Reportagem de Capa Edição 85 de Maio/Junho de
2004
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Muito mais que capacete
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| Número de acidentes de trabalho cai
no setor sucroalcooleiro, mas ainda existem usinas despreocupadas
com a segurança do colaborador. Especialistas garantem que
falta maior conscientização sobre o problema.
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| Colaborador com EPI completo: investimento
na saúde e integridade física do trabalhador
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Aos 58 anos, o cortador de cana Elpídio da
Costa Nogueira sofre de dores crônicas nas costas, seqüela
provocada pelo esforço repetitivo exigido pela atividade. Mas
esse é praticamente o único problema herdado durante
as quatro décadas de profissão. No período, viu
vários companheiros se aposentarem por invalidez. Ele, ao contrário,
se feriu apenas uma vez, quando machucou um dos olhos com palhiço.
Mas isso foi há muito tempo. Hoje é mais difícil
acontecer porque usamos equipamentos de proteção.
A confiança que marca o discurso de Nogueira não abrange
grande parte dos funcionários de usinas de açúcar
e álcool no Brasil. Embora o número de acidentes de
trabalho apresente redução no setor sucroalcooleiro,
o panorama atual ainda está distante de uma realidade animadora.
Não há dados estatísticos precisos. As informações
mais novas dispostas pelo Ministério do Trabalho e Emprego
datam de 2001 e mesmo assim revelam apenas índices das
áreas agrícolas das usinas, omitindo os acidentes ocorridos
nos setores industriais. Os profissionais envolvidos no segmento,
porém, evidenciam o quadro negativo. Podemos afirmar
que a quantidade de empresas que têm o número de acidentes
de trabalho abaixo da média satisfatória é pequena.
A situação é preocupante, alerta o diretor-executivo
e fundador do Grupo Gerhai, José Darciso Rui
O alto índice de acidentes de trabalho deriva da arraigada
idéia difundida no setor que ainda relaciona o investimento
em programas de segurança a gastos. Muitas empresas fazem economia
na hora de comprar EPIs. O conceito hoje é produção,
visa-se apenas produzir bastante, mas sabemos que não pode
ser só isso, reconhece o engenheiro de segurança
Ronaldo Coelho Alvarenga, coordenador do setor de segurança
do trabalho da usina Santo Antônio.
Em algumas usinas os controles de EPIs chegam a ser atribuídos
para a área de suprimentos. No caso de trabalhadores rurais,
as condições de trabalho poder ser mais precárias
ainda quando há migração de ruralistas de Estados
do Norte e Nordeste por intermédio de empreiteiras. Algumas
destas empresas fornecem equipamentos muitos ruins. Para o serviço
render e não se machucarem, os próprios bóias-frias
acabam comprando os instrumentos, reclama o presidente do Sindicato
dos Trabalhadores Rurais de Ribeirão Preto, Sílvio Donizetti
Palvequeres. |
| Funcionários recebem treinamento sobre
segurança: 90% dos acidentes podem ser evitados com
orientação correta
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Para haver uma mudança nesse cenário é preciso
que haja muita conscientização. Tradicionalmente,
usinas são empreendimentos muito familiares, com diretores
acostumados a normas empregadas há 30 anos. O conhecimento
desta necessidade tem que começar pela diretoria, porque
vem de cima a ordem de adotar projetos de proteção,
indica Alvarenga.
O primeiro passo seria vencer as barreiras humanas e mudar o comportamento
das pessoas envolvidas na administração das usinas,
o que é um processo complicado. Um grande problema
nisso tudo talvez seja que boa parte das pessoas ainda não
veja esta área como deveria e não atribua a ela o
status que merece, diz o técnico especialista em segurança
do trabalho Cosmo Palasio.
Também já existem muitas usinas que têm plena
consciência e convicção da necessidade de equipar
adequadamente seus colaboradores, realizando inclusive diversos
programas de segurança. Porém, ressalto: muitas,
não todas", intervém Rui.
