Reportagem de Capa II – Edição 85 de Maio/Junho de 2004
Palavra de ordem
Manejo sustentável da lavoura é prioridade para os produtores, que aumentam busca por herbicidas com melhor relação custo/benefício, além de ecologicamente menos agressivos

Aplicação de herbicidas: formulação dos produtos deve evoluir para permitir uma distribuição adequada

A agricultura canavieira é considerada hoje um dos mais promissores mercados do agronegócio nacional, otimismo embasado no interesse mundial por combustíveis renováveis, principalmente o álcool. Num passado recente, o setor sucroalcooleiro viveu momentos de euforia, com uma febre de fusões e novas aquisições que chegou a lembrar os tempos do Proálcool.

Mas as seguidas superproduções e a conseqüente baixa nos preços praticados pelo mercado acenderam o sinal de alerta – já não há mais espaço para loucuras desmedidas e a palavra de ordem das usinas é reduzir custos de produção. “Hoje as usinas e os produtores buscam ao máximo a diminuição dos gastos, para aumentarem seus lucros também”, confirma o usineiro Antônio Eduardo Tonielo, presidente da Copercana (Cooperativa dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo).

Na safra 2004/05 esta preocupação está se intensificando ainda mais. Com as chuvas excessivas, 20 milhões de toneladas de cana, ou 6,25% da área plantada, deixarão de ser processadas – houve atraso na maturação dos canaviais. Se o período chuvoso se prolongar ainda mais, o teor de sacarose na cana tende a diminuir, o que significa menor eficiência na produção. “A cana passa a valer menos”, avalia Tonielo.

Diante destas oscilações do mercado, os produtores hoje estão mais preocupados com manejo sustentável da lavoura. “O manejo sustentável realmente significa produzir a custos menores, uma vez que busca aumentar a eficácia do processo, reduzindo perdas”, destaca o pesquisador científico do IAC Hamilton Ramos.

Uma das maneiras que o produtor tem encontrado para reduzir os seus custos é otimizar a aplicação de herbicidas. “Sempre procuro utilizar nos meus canaviais produtos que sejam eficazes, com baixa toxicidade, boa residualidade no solo, baixa capacidade de percolação, baixa persistência no ambiente e com custo acessível”, enumera o fornecedor Antônio Sarti.

A busca pelo custo mais baixo pôde ser evidenciada recentemente em Sertãozinho durante a Agrocana. No evento, a Copercana disponibilizou uma Bolsa de Negócios e um Balcão de Mercadorias, que ofereceu insumos com preços mais amenos – as taxas de juros oferecidas foram de 8,75% ao ano -, além de linhas de créditos para financiamento.

As cifras geradas com as negociações no evento revelam a busca por redução de custos. O Balcão promoveu negócios da ordem de R$ 70 milhões. “Sabendo dessas condições especiais, o produtor esperou a Agrocana para comprar adubos e herbicidas para toda a safra”, avalia Tonielo.

Este movimento de mercado já é observado há mais tempo em outros setores do agronegócio, como a fruticultura, em que se desenvolve a produção integrada. “Nesse processo a maior preocupação dos fornecedores é mostrar ao público que aquele produto agrícola foi produzido em um sistema sustentável”, disserta Ramos.
Ernani Penteado: satisfação com o uso do Plateau

Além da economia, tem se destacado neste processo a procura por produtos menos agressivos ao ambiente, preocupação que inegavelmente tem crescido na opinião pública. “Sustentabilidade é ter custo mais baixo com um menor impacto ambiental. Os sistemas de aplicação maciça têm custo alto e a sociedade rejeita. Há, assim, uma tendência por herbicidas menos agressivos e com maior rendimento”, garante o engenheiro agrônomo Ulisses Antuniassi, pesquisador da Unesp/Botucatu.

