Reportagem de Capa II – Edição 83 de Janeiro/Fevereiro de 2004
Super preocupação
Com previsão de nova safra recorde, setor sucroalcooleiro estuda estratégias para enfrentar possível crise de mercado

Supersafra: queda dos preços do açúcar e do álcool no mercado interno
Ainda superofertado pela safra passada, que processou 298 milhões de toneladas de cana, produziu 12,9 bilhões de litros de álcool e 20,35 milhões de toneladas de açúcar na região Centro-Sul, e acompanhando queda nos preços dos seus principais produtos, o setor sucroalcooleiro já discute as alternativas para administrar uma nova colheita recorde de 320 milhões de toneladas, conforme a primeira estimativa do ano realizada pela Unica (União da Agroindústria Canavieira de São Paulo).

Esta entressafra registrou grande queda dos preços do açúcar e do álcool no mercado interno – houve redução acumulada nos últimos doze meses de 50% nas cotações do álcool anidro e de 60% nos preços do açúcar, negociados, em média, a R$ 18,24 por saca de 50 quilos.Informações da Consultoria Bioagência indicam que a demanda pelo álcool deve concluir o ano safra, até abril deste ano, com apenas 1% de crescimento contra 16,72% de aumento da produção na safra 2003/2004.Os dados, aliados à perspectiva de superprodução, estão causando grande preocupação no mercado. “O setor está preocupado com essas estimativas”, diz o presidente da Crystalsev, João Carlos Figueiredo Ferraz. “Os preços estão decadentes, caindo a riscos muito sérios”, alardeia o empresário Maurílio Biagi Filho.

As expectativas dos especialistas do mercado apontam para um período nebuloso. Segundo o diretor de Derivativos da Coimex, Arnaldo Luiz Corrêa, o setor passará por um ano difícil. “A demanda pelo açúcar não dá sinais de melhora e o consumo estagnado de álcool combustível pode gerar ainda mais açúcar no mercado”, constata. O aumento do custo do frete naval também está contribuindo para o crescimento do pessimismo. Para a Nigéria, país-sede de grandes refinarias de açúcar, o valor do frete subiu de US$ 34/tonelada para até US$ 70/ton no último ano.

Para evitar maiores estragos, o setor precisa agir com rapidez, mas antes de determinar soluções para o problema, os empresários do setor precisam harmonizar os seus discursos e definir as estratégias de atuação. “As soluções não podem ser individuais, dever ser coletivas e abranger toda a cadeia produtiva”, propaga Paulo Zanetti, vice-presidente da Alcopar (Associação de Produtores de Álcool e Açúcar do Estado do Paraná).

Algumas frentes de atuação estão sendo analisadas pelo setor. Alguns representantes defendem a adoção de medidas emergenciais, como a alteração da mistura de álcool à gasolina dos atuais 25% para 30%, mas a iniciativa encontra determinada resistência. “Acredito que esta providência represente a queima de um cartucho desnecessário, na prática não surtirá efeito algum. Com os excedentes de álcool verificados, é difícil imaginar que a mistura esteja sendo realizada corretamente. Além disso, vamos nos expor novamente à opinião pública como um segmento desorganizado”, refuta o presidente da Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Canaoeste) e da Organização dos Plantadores de Cana no Estado de São Paulo (Orplana), Manoel Ortolan.
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Outra reivindicação é a redução do ICMS do álcool de 25% para 12%, medida regulamentada recentemente em São Paulo para aumentar a demanda e combater a sonegação. “Cabe ao setor hoje um movimento de diminuição do imposto no Brasil inteiro, o que não significaria renúncia fiscal como acontece com o GNV (Gás Natural Veicular). O açúcar e o álcool não demandam do governo que ele abra o cofre”, reclama o industrial José Pessoa Queiroz Bisneto, presidente do Grupo José Pessoa.“Precisamos de medidas de médio e curto prazo”, emenda Luiz Carlos Correa Carvalho, presidente da Câmara Setorial de Açúcar e Álcool.