O que motiva esses projetos é a própria conscientização
das unidades e não a necessidade de atender a normas estabelecidas
pelo Ministério. As fiscalizações de cumprimento
da regulamentação oficial estão muito aquém
da real demanda apresentada pelo setor. Muitas empresas não
verificam o uso de EPI e tampouco são examinadas pelo órgão
competente. A fiscalização, tanto interna quanto
externa, é rigorosa, quando existente, expõe
o diretor do Gerhai.
A quantidade de fiscais disponíveis no Brasil e as condições
de trabalho desses profissionais não possibilitam um controle
mais rígido. Chego a ficar dois anos sem receber um
fiscal, comprova Alvarenga. As entidades sindicais locais
são as mais contundentes nesse aspecto, confirma o
engenheiro de segurança do trabalho José Cássio
Pinheiro, responsável pelo departamento de segurança
da Usinas Itamarati.
O próprio Ministério do Trabalho reconhece a falta
de estrutura. Tenho oito fiscais em uma área de abrangência
de 32 cidades. Assim, não é possível trabalhar
como gostaríamos, admite o sub-delegado Paulo Cristino,
responsável pelo MTE de Ribeirão Preto.
Mesmo que o Ministério tivesse um fiscal para cada empresa,
haveria outros problemas implicantes. As multas são de pouco
valor e permitem - tal como outros dispositivos legais - uma série
de recursos que acabam abrandando a situação. Além
disso, têm usinas que preferem correr o risco de levar a multa.
Às vezes sai mais barato, mas é uma mentalidade atrasada,
discorre Alvarenga.
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| Ronaldo Alvarenga: redução
de acidentes na usina Santo Antônio
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As possibilidades de redução de acidentes
de trabalho se aproximam mais das ações internas das
empresas que inspecionam o uso correto dos EPI´s. Mas a grande
maioria é feita equivocadamente e sem qualquer critério
mais consistente. Então, no lugar de programas mais sólidos,
encontramos as situações de evidenciação
do uso, em que mais importa a geração de documentos
do que a manutenção da saúde em si, lamenta
Palasio.
Orientações e treinamentos
A inspeção deve ser uma parte do programa de proteção
individual, que contempla ainda o fornecimento do EPI e as orientações
sobre a sua utilização. A experiência dos especialistas
revela que cerca de 90% dos acidentes de trabalho acontecem por ato
inseguro do colaborador, e não por falta de uso do equipamento
de proteção. Por isso, o treinamento se torna muito
importante. Se não conscientizarmos as pessoas que a
segurança é um fator de vida ou morte para o trabalhador,
não vai adiantar nada usar o equipamento, avisa o engenheiro
da Santo Antônio.
As orientações são obrigações determinadas
por lei. A NR 6 (Norma Regulamentadora), responsável pelo estabelecimento
de regras para EPI, estipula que orientar e treinar o trabalhador
sobre o uso adequado, guarda e conservação cabe
ao empregador. É taxativa a necessidade de treinamento
e aí a coisa degringola, porque muitas empresas entendem que
pode ser um bate-papo de 10 minutos. Ora, colocando-se no lugar do
trabalhador será que colocaríamos um objeto em nosso
corpo depois de apenas um bate-papo de 10 minutos?, questiona
Palasio.
O uso indiscriminado contribui de forma negativa e decisiva para que
o trabalhador não entenda a real necessidade da proteção
individual. Com isso reforça-se a tese de que o colaborador
não quer saúde ou segurança. Embora possa
servir como resposta para muitos, nada mais é do que um cômodo
mito, ratifica o técnico.
Exemplos mostram que programas específicos podem ser bem-sucedidos.Há
muitas experiências positivas em locais onde a indicação
do EPI é feita a partir de critérios razoáveis
e, acima de tudo, considerando o direito do trabalhador de ser consultado,
treinado e sempre ouvido.
A usina Santo Antônio, do Grupo Balbo, investe cerca de R$ 500
mil por ano no setor de segurança e tem conseguido cumprir
metas de redução de acidentes. O número
de ocorrências na usina caiu muito e está num patamar
que podemos considerar bom, mas ainda não é o ideal,
identifica Alvarenga.