A usina São João de Araras está reflorestando as áreas de preservação permanente com o Projeto “Margem Verde – Reflorescendo a Vida”, que já plantou mais de 500 mil mudas nos últimos quatro anos. “Além disso, as pragas são controladas biologicamente e os herbicidas utilizados são rigorosamente recomendados para não agredirem o ambiente”, assegura o agrônomo Luiz Antonio Borges, o Xixo, gerente de processos agrícolas da empresa desde 1997.

Cabe às fornecedoras acompanharem as necessidades dos produtores. As empresas já estão atentas à preservação do ambiente. Antes de ir para o mercado, os primeiros testes de uma aplicação levam em consideração o efeito do produto ao meio. “Sem dúvida alguma há uma grande interferência do manejo sustentável no desenvolvimento de novos produtos. Se um produto, mesmo sendo altamente eficiente, estiver relacionado a danos a pessoas e ao ambiente, seguramente será descartado”, considera o gerente de Grupos de Produtos da Basf para a cultura de cana-de-açúcar, Marcelo Ismael.

Ademais, com o desenvolvimento de produtos que exigem a distribuição de gramas/ha, em comparação com os kg/ha utilizados anteriormente, pequenas falhas na aplicação podem representar diferenças significativas na quantidade de produto aplicado. Assim, os equipamentos precisam ser mais precisos. “Por outro lado, a formulação desses produtos teve que evoluir muito para permitir uma distribuição adequada”, completa o pesquisador do IAC.

Como o setor sucroalcooleiro se mostra promissor para as empresas fabricantes de defensivos agrícolas, a atenção com este segmento têm sido significativa. “Hoje a cana é uma realidade que não volta mais atrás. Nesse caso, temos que entender o que se colhe no período em que a variedade da cana estiver sendo produtiva, ou seja, desenvolver herbicidas para que o cliente tenha uma boa produtividade em 5-6 cortes em média”, diz o engenheiro agrônomo Ronaldo Campos, gerente de contas especiais da Dow AgroSciences.

Outro exemplo de empresa que vem direcionando investimentos consistentes na cultura de cana-de-açúcar é a multinacional Basf. “Este mercado é atrativo no curto, médio e longo prazo, devido principalmente as projeções que se fazem em relação a exportação de álcool brasileiro, o que justifica os investimentos que proporcionem resultados mais positivos para os produtores rurais do Brasil”, destaca Ismael.

Tradicionalmente voltada para as culturas de citrus, soje e café, a Sipcam Agro acaba de formar uma equipe específica para atender o mercado canavieiro. Antes, a empresa apenas sintetizava a molécula metrina e repassava a matéria-prima para outras empresas fornecedoras, que vendiam os produtos com outros nomes – agora comercializa o Metrinex. “Passamos também a ver oportunidades com outros produtos. Esse mercado está em crescimento e expansão”, esclarece o engenheiro agrônomo Anderson Rodrigues, coordenador de marketing.

No segundo semestre a empresa promete lançar o Ancosar, herbicida produzido com a molécula MSMA. A SIP também está testando o Raizal, um promotor de crescimento que promove o desenvolvimento do sistema radicular, para aumentar a produção das usinas. “Ainda existe espaço neste mercado. Vamos focar melhor a cultura canavieira como uma lavoura prioritária para a nossa empresa”, avisa Rodrigues.

Produtos aprovados

Por concorrerem diretamente pelos mesmos recursos naturais (água, luz e nutrientes) as plantas daninhas podem ocasionar um conjunto de prejuízos aos canaviais cultivados – se nenhuma medida preventiva ou de combate for adotada, as perdas decorrentes chegam a até 90% da produtividade.

Grama-seda, colonião, marmelada, braquiária e capim-colchão são as plantas daninhas que mais causam danos à cana, além de corda-de-viola e tiririca. As perdas conseqüentes do ataque nocivo destas pragas podem ser prevenidas com um conjunto de medidas de manejo, que integrem providências culturais, mecânicas e químicas.

