Reportagem de Capa – Edição 84 de Março/Abril de 2004
Os caminhos da mecanização
Colheita mecânica apresenta crescimento acima da expectativa, mas ainda precisa se adequar a dificuldades para consolidar a sua evolução

As duas últimas safras nacionais contemplaram um acréscimo de 57 milhões toneladas de cana-de-açúcar colhidas mecanicamente. Esses dados, se traduzidos em números de máquinas e investimentos dentro do setor produtivo do segmento canavieiro, representam a aquisição de 300 novas colhedoras pelas usinas brasileiras. Hoje operam no Brasil cerca de 1.140 unidades específicas para colheita mecanizada – este índice não é oficial, foi avaliado por dedução através de cálculos baseados no rendimento médio de cada equipamento e no percentual de mecanização dos canaviais brasileiros.

A evolução não se restringe apenas à quantidade de colhedoras em atividade nos canaviais, mas também ao aumento da produtividade conquistado por estes equipamentos. O Grupo de Motomecanização do setor sucroalcooleiro estima que o rendimento médio de 70 mil toneladas por safra/máquina, alcançado há dois anos, já tenha atingido a marca de 110 mil toneladas por safra/máquina no período 2003/04.

As 300 novas colhedoras em operação demandaram um investimento da ordem de R$ 540 milhões, orçamento também revertido para as pesquisas de desenvolvimento de novas e mais eficientes tecnologias. “Eu desconheço um segmento que tenha tido um investimento tão grande em tão pouco tempo”, desafia Humberto Carrara Neto, coordenador do Grupo de Motomecanização.

O processo de mecanização da colheita está se tornando a mais forte vertente pela redução de custos e aumento de produtividade no campo agrícola canavieiro. O setor sucroalcooleiro, em meio a algumas restrições, tenta solidificar o progresso da colheita mecanizada no Brasil.

A mecanização parcial da operação de colheita no país é uma experiência antiga. Iniciou-se na primeira metade da década de 50, quando surgiram as primeiras carregadoras de cana utilizadas para substituir o carregamento manual no Estado de São Paulo. Quase 20 anos depois, o país acompanhou o desenvolvimento da primeira máquina cortadora específica para colheita de cana, caracterizada por um simples conjunto de mecanismos montados sobre um trator de esteiras. O equipamento já apresentava processos de corte basal e despontador, acionados com sistemas de correntes e polias denteadas.
Quando ocorreram as experiências pioneiras com máquinas no Brasil a intenção das usinas na época era puramente econômica. À medida que o corte manual apresentava valores mais altos, as unidades pretendiam implantar a mecanização para reduzir os gastos operacionais da colheita, que é uma operação responsável por cerca de 30% do custo total de produção.

Mas a mecanização só ganhara impulso em São Paulo na década de 90, período em que as usinas São Martinho e São Francisco implantaram o corte mecânico em meio por cento dos seus canaviais. As unidades são consideradas as responsáveis pelo início do processo de diversificação da colheita, estimulado recentemente pela regulamentação da lei 11.241/2002, que prevê eliminação da queima da palha da cana em áreas mecanizáveis até 2021 – prazo 10 anos superior para os terrenos restritos às máquinas.
Primeira cortadora desenvolvida no Brasil: sistema simples

Na safra 03/04, o Brasil processou 338 milhões de toneladas de cana, 37% das quais foram colhidas mecanicamente, de acordo com dados do Instituto IDEA. A mecanização já alcança quase 2 milhões de hectares de cana no país. O índice ainda é pequeno, mas o corte mecânico apresenta tendência de crescimento, nem sempre incitada apenas pela exigência da legislação paulista.

