Reportagem de Capa – Edição 79 de Maio/Junho de 2003
Piracicaba conta com a colaboração de usinas no tratamento de água
Piracicaba: o rio que originou a cidade.
Às margens do Rio Piracicaba, nasceu e desenvolveu-se a cidade que leva seu nome. Talvez por isso, uma questão que merece atenção do município é o abastecimento e tratamento de água não só do rio que a originou, como do Corumbataí, que também a abastece.

O Rio Piracicaba sempre foi a principal fonte de abastecimento público de água. Porém, em função da queda de qualidade da água desse manancial, foi construído o Sistema Corumbataí que, a partir de 1980, colocou em operação a nova captação. Inicialmente, o volume captado representava 33% de toda água produzida, estando atualmente nos 100%. Segundo o SEMAE, responsável pelo abastecimento de água no município, o sistema de abastecimento público atende praticamente toda a população urbana numa rede de aproximadamente 104 mil ligações de água que demandam um consumo de 105 milhões de litros por dia para atender toda a população, que é de aproximadamente 350 mil habitantes.

Para o abastecimento de água da cidade são usados dois sistemas produtores: o Rio Piracicaba, com duas Estações de Tratamento de Água (ETA), e o Rio Corumbataí, que tem uma ETA. Em todas as estações, há laboratórios onde a água é analisada e examinada de hora em hora, desde a sua entrada bruta, no processo de tratamento, e depois de tratada.

A água distribuída à população também é analisada em laboratórios da própria entidade. Uma equipe de técnicos coleta, semanalmente, dezenas de amostras em diferentes pontos da cidade para realizar exames físicos, químicos e bacteriológicos. São analisados, também, todos os produtos químicos utilizados nas ETAs.

Do modo que está no rio, a água exige um cuidadoso processo de tratamento antes de ser consumida. Em Piracicaba, esse processo é do tipo clássico, contando com floculadores, decantadores e filtros. Primeiro, a água é retirada dos rios por moto-bombas e, por meio de tubulações, é levada às estações, onde recebe tratamento físico e químico. Somente depois de um rigoroso controle técnico, quando é constatada a sua potabilidade, a água é bombeada para os reservatórios. De lá, é encaminhada para as residências, através da rede de distribuição.

Durante esses anos de operação conjunta com os rios Piracicaba e Corumbataí foi possível acompanhar os principais indicadores de qualidade e quantidade dos dois mananciais. O Corumbataí, segundo o SEMAE, apresenta-se, até então, bem melhor que o Piracicaba, pois recebe menos esgotos domésticos e industriais, apresentando menor índice de coliformes fecais.

Ao contrário do Piracicaba, o Corumbataí não tem águas represadas e, assim, não tem problemas com algas, que liberam substâncias provocantes de odor e gosto. Marcelo Basso, assessor do Semae, explica que, de acordo com a Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), a média de Oxigênio Dissolvido (OD) no Corumbataí é de 4,0 a 6,0 ml/l, uma média considerada excelente. Já o Rio Piracicaba, em épocas de estiagem, não ultrapassa a média de 1,0 ml/l.

“Nossa grande preocupação está com a tendência de qualidade, que ao longo dos anos vem piorando e, somado com a crescente demanda, não só para uso doméstico, como também industrial e agrícola, poderão comprometer a disponibilidade e a qualidade, principalmente nos períodos de estiagem”, afirma Basso.

Todos os dados hidrológicos e de qualidade da água demonstram a urgente necessidade de uma ação efetiva em toda a Bacia do Corumbataí para preservar a qualidade de sua água e manter sua disponibilidade de vazão mínima suficiente para atender toda a demanda da bacia.

Os grupos assistenciais internacionais, incluindo a Organização Mundial de Saúde (OMS), vêm fornecendo ao longo dos anos assistência técnica e programas de educação visando melhorar as práticas de abastecimento de água e saneamento. Calcula-se que estas melhorias podem prevenir 25% dos casos de doenças diarréicas e reduzir a mortalidade infantil em níveis equivalentes.

O abastecimento de água sem tratamento adequado é a maior ameaça para a saúde pública, especialmente em países menos desenvolvidos onde quase a metade da população consome água contaminada. Nestes países, doenças como cólera, febre tifóide e disenteria crônica são peculiares e matam jovens e idosos.

Em 1990, mais de 3 milhões de crianças menores de 5 anos morreram de doenças diarréicas, no mundo inteiro. Em muitos locais, praticamente não há disponibilidade de abastecimento de água potável devido à pobreza, pouca informação e falta de infra-estrutura de tratamento e distribuição.

O principal benefício da água potável clorada é a proteção da saúde pública através do controle das doenças transmitidas pela água. O cloro desempenha uma função primordial, pois é ele que controla os agentes patogênicos na água. O fato é facilmente comprovado quando se observa que os países desenvolvidos, onde praticamente 100% da água é tratada, estão virtualmente livres dessas doenças. É com essa preocupação, centrada do abastecimento e tratamento de água, que Piracicaba busca medidas para manter a qualidade. Uma dessas medidas é o Projeto Beira Rio, através do qual os cidadãos têm a possibilidade de usufruir de um rio limpo, com margens livres e arborizadas, além de caminhos e espaços destinados à contemplação e ao lazer.

