Reportagem de Capa Edição 78
de Mar/Abr de 2003
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Sistemas de Gestão e diversificação
de programas de segurança unem-se ao uso de EPIs para reduzir
os índices de acidentes de trabalho nas usinas
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| O uso de um bom equipamento é uma importante ferramenta
na busca pela redução dos índices de acidentes
de trabalho. |
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De acordo com estatísticas oficiais, o Brasil é o
segundo colocado na lista mundial de acidentes de trabalho, registro
que está promovendo um esforço prevencionista intenso no país. Dados
também demonstram que os índices de fatalidades no emprego estão diminuindo
gradativamente nos últimos 25 anos e apenas 86 mortes aconteceram
para cada milhão de trabalhadores em 2002. A conquista é animadora
e representa apenas um óbito para cada 132 imprevistos – há três anos
esta proporção era de um para 99.
O Ministério do Trabalho e Emprego pretende reduzir em 40% a taxa
de ocorrência de acidentes no ambiente profissional, com a intenção
de atingir metade deste índice já em 2003. Mas o Governo Federal não
conseguirá concretizar a sua meta agindo sozinho, é preciso que haja
uma união de esforços com a iniciativa privada e os trabalhadores
brasileiros.
Ainda marginalizada como um setor em que prevalece a exploração da
mão-de-obra, a agroindústria canavieira está disposta a colaborar
com o projeto do Governo e investe cerca de R$ 80 milhões por ano
na compra de EPIs (Equipamento de Proteção Individual), um dos principais
responsáveis pela redução do número de acidentes de trabalho.
Buscando se adaptar ao novo texto da NR6 (Norma Regulamentadora que
trata de Equipamento de Proteção Individual), o setor sucroalcooleiro
ainda encontra algumas dificuldades para efetuar o cumprimento pleno
das regras estabelecidas. Obrigadas a fornecer aos empregados, gratuitamente,
EPI adequado ao risco, em perfeito estado de conservação e funcionamento,
as usinas nem sempre encontram no mercado produtos com a qualidade
comprovada.
O uso de EPIs ainda não atinge as necessidades brasileiras e os testes
de qualidade representam um grande problema técnico no país, que ainda
não possui um número suficiente de laboratórios credenciados para
este tipo de verificação. “Procuramos realizar os nossos próprios
exames com os trabalhadores e escolhemos os produtos que melhor se
adaptam aos colaboradores”, revela Maria Evandra Mendes, técnica de
segurança do trabalho na área agrícola da Usina Viralcool, de Pitangueiras/SP.
Outro problema enfrentando é o mercado clandestino de equipamentos
de segurança, formado por fabricantes que não possuem o CA (Certificado
de Aprovação), expedido pelo órgão nacional competente em matéria
de segurança e saúde no trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego.
Algumas empresas brasileiras compram EPI no exterior diretamente do
fabricante, em uma ação irregular que não conta com a intervenção
de uma importadora. Assim, se houver um acidente não há como responsabilizar
ninguém.
“Ainda ocorre também informalidade no setor. Existem algumas pessoas
que já trabalharam na fabricação destes produtos, perderam o emprego
e começaram a produzir no fundo do quintal. Não se preocupam com as
normas, querem ganhar dinheiro rápido e não dão garantia”, disse recentemente
em entrevista à revista Cipa José Antônio de Oliveira Christo, presidente
da Animaseg (Associação Nacional da Indústria de Materiais de Segurança
e Proteção ao Trabalho). Este empecilho pode ser diminuído drasticamente
com a participação no Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia) no
trabalho de verificação e análise dos produtos disponíveis no mercado.
“Acredito que vai haver uma melhora nesse aspecto. Este órgão é bastante
rigoroso em relação às especificações, à regulamentação e tem uma
política de fiscalização diferente, que conta com muitos auditores
fiscais”, diz Christo.
Disponibilizar um bom equipamento é um importante mecanismo na busca
pela segurança, mas a redução de acidentes também está condicionada
ao uso correto e contínuo do EPI. “Às vezes, encontramos uma determinada
resistência à utilização dos aparelhos, mas realizamos uma profunda
conscientização do nosso colaborador. Informamos que todo trabalho
desenvolvido nesta área visa o bem-estar, a saúde, e a melhoria da
qualidade de vida dele”, conta Evandra.
Além da utilização apropriada, a manutenção ostensiva do EPI também
pode proporcionar resultados satisfatórios. Equipamento mais utilizado
em usinas de açúcar e álcool, o calçado é responsável pela prevenção
de inúmeros acidentes de trabalho, protegendo principalmente o cortador
de cana. O colaborador permanece exposto a uma série de riscos inerentes
aos pés, como: cortes, esmagamentos, fraturas, entorses e principalmente
fatores que ficam ocultos durante muito tempo e só após alguns anos
detecta-se a doença.
Atenta a estas possibilidades, a empresa Marluvas realiza pesquisas
constantes – algumas já resultaram no desenvolvimento de calçados
confortáveis e ortopedicamente corretos. As principais alterações
foram promovidas no solado, na região da biqueira e nos protetores
de metatarso. O fabricante também descobriu que o couro sofre de um
desgaste prematuro devido a presença de sacarose no local e também
pelos procedimentos inadequados de limpeza.