Humberto Carrara: “É o setor que mais cresce”

A lei determina a obrigatoriedade do corte sem queima em 30% das áreas de São Paulo até 2006. Dados da Unica informam que na última safra o Estado já havia colhido mecanicamente 36% das suas lavouras. A expectativa é que colha com máquinas 100% das áreas mecanizáveis em 15 anos.
Questão social é tabu para mecanização

O cortador Elpídio: sonho de aposentadoria ameaçado

Elpídio da Costa Nogueira acorda às 4h da madrugada, viaja alguns quilômetros de ônibus, e pouco depois já está na lida nos canaviais da região de Sertãozinho, atividade que só termina no fim do dia, após a colheita de 10 toneladas de cana. Tem uma folga semanal e cumpre esta rotina há quatro décadas, exceto na entressafra – quando geralmente não consegue trabalho. O ruralista sofre de dores crônicas nas costas e tem no rosto a marca da profissão: uma cicatriz provocada por um ferimento com a palha da planta. Viúvo, recebe R$ 250 quinzenalmente e, aos 58 anos, teme não concretizar o seu maior sonho. “O que eu mais queria na vida era me aposentar, mas mesmo faltando dois anos está difícil. Tenho medo de perder o emprego para uma máquina”.

O corte manual ainda é amplamente predominante no Brasil e responde por mais de 60% da colheita de cana realizada no país. Apenas em São Paulo, maior Estado produtor brasileiro, as usinas estão oferecendo ocupação para 200 mil de bóias-frias durante a safra 2004/05, mas o índice de empregos nos canaviais demonstra quedas sucessivas. A mecanização é apontada como a principal vilã do trabalho rural. “É evidente que a colheita mecanizada diminui muitos postos”, assegura o engenheiro agrônomo Fernando Cardoso Penteado, presidente da Fundação Agrisus.

Um levantamento realizado nos últimos três anos pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ribeirão Preto em 12 das 27 usinas da região aponta uma para uma redução de 39,76% da taxa de empregos locais – de 10.857 vagas, restaram apenas 6.540. Há 10 anos estima-se que havia 80 mil pessoas trabalhando no corte de cana. Hoje não são mais de 50 mil ruralistas atuando em uma das áreas mais mecanizadas do Brasil.

Na área de abrangência da UDOP hoje existem 4,5 mil empregos para bóias-frias, que devem cair para 1 mil em poucos anos com a exigência do corte sem queimada prévia da cana. “Hoje é grave se estabelecer uma lei sem antes analisar a situação social e econômica do país”, reclama o engenheiro agrônomo Antônio César Salibe, coordenador de cursos da entidade.

A conjuntura do setor tende para o corte ainda mais sistemático de empregos no campo. Se comparados, trabalhadores rurais e máquinas travam um duelo desleal. Enquanto um bóia-fria colhe cerca de 9 toneladas trabalhando 8 horas por dia, uma máquina chega a cortar 600 toneladas operando ininterruptamente – cada colhedora faz o trabalho de 50 a 100 homens, dependendo da jornada.

A contrapartida da mecanização, todavia, seria o aumento da competitividade do setor sucroalcooleiro no mercado internacional. “Se nós continuarmos mantendo mão-de-obra para cortar cana, os nossos custos tendem a aumentar. Se entrarmos com colheita mecanizada, os custos podem diminuir”, argumenta Tomaz Caetano Ripoli, professor titular da Esalq-USP.

A despeito da redução de custos, algumas usinas, porém, ultrapassam o índice de mecanização desejado para suprir a falta de mão-de-obra especializada. Isso aconteceu na Santa Elisa, que aumentou o expediente das máquinas por não encontrar ruralistas disponíveis. “Na verdade a colheita mecânica só cresce onde não tem mão-de-obra, porque ela é delicada, difícil de ser operada”, acredita Humberto Carrara Neto, coordenador do Grupo de Motomecanização.

Para não aumentar o problema social do Brasil, a proposta do setor é qualificar a mão-de-obra excluída para trabalhar em áreas diversas das usinas, diferentes atividades da agricultura ou até mesmo em outros setores da economia brasileira. “Teremos ao longo de 20 anos para proceder paulatinamente a substituição da mão-de-obra humana pela colheita mecanizada e ir requalificando estes profissionais para outras áreas de trabalho”, minimiza Antônio Duarte Nogueira Júnior, Secretário de Agricultura de São Paulo.


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