Reportagem de Capa – Edição 80 de Julho/Agosto de 2003
Possibilidade de abertura dp mercado
de carbono estimula investimentos em
co-geração de energia
Investindo em centrais termoelétricas para gerar energia, as usinas somam uma nova receita ao orçamento.
A co-geração de energia elétrica através da queima do bagaço da cana é reconhecida pela ONU (Organização das Nações Unidas) como um exemplo limpo e renovável. O aquecimento global provocado pelo aumento da emissão dos gases causadores do efeito estufa vem gerando preocupações em todo o mundo e em breve alguns países precisarão comprar o direito de poluir, através da aquisição de créditos de carbono, o que está estimulando muitas unidades sucroalcooleiras nacionais a aumentar a sua capacidade de gerar energia.

O mercado internacional de créditos de carbono ainda não foi instituído porque depende da aprovação do Protocolo de Kyoto, documento elaborado em 1997 durante uma convenção entre várias nações com o objetivo de estabilizar a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

Os países desenvolvidos comprometeram-se a reduzir em 5% as emissões de gases até 2008 em comparação às emissões registradas no ano de 1990. Para atingir esta meta, o protocolo definiu o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) de venda de créditos de carbono, através do qual as nações não poluentes vendem aos que poluem o seu direito de emitir substâncias na atmosfera.

As empresas interessadas em vender o crédito de carbono devem receber ainda certificação de empresas de consultoria cadastradas e reconhecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) e de uma comissão interministerial do meio ambiente, que aprecia as propostas e dá o aval para a venda.

Os Estados Unidos, maiores poluidores do planeta, responsáveis por cerca de 30% da contaminação atmosférica, retirou seu apoio ao protocolo após a posse do presidente George W. Bush, em 2000, o que gerou críticas por parte de ambientalistas do mundo todo e está inviabilizando o estabelecimento do mercado de carbono.
A termelétrica da Companhia Energética Santa Elisa recebeu
recentemente a carta de não objeção oferecida pelo
Ministério de Ciência e Tecnologia.
Segundo a Agência Brasil de Notícias, o Ministério da Ciência e Tecnologia está preparando o país para aproveitar este importante filão econômico internacional.O secretário de Políticas Estratégicas e Desenvolvimento Científico do MCT, Jorge Guimarães, participou em agosto de reuniões da Comissão Interministerial para Mudanças Climáticas, que deve aprovar a carta de não-objeção e os procedimentos internos para participação de empresas nas negociações de créditos de carbono.

A expectativa do governo brasileiro quanto à entrada em vigor do Protocolo de Kyoto e, em conseqüência, do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, é positiva, principalmente se a Rússia decidir aderir em setembro. Guimarães explica que como os Estados Unidos não ratificarão o protocolo, a adesão russa ajudará a superar o percentual exigido de 55% dos países maiores produtores de compostos ricos em carbono, principalmente metano e CO2, os vilões do aquecimento global, e portanto, o Brasil se credenciará dentro das regras internacionais para a comercialização de créditos resultantes da redução de emissões de gases poluentes, os créditos de carbono.

O secretário esclarece também que não há obrigatoriedade de os russos assinarem até setembro, mas existe grande expectativa porque na reunião de dezembro, em Milão, Itália, todas as partes dos países que compõem o protocolo estarão em condições de colocá-lo em vigor.

A Rússia busca negociar vantagens no componente mudanças climáticas globais, como a redução da dívida externa. “Por isso, estão fazendo o jogo de tirar proveito de uma negociação globalizada como essa”, disse. Pelos contatos mantidos entre os governos russo e brasileiro, o secretário afirmou que a percepção é de que a posição da Rússia é favorável à adesão em setembro, e isso beneficiará muito as indústrias brasileiras.

Na fase inicial, a recém inaugurada Companhia Energética
São José produzirá 15 MW/h de energia.
O governo prepara o país para aproveitar ao máximo essa oportunidade de negócio dos créditos de carbono. Assim, todos os passos são dados, dentro da concepção de que o Brasil é quem tem grandes chances de se beneficiar porque possui dois trunfos fortíssimos: a retomada do pró-álcool e a produção do biodiesel.