A sacarose é altamente corrosiva e o seu acúmulo pode remover o óleo
empregado no engraxe do couro, durante seu processamento no curtume,
o que resulta no enfraquecimento de suas fibras até o rompimento.
“Além disso, freqüentemente os colaboradores limpam os calçados no
final de semana e muitos deles lavam completamente o EPI, umedecendo
o couro e as partes internas. Também o secam diretamente no sol e
esse procedimento faz com que o couro fique excessivamente rígido
também diminuindo o conforto e a durabilidade”, afirma Luiz Fernando
Malta, químico industrial e coordenador de marketing da Marluvas.
Para solucionar a questão, a empresa fez uma parceria com o IPT (Institutos
de Pesquisas Tecnológicas) e após algumas análises verificou que a
agressividade da sacarose era o fator responsável pelo enrijecimento
do couro. “Registramos que a melhor maneira de minimizar o ataque
peçonhento da substância e aumentar a vida útil do calçado é removendo
periodicamente a sujeira e principalmente mantendo-o engraxado”, confirma
Malta.
Para a safra atual, a empresa iniciou um programa de conservação para
os calçados, chamado “Bota premiada Marluvas”, que tem por objetivo
incentivar e instruir o colaborador sobre os cuidados com o produto.
O prêmio foi implementado na integração do pessoal e vai perdurar
durante toda a colheita conforme as regras e o regulamento estabelecidos
na campanha. “Contudo, almejamos que o calçado tenha um desempenho
cada vez melhor e que o cortador de cana desfrute de mais conforto
e higiene com segurança, pois responsabilidade social também é o nosso
foco”, conclui o químico. Mas não é apenas a conscientização do trabalhador
que precisa ser estimulada, as empresas também devem estar cientes
na necessidade e utilidade do equipamento de segurança, independentemente
da lei que obriga a aplicação do EPI. “Eu diria que o número de empresários
que enxerga aparelho de proteção como investimento vem crescendo a
cada dia mas isso ainda não é uma comportamento geral”, indica Samuel
Barbosa, diretor da empresa de certificação DNV.
Disponibilizando cerca de R$250 mil anualmente para a compra de EPIs,
a Usina Sabarálcool, de Engenheiro Beltrão/PR, classifica este custo
como investimento. “A empresa entende que, uma vez estando adequadamente
protegido, o colaborador desenvolverá sua atividade seguramente, evitando
ocorrências e significando economia no final das contas”, garante
Maurício das Neves Andreo, encarregado do setor de segurança do trabalho
da unidade.
Como já informou a Revista Alcoolbrás em janeiro do ano passado, para
cada um real gasto na compra, distribuição e treinamento do uso de
EPI há economia de seis vezes do mesmo valor em processos trabalhistas,
acidentes e indenizações. O investimento da empresa, entretanto, pode
ser prejudicado pela falta de comprometimento do trabalhador. “Em
alguns casos, é difícil fazer o colaborador entender que o equipamento
precisa ser usado em tempo integral. Uma pequena distração pode significar
um acidente grave”, assegura a técnica da Viralcool.
A Usina também desenvolve projetos de orientações periodicamente através
da publicação de informações e dicas sobre a necessidade dos equipamentos
na “Folha Viralcool”, jornal informativo mensal dirigido ao colaborador.
“Além disso, temos um diferencial: também já trabalhei na lavoura
e os cortadores de cana confiam mais nas minhas instruções porque
sabem que eu já desenvolvi a atividade deles”, detalha Evandra. O
processo de acompanhamento do trabalhador exige também a composição
de uma CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) e uma CIPATR
(Comissão Interna de Acidentes do Trabalho Rural), órgãos formados
internamente por representantes da empresa e dos colaboradores com
o objetivo de prevenir acidentes e doenças decorrentes do trabalho,
através da adoção de medidas que assegurem um ambiente profissional
seguro e saudável. Para garantir a segurança do trabalhador e reduzir
os índices de acidentes de trabalho, algumas usinas usam a criatividade.
É o caso da Sabarálcool, que incorporou, há mais de dois anos, a ginástica
no campo às atividades dos colaboradores. Diariamente, às 7 horas
da manhã, cerca de dois mil cortadores de cana praticam exercícios
físicos antes de iniciar a jornada de trabalho.
A técnica reduziu significativamente o número de acidentes na empresa
e é muito bem aceita pelos colaboradores. Maurício Borges diz que
já se acostumou com as atividades físicas e até pratica sozinho, às
vezes, em sua casa. “Hoje eu vejo como é bom fazer esta ginástica”,
comenta. Ana Maria Alves também só começou a entender o objetivo do
sistema depois que deixou de sentir dores no corpo. “Antes de trabalhar
aqui eu nunca pensei em fazer os exercícios”.
De acordo com Fábio Vicari Rezende, Assessor Econômico da Sabarálcool,
quando a metodologia começou a ser empregada, os cortadores de cana
mostraram resistência. “Agora, eles estão vendo que a prática é benéfica”,
afirmou. Segundo ele, o programa existe para combater possíveis contusões
dos trabalhadores e foi inspirado em técnicas administrativas japonesas.
