Reportagem de Capa Edição 81
de Setembro/Outubro de 2003
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Passaporte para o futuro
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Com mercado internacional de açúcar
fechado, setor sucroalcooleiro investe suas esperanças na exportação
de álcool.
Luiz Baleotti |
| Uso e exportação do álcool são
as grandes esperanças de crescimento do setor sucroalcooleiro
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A primeira vez na história que o álcool
teve a sua importância reconhecida foi durante a Segunda Guerra
Mundial, ocorrida entre os anos de 1939 a 1945, quando o combustível
era usado nos veículos a gasogênio para dar partidas,
nos aclives e nos trechos de lama. Com o fim das batalhas, porém,
o abastecimento de petróleo foi novamente organizado e o álcool
descartado. Anos depois, em 1973, o álcool voltava a ser destaque
com a primeira grande crise de petróleo, que causou desajustes
na balança de pagamentos do Brasil e colocou em risco o abastecimento
interno.
O país precisava determinar as providências urgentes
e, dispondo de infra-estrutura em terra, clima e tecnologias, decidiu
lançar em 1975 um grande projeto de energia renovável,
o Proálcool (Programa Nacional do Álcool). Inicialmente,
o Brasil passou a produzir o combustível anidro, para ser adicionado
na gasolina, mas a nova crise do setor petrolífero demandou
a necessidade de fabricação do álcool hidratado,
que abastece os veículos diretamente.
O programa obteve sucesso e foi responsável pela construção
de centenas de usinas e destilarias. Os US$ 900 milhões investidos
construíram uma capacidade industrial instalada para uma produção
de 16.000.000 de metros cúbicos de álcool ao ano. Houve
o início da fabricação de carros a álcool,
que estouraram as vendas de veículos no Brasil - em 84, de
cada 100 unidades produzidas pelas montadoras, 94 eram com motor para
o combustível.
Mas o momento de instabilidade vivido pelo setor sucroalcooleiro no
fim da década de 80 provocou a extinção do Proálcool.
A gasolina retomou o seu vigor, passou a ser mais competitiva e o
álcool começou a enfrentar problemas de abastecimento
- muitos empresários do setor ainda garantem ter sido vítimas
de um boicote. No ano 2000, menos de 1% dos carros fabricados no Brasil
era a álcool.
Depois da crise, os representantes da agroindústria canavieira
passaram a procurar métodos de incentivo para impulsionar o
aumento da utilização do produto e devolver a confiança
ao consumidor. Desde o declínio do Proálcool, não
se observava um ano com tantas iniciativas de estímulo ao uso
do álcool combustível quanto 2003.
Com o segmento profissionalizado e a sua identidade corporativa renovada,
o setor sucroalcooleiro está prestes a passar por uma nova
e desafiadora transformação. Sem possibilidades de avanços
comerciais consistentes com o seu principal produto de negociação
externa, o açúcar, a ampliação do mercado
internacional de álcool é considerada a única
alternativa de desenvolvimento para agricultura de cana-de-açúcar
brasileira.
Já na safra 2004/05, a Coimex Trading aumentará as exportações
de álcool de 700 milhões de litros para 1,4 bilhão
de litros. A empresa pretende aumentar em 50% a sua participação
no mercado mundial do combustível, avaliado em 3 bilhões
de litros por ano, segundo informações da sua diretoria.
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| Principal produto de negociação internacional
do setor, o açúcar sofre muitas barreiras tarifárias |
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Se o setor conseguir alavancar as exportações
de álcool, vai consolidar a sua participação
na economia brasileira, que possui números portentosos. O Brasil
abriga atualmente 324 usinas e destilarias, responsáveis por
2,2% do PIB nacional, o que corresponde também a um milhão
de empregos diretos, e a quantidade triplicada de ocupações
indiretas.
Desregulamentado em 1997 e beneficiado pelo desenvolvimento de atividades
por mais de 30 anos, o setor priorizou a produção de
açúcar e hoje administra 36% do mercado externo do produto
- estimado em 37 milhões de toneladas -, negociando com mais
de 80 países, mas os principais clientes são o Oriente
Médio e a Rússia, o que rende ao Brasil US$ 2,1 bilhões
por ano.
Na última safra, 22,5 milhões de toneladas de açúcar
e 12,6 bilhões de litros de álcool foram produzidos.
Mas, a Unica (União da Agroindústria Canavieira de São
Paulo) estima que esta colheita será alcooleira, com um incremento
de 9,6% em relação à anterior e sofrerá
uma redução de 1,7% no ATR destinado ao açúcar.
