Especial Nordeste – Edição 83 de Janeiro/Fevereiro de 2004
Especial Nordeste
Recife... a vitrine do Nordeste
Fiepe
A Federação das Indústrias de Pernambuco – Fiepe vem trabalhando em conjunto com o Governo do Estado para otimizar a infra-estrutura logística – o que significaria transformar o Estado em um hub de escoamento da produção de toda a região Nordeste.

Um dos projetos defendidos pela entidade é a ferrovia Transnordestina – que integraria três pontos do sistema ferroviário nordestino (Missão Velha/CE, Salgueiro/PE e Petrolina/PE) com o sistema hidroviário do São Francisco e o sistema rodoviário já existente.

Koblitz
O professor e engenheiro Luiz Otávio Koblitz fundou, em 1975, a Koblitz para trabalhar com instalações elétricas principalmente no setor de açúcar e álcool, mas seu conhecimento e dedicação deram confiança aos clientes para que a empresa passasse a atuar com geração e co-geração de energia, adotando conceitos avançados em engenharia de sistemas elétricos e termodinâmicos. A busca por alternativas para integrar sistemas de energia em sintonia com as questões ambientais é uma postura herdada de seu fundador e uma constante da empresa.

A Koblitz atua em vários setores, mas alguns merecem destaque, como o desenvolvimento de projetos para usinas de açúcar e álcool, de alimentos, bebidas, cimento, madeira, óleos vegetais, beneficiamento de arroz, papel, cerâmica, frigoríficos, siderúrgicas, têxtil e outros.

Secretaria de Desenvolvimento Econômico
De suma importância para a economia do estado, o setor sucroalcooleiro representa 19% do PIB estadual e ainda ocupa o primeiro lugar na pauta de exportação de Pernambuco. “É um setor que o Governo Jarbas pegou sofrido por secas recorrentes. A Mata Norte, de maior devastação, recebeu o Prorenor, um programa que promoveu o replantio da cana e a reorganização da vida através de investimentos que, na época, se achava que seriam a fundo perdido, mas que depois viu-se que deram muito resultado e se pagaram”, comenta Alexandre José Valença Marques, Secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Esportes.

O programa foi tão feliz que já se copia o modelo em outros estados e mesmo para outras culturas. Um pouco depois de aplicado na Mata Norte o programa foi estendido para a Mata Sul, numa quantidade menor. Resultado: o setor colhe este ano 12% a mais de toneladas de cana, quase retomando suas médias históricas.

O secretário repele o estigma do setor sucroalcooleiro porque ele sempre ficou de fora dos grandes programas federais, mesmo com a criação da Sudene. “Não se vê uma manifestação mais forte do setor embora o Fundo Nacional de Energia financie alguns projetos como a produção de gás carbônico a partir da fermentação do álcool. Mesmo o Prodepe – Programa de Desenvolvimento do Estado de Pernambuco não beneficia o setor sucroalcooleiro — apenas mantém um sistema tributário especial”. O Secretário acredita que o Estado não deve se meter nos negócios; ele tem a função de desenvolver centros tecnológicos, fornecer técnicos, garantir condições para geração de empregos e o crescimento das oportunidades.

“O projeto do canal que sai de Sobradinho (BA) para irrigar uma grande área que inclui o estado de Pernambuco ainda não é uma realidade mas como é que Sobradinho vai poder irrigar se não tem água também? As discussões são muito grandes e divergentes. Vejo mais pessoas a favor de um processo de revitalização do Rio São Francisco, reconstituindo suas matas ciliares, saneando...” Perguntado sobre os poços artesianos em Pernambuco, o secretário afirma que, infelizmente, eles são pouco econômicos porque o estado está sobre um cristalino muito grande, que quando contém água é muito salinizada; os poços precisam ser muito profundos.