Dados da usina indicam que os exercícios físicos diminuíram em até
45% o número de torções na colheita.
Programas eficientes
A Usina Jalles Machado, localizada em Goianésia/GO, foi outra unidade
que conseguiu reduzir drasticamente o acontecimento de acidentes após
adotar programas de segurança do trabalho. No decorrer de oito anos,
a unidade conseguiu a diminuição de 91,5% no total de ocorrências
com afastamento – em 1995 foram registrados 635 imprevistos contra
apenas 54 casos observados na última safra. Mas a queda dos índices
de acidentes não aconteceu por acaso na Usina, que realizou amplos
investimentos em segurança e contratou em 1994 o engenheiro do trabalho
Luiz Carlos Braga para ser o responsável pelo SESMT (Serviço Especializado
em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho). “Primeiramente
realizei um estudo das ocorrências nos setores agrícola, industrial
e administrativo. De acordo com os resultados norteei o meu trabalho
com programas de cunho administrativo e educacional”, explica Braga.
A usina desenvolve atualmente uma variedade ampla de programas de
orientação que oferecem informação diária, auditorias de segurança,
palestras de integração, reunião com acidentados, transporte seguro,
controle médico e saúde ocupacional, farmácia, serviço odontológico,
alimentação e troca de equipamentos e máquinas que ofereciam riscos
ao trabalhadores. Além disso, a empresa investiu em 2002 mais de R$
270 mil em EPIs e mantém um almoxarifado com estoque completo de todos
os equipamentos de segurança necessários aos trabalhadores da área
agrícola e industrial. “Com o objetivo de controlar o fornecimento
dos aparelhos e avaliar as condições seguras de trabalho, realizamos
as trocas dos produtos nas frentes de serviço da lavoura”, relata
Braga.
Nenhum projeto, porém, é tão bem sucedido na redução de acidentes
quanto o PPR (Programa de Participação nos Resultados), que estabelece
ganhos proporcionais às metas atingidas. “Esta iniciativa contribui
muito para a conscientização dos colaboradores. O trabalhador sabe
que se ele não se acidentar a sua parcela nos lucros vai ser maior”,
informa o engenheiro de segurança da Jalles Machado. Para esta safra,
a usina estipulou um limite de 20 ocorrências.
Através de projetos como este, a usina também diminui, desde 1995,
em 83,29% o número de dias de trabalho perdidos em decorrência de
imprevistos. O maior índice de redução nesse mesmo período foi constatado
na quantidade de acidentes sem afastamento, que foram diminuídos em
97,8%. “Aqui na Jalles Machado nós conferimos à segurança o mesmo
peso dado à qualidade, moral, custo e produtividade”, defende Braga.
Sistemas de Gestão
A Usina Alta Mogiana, de São Joaquim da Barra/SP, também tem investido
muito para a melhoria das condições de trabalho de seus colaboradores,
desde a implantação de melhorias em seu lay-out, até a aquisição de
novos equipamentos, voltados ao atendimento relacionado à segurança
e saúde ocupacional. “Um sistema de educação em qualidade contribui
para a diminuição de acidentes na medida em que os operadores são
treinados a obedecer a certas rotinas de operação pré determinadas.
Essas atividades, quando preparadas com critério, já prevêem itens
de proteção.Com isso há uma consequente diminuição de imprevistos
de trabalho”, explica Samuel Barbosa.
Como resultado, a empresa já alcançou uma redução de 25,28% no total
de acidentes com afastamento em 2002. “Nesta safra, esperamos atingir
uma queda de 30% a 40% em comparação ao ano passado”, adianta Vera
Lúcia Martins, funcionária do setor de segurança da Usina Alta Mogiana.
Para obter sucesso nas suas pretensões, a usina iniciou há três anos
um projeto para conseguir a certificação na área de segurança, conforme
a norma Ohsas-18.001. “No momento, encontramo-nos em meio ao processo
de implantação do sistema, preparando-nos para a auditoria que deverá
ser realizada no mês de julho de 2003. Como se trata de um processo
lento e minucioso, estamos trabalhando acelerados, para que nossos
objetivos sejam alcançados já na primeira auditoria”, destaca Vera
Lúcia.
Aprovada nas inspeções iniciais para obter o certificado da Ohsas,
a Alta Mogiana implantou o Sistema Moderno de Gestão de Segurança
e Controle de Perdas, processo que prioriza a prevenção através de
análises de riscos, treinamentos e orientação, além da contratação
de profissionais qualificados e de serviços de consultoria especializada.
A Ohsas é uma certificação recente e requer bastante burocracia até
a documentação. Mesmo assim, a usina planeja estar com seu título
até maio de 2003, instrumento visto como uma importante ferramenta
no processo de desenvolvimento e evolução da usina. “Como seremos
analisados a cada seis meses para a manutenção do título, com certeza
haverá um comprometimento maior de todos os envolvidos com a segurança
no ambiente do trabalho”, finaliza Vera Lúcia. |
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