A usina reduziu em 20% o coeficiente de freqüência de acidentes
na safra 2003/04 em comparação com o período
anterior. Para esta temporada, a Santo Antônio projetou uma
meta de diminuição de mais 10% dos problemas com e sem
afastamento. Para conseguir atingir o objetivo a unidade deve implantar
em breve um novo tipo de treinamento, que será realizado em
um tanque para treinamento em espaço confinado.
O projeto é pioneiro e antecipa uma norma que em breve será
regulamentada pelo Ministério do Trabalho. A equipe de segurança
da Santo Antônio montou um tanque que tem 3 metros de diâmetros
por 2,5 metros de altura, onde serão simulados procedimentos
em espaço confinado, ambiente comum em usinas sucroalcooleiras.
Os treinamentos não serão restritos aos colaboradores
da Santo Antônio, também poderão participar funcionários
de outras usinas.Assim vamos treinar as pessoas dentro desse
tanque e os observadores, que ficam do lado de fora. É mais
uma medida que visa evitar acidentes, diz Alvarenga.
Outra usina que obteve redução do índice de acidentes
do trabalho ao empregar programas de segurança é a Sabarálcool.
Os índices de acidentes eram maiores do que os atuais.
A redução deveu-se a orientação e treinamentos
constantes e inovação de EPI´s, bem como a adaptação
do funcionário, atesta o diretor-administrativo/financeiro,
Fábio Vicari Rezende.
A Sabarálcool destina R$ 400 mil anualmente para a compra de
equipamentos de proteção e manutenção
de programas voltados para a segurança do trabalhador. A usina
garante que investe e não gasta nesse setor.
Além da preocupação com a responsabilidade
social, fazemos isto porque compensa em termos de custo, assegura
Rezende.
Como muitas empresas do ramo sucroalcooleiro, a Usinas Itamarati também
amargou, a princípio, altos índices de acidentes do
trabalho. Agora começa a diferenciar-se por diretrizes, estabelecidas
pela alta direção, que estabelecem a implantação
de um Sistema de Gestão de Segurança.
Em média, contabilizando-se o valor de 30 dólares por
funcionário ao mês, a Itamarati investe R$ 1,4 milhão
em fornecimento de EPI para os funcionários. Os esforços
já se traduzem em diminuição significativa dos
índices de acidentes, mês a mês, mas é de
consciência geral que esses bons resultados somente serão
sustentáveis após a implantação efetiva
do Sistema de Gestão de Segurança, pondera Cássio
Pinheiro.
O cuidado com a saúde do colaborador está ultrapassando
a utilização de EPI´s em usinas mais conscientizadas.
Uma experiência pioneira realizada entre a empresa Edra e a
Usina Corona testou e aprovou um Tanque de Água Gelada para
os trabalhadores rurais. Antes tínhamos um tanque fixo
e com o produto foi possível levar água gelada para
os cortadores de cana em qualquer parte do canavial. O resultado foi
tão bom que adquirimos mais um, diz o técnico
de segurança da Usina Corona Ivan Sinimbaldi.
O tanque tem revestimento térmico de poliuretano e sai da usina
com 9°C e até o final do dia, está no máximo,
com 12°C. Esta é uma temperatura agradável.
Resolvemos um antigo problema nosso. Os trabalhadores bebiam água
quente e apresentavam problemas intestinais, como diarréia.Depois
que compramos o equipamento, verificamos até aumento de produtividade,
afirma Sinimbalde.
Ainda que lentamente, o processo de fornecimento de EPI e treinamentos
tende a crescer, até porque um ambiente de trabalho saudável
e seguro é sinônimo de um espaço produtivo e com
qualidade. Quem ainda não entendeu isso logo vai estar
fora do mercado, seja pela baixa produtividade, pela qualidade ruim
ou mesmo pelas ações das instituições
publicas, avalia Palasio. |
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