Quanto à logística, o secretário tem notícia que os trabalhos nas ferrovias começam este ano ainda, primeiro com a reforma das linhas já existentes — Refice-Propiá (no Vale do São Francisco), o ramal centro (Petrolina - Salgueiro) e Bahia-Sergipe. Isso feito, é uma boa parte da Transnordestina e poderia começar a trazer para o porto, com mais baixo custo, o que for produzido no São Francisco.

O setor de cana emprega entre 60 e 80 mil trabalhadores, mas o número correto depende muito do setor de corte já que o estado é pequeno e possui mais de um período de chuvas – o que gera um movimento de trabalhadores interessante; uma migração ímpar de norte a sul e do sertão para o agreste. A cana ainda é o carro-chefe da indústria pernambucana, mesmo com problemas que enfrenta há dois anos. “A Fiepe e o Governo do Estado têm dado apoio político na questão da equalização, que não é de Pernambuco mas de todo o nordeste”.

Sobre os grupos nordestinos em franca expansão no Centro e Sudeste, o secretário junta-se ao coro das pessoas ligadas ao setor quando diz que se as empresas e empresários pernambucanos conseguem produzir no nordeste, no sul é brincadeira.

STAB
Criada por pouco mais de oitenta técnicos em 1963 para discutir os problemas e soluções técnicas, econômicas e sociais da agroindústria da cana-de-açúcar no Brasil, a STAB Sociedade dos Técnicos Açucareiros e Alcooleiros do Brasil cresceu e hoje está presente em todo o país, com quatro regionais: Stab Sul - São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Rondônia; Stab Centro - Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais; Stab Leste - Sergipe, Bahia, Alagoas, Tocantins; Stab Setentrional - Pernambuco, Acre, Amapá, Amazonas, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte, Roraima.

A regional leste e a setentrional possuem, cada uma, aproximadamente 250 técnicos e 20 empresas associadas, mas como salienta o professor Djalma Euzébio Simões Neto, presidente da Stab Setentrional, a entidade reuniu 1.135 inscritos em seu último Congresso Nacional. “Já realizamos em nossa Regional, mais de 70 eventos, incluindo dois congressos nacionais e nosso seminário regional anual, sem contar que, há 14 anos, acontece o Encontro dos Técnicos Açucareiros do Nordeste onde, além de discutirmos assuntos técnicos, homenageamos as personalidades de destaque do setor num ambiente de confraternização”.

C&T
Pernambuco sabe que comprar tecnologia é muito caro; o negócio é desenvolver tecnologia localmente. Essa frase resume a filosofia de trabalho da secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado de Pernambuco. O Governo possui programas para fomentar empresas, mas elas precisam de mais incentivos porque, em qualquer lugar do mundo, o Governo investe e facilita o desenvolvimento.

Segundo o secretário executivo de tecnologia, inovação e ensino superior, professor José Carlos Cavalcanti, a falta de recursos naturais e uma centralização histórica na cultura da cana, fizeram com que o povo pernambucano buscasse outro tipo de riqueza, o saber. “Pernambuco é o estado nordestino com mais universidades e doutores”, comenta.

Pernambuco está criando novos Pólos de desenvolvimento em diversas atividades como o Pólo de Tecnologia de Informação — mais conhecido como Porto Digital —, o Pólo de Logística (região de Suape), Pólo do Gesso, Pólo de Confecções, o de Laticínios e outros. “Esses novos centros industriais estão reforçando a economia do estado, antes muito baseada na cana. E, veja, o futuro da cana não me parece ser o açúcar mas o álcool e a geração de energia”.

Centros de Tecnologia estão sendo montados nesses Pólos para otimizar atividades que se desenvolvem de forma excelente, como é o caso da vinicultura — com apoio do Instituto do Vinho de Petrolina — da ovinocaprinocultura, de confecção e de gesso. “Não podemos esquecer do Pólo Médico: depois de São Paulo, Recife é o maior centro médico do Brasil, com 320 hospitais e 111mil trabalhadores de saúde. O setor é o segundo em contribuição de ISS da região metropolitana de Recife e, diferentemente de outros setores, novas tecnologias aumentam o número de empregos — que podem ser computados como cinco pessoas, em média, para cada leito hospitalar”.