No cômputo geral, no entanto, haverá um leve aumento
em relação à safra 02/03 e uma manutenção
do volume exportado, que deve continuar no patamar de 11,3 milhões
de toneladas.
Apesar de render muitas divisas ao Brasil, a produção
de açúcar não deve crescer nas próximas
safras, porque é o item que enfrenta o maior número
de barreiras protecionistas no mundo. Além disso, há
um impasse na Organização Mundial do Comércio
para liberalização das negociações internacionais.
O mercado do açúcar está totalmente fechado
para o Brasil. A nossas esperanças passam a ser depositadas
no álcool, define Eduardo Pereira de Carvalho, presidente
da Unica.
Enquanto o açúcar é líder de mercado,
os números do álcool ainda são bastante modestos
- o Brasil exporta apenas 700 milhões de litros de álcool
ao ano, o que significa 5% da produção. A meta do setor
para o próximo ano é iniciar um trabalho que visa garantir
a liderança deste filão internacional. Se tivermos
demanda internacional, podemos exportar até 6 bilhões
de litros em cinco anos no mámixo, acredita Carvalho.
Para o presidente da Associação Nacional dos Produtores
de Álcool, Roberto Holanda, o processo de exportação
de álcool brasileiro para outros países é um
fato consolidado, irreversível e deve acontecer a curto e médio
prazo. Segundo ele, isso acontecerá por dois motivos. Primeiro,
nessa década, o petróleo entrará numa marcha
irreversível de aumento de preços e segundo, baseado
em informações científicas, as pessoas do mundo
inteiro estão mais preocupadas com questões ambientais,
favorecendo assim ao consumo de biocombustíveis como o álcool,
que não polui, pontua. |
| Eduardo Carvalho, presidente da Unica: Precisamos de
auto-regulação. |
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Com estas perspectivas, a prioridade do setor neste
momento é desenvolver um projeto que ofereça ao governo,
ao mercado e à sociedade brasileira credibilidade para acreditarem
no crescimento, que seria estimulado por maior consumo de carros a
álcool ou flexíveis, transformação do
combustível em commodity e inserção consistente
da co-geração a partir do bagaço de cana na matriz
energética nacional.
O sucesso desta empreitada está condicionado ao resultado de
uma grande missão: criar um mercado permanente de álcool.
Precisamos transformar o combustível em uma commodity
mundial. O crescimento do número de países que incluem
o etanol na matriz energética será um fator de estímulo
tecnológico e irá consolidar o mercado, explica
Antônio Pádua Rodrigues, consultor da Unica.
Para se tornar um exportador de álcool combustível,
o Brasil deve considerar três aspectos, alerta Ângelo
Bressan, diretor do Departamento do Açúcar e do Álcool:
garantir o fornecimento do produto a partir de políticas específicas
de apoio ao setor; atuar no desenvolvimento de um sistema de formação
de preços no mercado internacional e organizar um período
de transição que permita a melhoria da nossa infra-estrutura
e a discussão de um cronograma de uso do álcool pelos
clientes.
Segundo Bressan, o desafio do setor é descobrir como criar
uma estrutura para se transformar um grande fornecedor mundial de
álcool. Já sabemos como exportar álcool
em pequenos volumes, só precisamos melhorar a infra-estrutura
para se conseguir vender em grande escala, afirma.
O diretor acredita também que para viabilizar o comércio
do álcool no mercado internacional, além de garantir
o suprimento, é preciso fazer uma campanha de promoção
do combustível para ganhar confiabilidade. Questões
ambientais e econômicas estão levando vários países
a se interessarem cada vez mais pelo combustível.
O maior passo neste projeto será dado em fevereiro de 2004,
quando a escola de samba carioca Salgueiro entrar na Marquês
de Sapucaí. O desfile da agremiação vai contar
a história do álcool, resultado de iniciativa de marketing
do usineiro José Pessoa de Queiroz Bisneto para divulgar globalmente
o combustível. Queremos chamar a atenção
do mundo para o álcool. Precisamos criar um fato que cause
impacto no Brasil e no planeta. Além de atrair muitos turistas,
o Carnaval é transmitido pela televisão para centenas
de países, empolga-se Pessoa.
No Brasil, outra campanha promete despertar o interesse pelo combustível.
