da Copersúcar,
que acompanha as ondulações do terreno, reduzindo também a quantidade
de impurezas minerais na matéria prima.
O corte ideal é o realizado rente ao solo, mas nem todo terreno é
reto e livre de formas sinuosas que ocasionam perdas consideráveis
e afetam a soqueira. “O implemento flutuante, que é totalmente automatizado,
acompanha a ondulação do solo e garante a prdutividade”, diz.
A Santo Antônio reforma por safra cerca de 16% de todo o seu canavial
e tem como política de trabalho preservar o meio ambiente, desenvolvendo
inclusive um plano de eliminação de queimadas, sem prejuízos a sua
produção. “Por isso, estamos sempre atentos às novidades do mercado
de máquinas e buscamos nos adaptar completamente à colheita mecanizada.
Temos consciência da necessidade de um bom preparo de solo e não somos
como aqueles que criticam o trabalho da colhedora, mas também não
avaliam as condições da área em que estão levando a máquina”, julga
Joaquim.
Nem todas as usinas, entretanto, procedem da mesma forma e o crescimento
do mercado deve ser gradual. “Ainda há muito tempo para a adequação,
enquanto isso em nome do social (empregos) e de que as unidade produtoras
ainda não acreditam em análises 100% seguras sobre as perdas com a
colheita mecanizada, as usinas serão cautelosas nas compras de máquinas”,
conclui Françóia. |
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Nº 78 Mar/Abr de 2003
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