Mais comedidos, outros usineiros acreditam que o equilíbrio da oferta da produção possa ser obtido através da estocagem, financiada por recursos públicos e privados. O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues, conseguiu, no fim de janeiro, aprovação do Conselho Monetário Nacional (CMN) para a proposta de prorrogação dos empréstimos concedidos para a estocagem do álcool.
Com isso, foram prorrogadas por mais um ano as dívidas que venciam em janeiro e fevereiro na região Centro-Sul. As parcelas restantes – referentes aos meses de março e abril – ainda passarão por nova avaliação pelo Conselho Interministerial do Açúcar e do Álcool (CIMA), após uma análise do comportamento do mercado. De acordo com Eduardo Pereira de Carvalho, presidente da Unica, a medida foi essencial para o setor."Foi uma providência fundamental para manter o equilíbrio da cadeia produtiva sucroalcooleira, que vive uma conjuntura de preços baixos em plena entressafra".

Outra possibilidade cogitada é a busca por novos mercados, que absorveriam parte da produção excedente.“O setor está preocupado com essa estimativa e precisa ser mais pró-ativo na busca de novos mercados, seja qual for o produto, açúcar ou álcool. Temos de abrí-los de qualquer maneira”, evoca Ferraz. “Tenho a seguinte filosofia: quer crescer, cresça, mas vislumbre o mercado externo”, concorda Zanetti.
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O presidente da Unica, porém, demonstra pessimismo quanto a esta hipótese. “Não imagino que o mercado internacional consiga adquirir uma quantidade maior de açúcar, afinal já está difícil absorver o atual volume. As exportações de álcool em grande escala ainda representam uma realidade distante”, acredita.

O não processamento da safra seria mais uma opção para as usinas regularem o mercado. Sem novos destinos, não haveria interesse para realizar uma produção tão grandiosa.“Ou diminuímos a produção ou aumentamos a demanda. Devemos produzir menos. Mas esta é uma questão de planejamento, basta organizar a produção. Insisto que se todos os produtores deixarem 5% da cana em pé, o que representa zero de problema coletivamente, teríamos os preços em patamares mais justos e mais honestos. Agora, os valores cairão se todos seguirem a sua própria vontade de vender. Não estaremos adiando o problema, estamos é ganhando mais tempo para abrir novos mercados”, sustenta Biagi Filho.

Ricardo de Arruda Pinto, diretor do Instituto de Desenvolvimento Agroindustrial (Idea) também confirma que uma parcela da produção de cana deve permanecer sem colheita, sendo processada posteriormente. A hipótese ainda não está causando aflição entre os produtores de cana. “A nossa preocupação está no preço, que impacta diretamente na produção. Os insumos subiram mais de 50% em média, e isso reflete direto no bolso. Assim, quando o preço da cana cai, o prejuízo é imediato. Para nós, a dor é maior”, explica Ortolan.

Mas há quem seja totalmente contrário a idéia de atraso da colheita. Para Roberto Salles Zancaner, presidente do Conselhor Deliberativo da Alcoovale, o mercado tem que se regular sem intervenções, deixando que os preços flutuem. “Eu torço para o melhor, mas me preparo para o pior. As usinas devem conter gastos e se adaptarem. Aos poucos, o setor se ajusta”, recomenda. “Não existe na agricultura um produto que vai ser sempre rentável. Tem os anos de vaca gorda e os períodos de vaca magra. Dentro das empresas temos que nos prevenir para isso, nos programar para crises”, recomenda o representante da Alcopar.

O setor ainda menciona a possibilidade de atrasar o início da safra, programado para maio, o que também tem gerado polêmica. Se isso acontecer, as usinas serão obrigadas a reduzir a reforma dos canaviais e canas de viveiros no processamento. “Precisamos de um canavial equilibrado”, alerta Antônio Pádua Rodrigues, diretor técnico da Unica.

Por enquanto, o único consenso a que o setor chegou constata a falta de união e organização do agronegócio da cana. “Excedentes de produção são admissíveis, o que não é aceitável é não termos políticas e estratégias definidas”, protesta Ortolan. “Nem para fazer o carnaval, o setor se uniu”, exemplifica Biagi Filho, em alusão ao pouco apoio concedido ao empresário Queiroz Bisneto, que patrocinou o desfile da escola da samba carioca Salgueiro no último carnaval para promover o álcool internacionalmente.


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