Organizado através de uma parceria entre a empresa DuPont e
a Unica, o Projeto Energia Brasileira, que pretende incentivar o emprego
do álcool combustível no país e será promovido
até o mês de dezembro, quando será realizado,
em Ribeirão Preto/SP, um rali composto por participantes selecionado
por usinas e destilarias de todo o país.
As campanhas também querem dar continuidade aos bons resultados
obtidos internamente. O governo liberou a mistura de álcool
à gasolina em 25% e cresceu o consumo do combustível
no Brasil. As indústrias começaram a produzir, em março
deste ano, veículos de motor flexível, que já
ocupam uma grande parte das vendas dos carros a álcool. Se
as expectativas se confirmarem, serão produzidos 300 mil modelos
flex fuel em 2004", confirma Rodrigues, da Unica.
Possibilidades internacionais
Os empresários do setor sucroalcooleiro acreditam que o país
pode até quintuplicar o volume de álcool exportado.
Conseguir colocar o álcool no mercado exterior será
o primeiro passo para o nosso sucesso total. Isso porque as exportações
certamente trariam uma demanda grande da Europa e dos Estados Unidos,
país onde já está sendo produzido o álcool
de milho que por sinal é muito mais caro que o de cana-de-açúcar,
sugere José Inácio Morais, presidente da Associação
dos Plantadores de Cana da Paraíba (Asplan) e vice-presidente
da União Nordestina dos Produtores de Cana (Unida).
Outros países que produzem cana como Japão, Colômbia,
Austrália, Índia, Cuba, e Guatemala já iniciaram
programas de mistura do combustível à gasolina, mas
apenas o Brasil tem potencial para exportar não só pelo
domínio do uso do produto, mas também porque tem condições
de produzir álcool etanol em grandes quantidades.
Neste contexto, o Japão seria o primeiro mercado potencial
para o Brasil. Entrou em vigor em agosto uma legislação
do governo japonês que permite a mistura de 3% de etanol na
gasolina, o que representa um consumo imediato de 1,8 bilhão
de litros, ou 15% da produção brasileira que é
de 13 bilhões de litros para uma capacidade instalada de 16
bilhões de litros.
O interesse do Japão pelo álcool brasileiro começou
há três anos, quando consultaram o Brasil para saber
se o país seria capaz de fornecer com segurança etanol
para o mercado japonês. Como o Brasil teve altos e baixos e
sempre ficou no limiar da capacidade de abastecimento do mercado interno,
a negociação nunca se concretizou. Nesse período
o setor não foi capaz de manter uma oferta adicional,
conta Isidoro Yamanaka, assessor especial do Ministério da
Agricultura.
Segundo ele, agora o Brasil passa a abrir um horizonte concreto para
a exploração deste mercado. Existe até
a possibilidade de o Japão tornar a legislação
de mistura de 3%, que pode chegar a 10%, na gasolina mandatória,
além de fatores econômicos, os japoneses demonstram também
preocupações ambientais e ecológicas, completa.
Além dos orientais, franceses, mexicanos e chinenes já
apresentaram interesse no combustível brasileiro, mas as negociações
mais avançadas estão presentes na Colômbia, que
a partir de janeiro de 2005 passa a misturar 10% de álcool
anidro à gasolina, o que vai aumentar a demanda no país
para 3 milhões de litros/dia. Para abastecer o mercado interno,
o governo e os empresários colombianos estão pretendendo
firmar parcerias com o setor sucroalcooleiro do Brasil. |
| Para se tornar um exportador de álcool, o Brasil precisa
garantir o fornecimento do produto |
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A questão ambiental é o principal trunfo
do álcool combustível. Produzimos um elemento
que o mundo inteiro olha com demanda: a energia renovável e
totalmente correta, declara Roberto Rodrigues, ministro da Agricultura.
Por isso, outro país que pode se transformar em um cliente
brasileiro é os Estados Unidos, que mantém postura protecionista.
O mercado americano possui grande potencial, mas está
fechado para nós. Temos que abri-lo na porrada, opina
Carvalho.
Realmente o mercado americano é muito próspero. Os Estados
Unidos já estão com 73 destilarias em funcionamento
e outras 13 em construção. Este ano devem produzir mais
de 10 bilhões de litros de álcool para misturar na gasolina
e a expectativa é de chegar a 18 bilhões de litros até
2018. È importante mencionar isso porque o fato de os
norte-americanos estarem misturando etanol na gasolina têm um
grande efeito demonstrativo, mas na realidade eles não têm
matéria-prima disponível e haverá necessidade
de importação, especula Bressan.
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