Para o economista Vicente Golfeto, de Ribeirão Preto/SP, o álcool e o biodiesel são dois pesos pesados na geração de energia limpa. “Ambos tem custos ambiental marcadamente modestos e custo econômico relativamente competitivo. Também são afilhados do Tratado de Kyoto, portanto com um pé no presente e outro no futuro. Num futuro próximo, teremos assunto na mesa das discussões sobre a estrutura do poder, porque temos o seu sinônimo: energia”, avalia.

Projetos de co-geração

Conscientes da grande possibilidade comercial oferecida pelo mercado de carbono, algumas usinas brasileiras já estão desenvolvendo projetos de co-geração de energia. Um dos mais avançados está instalado em Sertãozinho/SP, a Bioenergia Cogeradora S/A, empresa inaugurada no ano passado, que compreende as Usinas São Francisco e Santo Antônio, que juntas produzem 31 MW, sendo 1/3 para consumo próprio e 63% para fornecimento à CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz).

A Usina São Francisco foi a primeira unidade brasileira a fornecer excedente de energia elétrica produzida através do bagaço de cana para a rede pública. “Este é o grande mérito do pioneirismo, a quebra de paradigmas conquistada pela unidade”, afirma Arthur Padovani Neto, diretor da Aliança Engenharia, empresa responsável pelo projeto.

O projeto é o único do Brasil com apoio financeiro das Nações Unidas e dos que mais avançaram no mundo atendendo às exigências que a entidade impõe sobre o assunto. A Bionergia pode se tornar a primeira empresa brasileira a receber o certificado da ONU, conferindo o direito de comercializar créditos ambientais através de um atestado de poluição abaixo da média.

Os representantes da ONU visitaram a empresa recentemente, gostaram do projeto e disseram que a Bioenergia está se antecipando ao Protocolo de Kyoto e que o projeto se tornou uma referência mundial no setor sucroalcooleiro. O Grupo Balbo pretende aumentar ainda mais a capacidade de co-geração e já está desenvolvendo pesquisas que viabilizem a iniciativa. “Há interesse em maior expansão e estamos desenvolvendo um novo projeto para aumentar a co-geração”, explica Jairo Balbo, diretor da empresa.

Também em Sertãozinho/SP, a Companhia Energética Santa Elisa, que já foi certificada para comercializar créditos de carbono, inaugurou em maio uma termelétrica de 60MW de potência instalada. O empreendimento exigiu investimentos de R$ 50 milhões e permitiu um aumento de 100% na geração de energia pela CESE. O projeto contemplou a instalação de uma das maiores caldeiras de alta pressão do Brasil tendo como combustível a biomassa.

A Santa Elisa destina 30MW para consumo próprio e o restante é co-gerado para a venda. A CESE também recebeu a carta de não objeção oferecida pelo Ministério de Ciência e Tecnologia por desenvolver um projeto de biomassa que contribui para o crescimento sustentável do país e para a redução de emissões de carbono. “Este é um projeto que marca o início de uma nova era para o setor sucroalcooleiro”, afirma Maurílio Biagi Filho, conselheiro da CESE.
A Usina Jalles Machado S.A inaugurou em agosto a primeira central termelétrica de Goiás para co geração de energia.
A Açúcar Guarani, de Olímpia/SP, possui um projeto de geração de energia limpa e venda de créditos de carbono no mercado internacional no Banco Mundial. A empresa gera hoje 22,5 MW/h , dos quais 12,5 MW/h são comercializados para a CPFL. Estes 12,5 MW/h são suficientes para iluminar uma cidade de 60 mil habitantes. Os 10 MW/h restantes são consumidos pela própria empresa.

O projeto, desenvolvido pela empresa Koblitz, comprova que a Açúcar Guarani deixa de despejar no ambiente 644 quilos de gás carbônico por cada MW/h produzido. Para chegar a este valor, a Guarani tomou como parâmetro de comparação uma termelétrica a óleo, que produz, despeja 644 quilos de gás carbônico no ar para produzir um MWh/hora.