A cidade também participa do Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Entre os trabalhos desenvolvidos pelos programas do consórcio, está a execução de um projeto de combate às perdas físicas e financeiras de água. O Consórcio PCJ, composto por 43 municípios e mais de 30 empresas, está engajado com o Programa de Despoluição de Bacias Hidrográficas, da Agência Nacional das Águas (ANA).

A Usina Costa Pinto, do Grupo Cosan, é uma das empresas participantes do consórcio. Nesta unidade, o repovoamento de peixes do Rio Corumbataí, em parceria com a Cetesb e Prefeitura Municipal de Piracicaba, é um dos muitos exemplos de comprometimento com a natureza. De acordo com a empresa, outro feito importante é a recuperação da mata ciliar às margens do Corumbataí, que tem como finalidade preservar os mananciais e integrar os organismos para manutenção do equilíbrio natural do ecossistema.

Também é interessante a Semana da Água, inspirada nas famosas Aulas de Água, realizadas na França pelas agências de bacias francesas. Seu objetivo, além da tarefa de educação ambiental, é sensibilizar os estudantes e as autoridades para a solução dos problemas surgidos nesta área. A Semana da Água oferece aos alunos visitas a parques, jardins, instalações de tratamento de água, esgotos e efluentes industriais e nascentes dos rios.

As atividades são complementares com visitas de campo. A meta é o desenvolvimento de uma política ambiental que promova, em todos os níveis de ensino, a conscientização dos problemas e apresente soluções relacionadas ao gerenciamento, à conservação e à proteção dos recursos hídricos. Em Piracicaba, a Semana da Água acontece no mês de novembro.

A conscientização da população e o engajamento das empresas são de fundamental importância nesse processo que prima pela qualidade. Na Costa Pinto, é utilizado um sistema de tratamento de efluentes através de lagoas de estabilização, onde as águas residuais recebem os cuidados necessários para serem devolvidas – como ou em melhores condições do que quando captadas – ao rio ou lago de onde foi retirada.

De acordo com a empresa, esse sistema é desenvolvido a partir da utilização de solos filtrantes entre lagoas de estabilização, em que as águas residuais são decantadas, filtradas e recuperadas. Os solos filtrantes retiram o material em suspensão e deixam sempre um substrato mais puro para a situação dos processos biológicos nas lagoas, que funcionam posteriormente. A estação de tratamento, através desse sistema, é constituída de vários módulos e seu manejo deve ser feito de formas alternadas, com períodos de repouso. Após este período, a permeabilidade do solo volta naturalmente às condições iniciais.

A revista Alcoolbrás informou em edições passadas que, de acordo com o engenheiro químico Américo Albertine, diretor da Sucroálcool, há um movimento maior nas usinas no sentido de reduzir as captações de água. O Grupo Cosan implantou parcialmente, a partir da safra 2002/03 e, em todas as suas unidades de produção a partir desta safra, o programa “Só Cana Pura”, cujo objetivo é obter matéria-prima com baixos teores de impurezas, dispensando sua lavagem por ocasião da industrialização. No aspecto ambiental, a eliminação da lavagem evita a poluição das águas e a libera para outros fins mais nobres.

Outra medida do SEMAE foi implantar o projeto do Sistema de Gerenciamento e Controle da Distribuição de Água (automação), que é formado por um conjunto de computadores, softwares, projetos, sensores de nível, alarmes e medidores de vazão que, interligados, operam e controlam automaticamente a distribuição de água. A central de operações utiliza equipamentos de última geração e funciona 24 horas por dia.

Assim, Piracicaba tem hoje um programa de gerenciamento de perdas de água nos moldes das grandes empresas dos países de primeiro mundo. As perdas totais num sistema de abastecimento de água mostram a diferença entre o volume de água tratada distribuída e o volume efetivamente faturado pela empresa. Estas perdas totais compreendem as perdas comerciais (erros de medição, ligações irregulares, gerenciamento informatizado deficiente) e as perdas físicas (vazamentos em adutoras, redes, ramais, rompimento de redes, entre outros).

Com a automação, a entidade evita perdas de água com transbordamento nos reservatórios, economiza energia elétrica, avalia o estado das redes de distribuição e tem condições de controlar o residual de cloro, principalmente nos finais da rede, entre outras aplicações.

Através desse sistema, pode-se oferecer informações ainda mais precisas e imediatas à população, como é o caso da previsão da falta de água ou de outros problemas emergenciais. “Hoje, é possível saber qual a quantidade de cloro ou de água em cada reservatório, on line, de uma central instalada na sede da autarquia”, afirma Marcelo. É possível, ainda, remanejar água de um reservatório para outro, desligar e ligar bombas para economizar energia ou para sanar problemas emergenciais. Assim, Piracicaba passa a fazer parte da lista das primeiras cidades brasileiras que estão na vanguarda dos serviços de água e esgoto do país.

Pela forte atuação em nome da água, o Sistema Municipal de Água e Esgoto já recebeu várias premiações como Ação Pela Água, de âmbito regional, em 2001. Em 2002, conquistou o prêmio nacional Cidade Eficiente e, em 2003, foi premiada internacionalmente pela ONG IDRC.



Na Edição Impressa
Nº 79 – Mai/Jun de 2003

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