O setor sucroalcooleiro possui uma boa rede de ensino no estado, o que inclui a Estação Experimental de Cana-de-açúcar do Carpina, da UFRPE, e mesmo o moderno laboratório montado para participar do projeto Genoma-Cana — fruto de um convênio entre Fapesp e Facepe para transferência de tecnologia. Por um ano várias equipes foram treinadas em seqüenciamento genético, em São Paulo. “Aqui unimos o conhecimento da tecnologia da informação — o diferencial desse laboratório é o bio-informata — com o conhecimento biológico. Estamos preparados, mas quem manda na genética da cana, hoje, no mundo, é São Paulo”.

Alco
Em 1996, a Alco foi fundada como Associação dos Produtores Autônomos de Álcool voltada para os interesses específicos dessa categoria. E, como é uma associação onde a participação não é compulsória, reune pessoas com os mesmos interesses e disposição. Ao longo do tempo, muitos produtores de álcool do Nordeste compraram unidades no Centro-Sul, levando a Alco a adotar o nome de Associação Brasileira da Indústria de Álcool que congrega, hoje, 29 unidades, em onze estados.

Sindaçúcar
Com 62 anos de verdadeira militância no setor de cana-de-açúcar, o Sindaçúcar – Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool aglutina as 27 usinas e destilarias do estado de Pernambuco, faz a representação institucional e apóia as ações de assistência social de suas associadas. “Fazemos com que os Planos de Responsabilidade tenham a mesma diretriz e temos nos empenhado em ampliar o uso do Selo Abrinq entre nossas associadas, pois 14 delas já se habilitaram”, comenta Renato Augusto Pontes Cunha, presidente do Sindaçúcar.

O setor sucroalcooleiro representa cerca de 20% da economia local, o que é muito, resguardadas as proporções do estado. O Nordeste, como um todo, representa quase 20% da produção nacional de açúcar e álcool, mas, em alguns meses, quando o centro-sul está na entressafra, passa a ser o único produtor, ou seja, o Brasil possui dois ciclos complementares. É um nicho importante que não pode ser relevado.

Em função da topografia acidentada, o Nordeste tem a maior empregabilidade do país, sendo que o setor sucroalcooleiro é líder nacional em empregos no campo, com quase um milhão de empregos no total; só em Pernambuco são 150 mil de forma direta e outros 600 mil empregos indiretos. “Isso praticamente consolida nossa posição econômico-social e, por isso mesmo, temos a prerrogativa de fazer o embarque da cota americana. Qualquer outra fala sobre o assunto é teoria. Isso é lei federal desde 1995 e lei é para ser cumprida. Claro que existem pessoas que não se conformam com o fato do Nordeste entregar esse açúcar, mas fazemos essa entrega desde 1960 de forma contínua, sem contar que fomos pioneiros na exportação de açúcar. É um diferencial pequeno mas não vamos perdê-lo”, garante Renato Cunha.

Unida
A Unida – União Nordestina dos Produtores de Cana, entidade que congrega 10 instituições de classe distribuídas por nove estados do Nordeste, representando aproximadamente 20 mil pequenos e médios produtores, fornecedores de cana. A produção desse universo corresponde a cerca de 40% do total da produção agrícola do Nordeste, ou seja, de 20 a 21 milhões de toneladas; de cana os outros 60% vêm do grande produtor, a cana própria do segmento industrial.

No Brasil como um todo, na base primária do processo, existem dois produtores, os fornecedores de cana — pequenos e médios produtores — e os grandes produtores, as usinas. No caso do Nordeste, o grande produtor está representado por 90 unidades industriais, que acumulam duas funções, a agrícola e a industrial. Os pequenos e médios só têm a função agrícola, só produzem cana.