O Grupo Andrade começou a operar, em julho a Companhia Energética São José, em Colina/SP, que, inicialmente, terá capacidade para processar 1,2 milhão de toneladas de cana devendo chegar a 2,5 milhões de toneladas, por safra, em uma próxima etapa. A nova unidade industrial consumiu investimentos de R$ 60 milhões, sendo 60% deste valor financiado através de linhas do BNDES e o restante proveniente de recursos próprios.

Na fase inicial, a São José também produzirá 15 MW/h de energia, sendo que 11 MW/h já estão comercializados com a CPFL. Numa segunda etapa, esta produção será elevada para 24 MW/h, o suficiente para atender o consumo mensal de 75 mil residências.

A previsão dos diretores é de que a nova empresa, operando com apenas 50% de sua capacidade de produção, tenha um faturamento de R$ 42 milhões neste ano, chegando a R$ 90 milhões em 2004.

Outra unidade já certificada, a Companhia Açucareira Vale do Rosário acaba de investir R$ 42 milhões na ampliação da sua planta de co-geração. No último mês de julho, a capacidade instalada da usina foi elevada de 51 MW para 101 MW, mas ainda não está funcionando com potência máxima.

O projeto de venda de créditos de carbono da Açúcar Guarani
está sendo aprovado no Banco Mundial
Interesse nacional

Mesmo as usinas que não estão certificadas para comercializar créditos de carbono estão investindo em aumento da capacidade energética. Após a crise do racionamento, ocorrida em 2001, muitas unidades buscam gerar a própria energia que consomem e vender excedentes às distribuidoras.

A Usina Jalles Machado S.A, localizada em Goaianésia/GO, inaugurou em agosto a primeira central termelétrica de Goiás para co-geração de energia a partir do bagaço de cana-de-açúcar com capacidade para gerar 30 MW/h. O projeto demandou investimentos de R$ 28,5 milhões e deve ter a sua implantação totalmente concluída em 2004.

Até o ano passado, a Jalles Machado gerava aproximadamente 9 MW/h e pretente ampliar sua capacidade em 54% até 2008. A unidade está interligada ao sistema elétrico por meio de uma subestação. Para se adequar ao novo sistema de co-geração, a usina modernizou e ampliou as áreas de recepção, lavagem, preparação e moagem da cana, comprou novos equipamentos para os setor de decantação, filtragem e produção de açúcar e álcool e instalou duas novas caldeiras. A primeira delas tem capacidade para produzir 100 toneladas de vapor por hora e a segunda, 200 toneladas de vapor/hora, movimentando 200 mil litros de água também por hora.

O Instituto Eco – Engenho apresentou recentemente um estudo de expansão da geração de energia, a partir do bagaço de cana, na destilaria Pindorama, de Alagoas, com o objetivo de aumentar a potência instalada de 2MW/h para 27MW/h. Ao todo, no Estado, dez usinas de açúcar geram sua própria energia e vendem, mediante contratos de conexão, para a Companhia Energética de Alagoas (Ceal).
O mercado de energia no Nordeste brasileiro é considerado promissor pela escassez do produto na região e a busca de fontes geradoras renováveis


Na Edição Impressa
Nº 80– Jul/Ago de 2003

Acontece na Usinas
Parceiros da Sabarálcool participam de encontro ambiental

São Domingos automatiza moenda

Empresas
Maior central termelátrica independente de biomassa do Brasil entra em pré-operação este ano

Projeto de desidratação extrativa de álcool alcança sucesso no Brasil

Smar inaugura, em Araçatuba, sua 15ª filial no Brasil

Atualidades
Investimentos em logísticas podem evitar 'crise de abundância' da produção agrícula brasileira

BNDES quer transformar o Brasil em um importante exportador de combustíveis renováveis

Retrospectiva
Vistação estrangeira e índice de negociação foram os principais destaques do Simtec 2003

E muito mais...