Herbicida com custo acessível: grande procura dos produtores

A metodologia mais usada no setor sucroalcooleiro hoje é o controle químico. “É o tratamento que tem a resposta mais rápida”, confirma Sarti. Existem no mercado hoje mais de 40 produtos para cana-de-açúcar, que de acordo com as suas características podem ser aplicados em épocas seca, semi-seca ou úmida. Por isso, influencia bastante na escolha de um herbicida as condições pluviométricas de cada região.

Tradicionalmente, o mercado oferece herbicidas utilizados somente em épocas de chuvas, mas hoje está crescendo a demanda por produtos de ação programada, que podem ser aplicados tanto no período seco como no úmido. Uma das opções já testadas pelos produtores é o Plateau 70 DG, da Basf, indicado para o combate de corda-de-viola, capim colchão e tiririca.

O produto obteve bons resultados na região de Piracicaba, onde 80% da safra ocorre no período seco. O solo local apresenta déficit hídrico e as chuvas não são suficientes para repor o volume de água necessário para o desenvolvimento da cultura. Estas características restringem a aplicação do herbicida aos produtos que tenham propriedades específicas para solos secos – como é o caso do Plateau.

A eficácia do herbicida pode ser comprovada pela Usina São Francisco, do Grupo Cosan, que há três anos iniciou a aplicação do produto em 500 hectares do canavial, depois passou para 1000 ha e atingiu na última safra 5000 ha. “A gente não vê alternativa: é aplicar ou aplicar. Temos a intenção de continuar usando porque a relação custo/benefício é muito satisfatória”, testemunha o representante da área agrícola da unidade, Ernani Penteado.

O herbicida também alcançou êxito nas aplicações feitas pela Usina Bom Retiro, outra unidade da região de Piracicaba. “Aqui era preciso 35, 40 pessoas com o facão para ir abrindo as áreas de tanta corda de viola que existia. Havia bastante marmelada também. Além disso, estamos conseguindo eliminar a grama seda e a tiririca”, atesta o gerente agrícola, Vanderlei Parazzi.

A utilização deste tipo de herbicida vem sendo estuda desde a década de 80, quando alguns pesquisadores evidenciaram os benefícios da postergação do cultivo para épocas de chuvas, em áreas colhidas no período seco. Esta também é a proposta do produto recém-lançado pela Hokko, o Dinamic, que pode ser manejado durante toda a época da colheita e brotação de cana soca.

A idéia da empresa é o desenvolvimento de um novo sistema de tratamento que consiste em um avanço na logística de aplicação aliado a um controle de qualidade, através da mudança do período de aplicação do herbicida da época úmida para a seca – quando existe disponibilidade de máquinas e facilidade de trabalho com grau de flexibilidade grande para estas aplicações. “O resultado está ao nível dos melhores padrões de mercado”, garante o gerente da equipe cana-de-açúcar da Hokko, Rubem Azevedo Rocha.

Indicado para uso na cana soca, o Dinamic pode ser aplicado tanto na pré-emergência quanto na pós emergência inicial das ervas. “Mas, destaco, o nosso foco principal é evitar que os problemas ocorram”, ressalta o engenheiro agrônomo Weber Dinardo, representante técnico da Hokko.

A Hokko pretende distribuir a aplicação de herbicida ao longo da colheita da cana, com manejo nas épocas seca e semi-úmida. “O produto não causa fitotoxidade, podendo ser aplicado na cana brotada, antes da brotação, na erva germinada ou por germinar. É altamente flexível e vai de encontro à disponibilidade de quem aplica”, explica Rocha.

Durante duas safras, a Hokko testou o produto em usinas do Centro-Sul e do Norte-Nordeste e verificou que o Dinamic não tem seu residual reduzido em épocas semi-secas por eventuais chuvas. “Vêm chamando a atenção o controle de corda-de-viola que este herbicida alcança, principalmente em áreas de cana crua”, divulga Dinardo. O herbicida está entrando em fase de comercialização no mercado sucroalcooleiro.

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