“É bom visualizar a estratificação desses pequenos e médios produtores, para se ter uma idéia da função social do setor: 86% desse universo está representado por produtores de até mil toneladas de cana por safra, o que significa que grande parte pratica a agricultura que se enquadra no conceito de agricultura familiar; se considerar até 5 mil toneladas de cana, temos 96% desse universo. No Nordeste do Brasil de hoje, produzir até mil toneladas de cana, caso da imensa maioria, representa um faturamento anual bruto de 28 mil reais e, — considerando-se a remuneração líquida da ordem de 10% — 2,8 mil reais ano ou algo em torno de um salário mínimo por mês para o pequeno e médio produtor, com a equalização (subsídio da cana), sem ela, o resultado líquido é negativo, ou seja, esse universo hoje está no prejuízo”, demonstra Gregório Maranhão, secretário geral da Unida.

O universo de associados da Unida é quem mais sofre com a suspensão da equalização, erroneamente chamada de subsídio, porque subsidiar é incorporar um algo mais, tornar diferente. Segundo Gregório Maranhão, equalizar é tornar igual e o mecanismo da equalização é para tornar, comparativamente, o resultado econômico da produção de cana do centro-sul igual ao resultado econômico que se teria no Nordeste não fossem seus custos maiores por causa da topografia acidentada.

“Acreditamos que essa diferença seja de 25% a 30% entre o custo de produção no Centro Sul e o custo de produção médio no Nordeste. Isso significa que o valor da equalização deveria ser atualizado, o que não vem sendo feito há 12 anos”. O último valor que consta é de 5,0734 reais por tonelada de cana e já incorpora a defasagem de 12 anos. O programa não vem repassando os recursos aos produtores do Nordeste; a lei não vem sendo cumprida. A atualização desse valor decorre do fato de que, quando se fala de estudo comparativo de custo de produção, esse estudo incorpora uma série de variáveis como transporte (que varia em função do combustível), mão de obra (que varia em função do piso), fertilizante (90% ainda é importado), etc. “Atualizado, o valor estaria acima de 10 reais por tonelada, o que significaria que o Nordeste está desprovido de cerca de um terço da remuneração para a atividade canavieira na base primária”.

Copergás
Ao lado dos produtores de álcool e açúcar, a Companhia Pernambucana de Gás – Copergás completa as alternativas energéticas “ambientalmente corretas”.

“Eles (álcool e gás) estão unidos pela questão ambiental. Mesmo que o gás não seja renovável, os dois têm uma queima mais limpa”, destaca o presidente da empresa, Romero de Oliveira e Silva.

“A Copergás reconhece o papel fundamental da cana na formação da própria sociedade pernambucana e destaca o pioneirismo do setor sucroalcooleiro no uso de alternativas energéticas o que, de certa forma, criou espaço para a utilização do gás natural”, completa Romero.

O presidente da Copergás defende um sistema de geração de energia que combine a biomassa com o gás natural, num ciclo combinado – já que durante a entressafra a usina não queima bagaço. “É preciso analisar bem e pensar um uso adequado das fontes de energia, seja eólica, gás ou bagaço. O que não pode é descobrir uma reserva na Bacia de Campos e não usar. Mesmo em termos mundiais, não usar uma reserva daquele tamanho, tão próxima do maior mercado da região é impensado!”

Criada em 1992, a Companhia Pernambucana de Gás – Copergás começou, dois anos mais tarde, a canalizar, vender e distribuir o gás natural em Pernambuco. Empresa mista — seus acionistas são o Governo do Estado, a Petrobras e a Gaspart — seu objetivo é implantar a rede de gasodutos para atender o estado na geração de energia, nas indústria, comércio e residências, além da introdução do gás como combustível.

A vantagem, segundo Romero, é que não há como sonegar ou misturar o gás natural.


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