Reportagem de Capa – Edição 86 de Julho/Agosto de 2004
Na esteira das oportunidades
Vitória do Brasil no painel do açúcar na OMC abre grandes perspectivas de investimentos no setor sucroalcooleiro nacional e pode significar melhor período da agroindústria canavieira desde o lançamento do Proálcool..

Colaborador com EPI completo: investimento na saúde e integridade física do trabalhador

O ano que começou com prenúncio de tragédia, temor motivado pela perspectiva de nova safra recorde, pode ser marcado como o melhor momento do setor sucroalcooleiro nacional desde o Proálcool, maior programa de energia renovável do mundo lançado há quase três décadas. A reviravolta na conjuntura negativa sofreu o primeiro revés com o aumento consistente do consumo do álcool no mercado interno, mas principalmente devido ao interesse de vários países pelo combustível. A doce consolidação da recuperação foi conseqüência da vitória obtida pelo Brasil sobre a União Européia na OMC contra os subsídios para a produção do açúcar – o contencioso foi julgado em agosto.

A decisão deve garantir grande sustento à liderança brasileira no mercado internacional de açúcar. Em 2004, com exportações projetadas de 15,5 milhões de toneladas do produto, o Brasil assegura 40% da fatia mundial – índice que, segundo a Unica, pode ultrapassar os 60%. “O País vai ocupar os mercados deixados pela Europa”, acredita o presidente da entidade, Eduardo Carvalho.

O Brasil já é o maior exportador mundial de demerara (bruto) e avançará no mercado de açúcar refinado, atualmente dominado pela Europa, que embarca cerca de 5 milhões de toneladas/ano. A expectativa brasileira é de elevar a exportação deste tipo em 2 ou 3 milhões de toneladas já nos próximos dois anos, vendendo principalmente para os países do norte da África, Caribe e Pacífico. Esse volume representaria mais 700 milhões de dólares na balança comercial do setor.

Austrália, Cuba, Índia e Tailândia também vão disputar o mercado deixado pela União Européia. Estes países devem aumentar a produção, mas o maior crescimento será observado no Brasil. “Todos vão querer aproveitar, mas, com o menor custo de produção do mundo, seremos os maiores beneficiados”, avalia o presidente do Siamig (Sindicato da Indústria de Fabricação do Açúcar e do Álcool de Minas Gerais), Luiz Custódio Martins.

Para atingir a posição de segundo maior exportador mundial de açúcar, a Europa pratica subsídios internos e externos, medidas protecionistas que inviabilizam a comercialização do produto brasileiro para os países da U.E. Com custo de produção avaliado em aproximadamente US$ 700 a tonelada, enquanto o valor no mercado internacional alcança no máximo US$ 260 a tonelada, os europeus não conseguiriam exportar em grandes quantidades.

O contencioso do Brasil na OMC questionou principalmente dois pontos: a produção da Europa excedente ao necessário para consumo interno e os subsídios para reexportação que oferecia aos países da África, Caribe e Pacífico. Em parecer preliminar, a Organização Mundial do Comércio julgou ilegais os procedimentos da U.E. “A vitória do Brasil significa uma abertura comercial e uma mudança de paradigma nas negociações internacionais”, comemora o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.
Colaborador de usina mineira: 400 mil novos empregos diretos.

É provável que a Europa recorra da sentença até o final de setembro, mas as perspectivas de ganho definitivo do painel do açúcar e a crescente demanda mundial pelo álcool fazem o setor vislumbrar um horizonte promissor. A Unica prevê que em cinco anos o setor receba investimentos da ordem de 6 bilhões de dólares e atinja uma produção recorde de cana-de-açúcar: 520 milhões de toneladas, o que representa um acréscimo de 44% sobre a colheita atual.

Para isso, a área de cana plantada no Brasil também precisará crescer. Estima-se que aos atuais 5,5 milhões de hectares serão somados mais 2 milhões. A entidade também espera que em 2007 a comercialização de automóveis flexíveis represente 67% das vendas internas de veículos. O reflexo imediato de todas estas estatísticas seria a criação de 400 mil empregos diretos. “Estamos assistindo a uma grande modificação nos cenários tanto para o açúcar quanto para o álcool. É um momento único na história do setor sucroalcooleiro nacional”, reflete o presidente o Grupo Crystalsev, João Carlos Figueiredo Ferraz.
Investimentos

O Brasil lidera com folga o ranking dos países que produzem açúcar com os menores custos do mercado. O País gasta 174 dólares para fabricar uma tonelada, seguido por Austrália (U$S 203/t), Índia (U$S 240/t), Tailândia (U$S 284/t) e Estados Unidos (U$S 329/t). O mercado mundial do produto cresce cerca de 2,5% ao ano e o interno deve observar aumento anual de 1,5%.

Para atender a demanda internacional e estimular negócios, as usinas brasileiras já começaram a se preparar para investir em novos equipamentos. “Quando tivermos a confirmação do fim do subsídio, os investimentos estarão em primeiro plano”, adianta o diretor-administrativo da Cia. Energética Santa Elisa, Henrique Gomes.

A usina, que exporta 20% dos 10 milhões de sacos de 50kg fabricados, já planeja aumentar o volume destinado ao exterior em mais 15% na próxima safra, o que demanda aumento da capacidade produtiva de 85% para 95%. Inicialmente, a Santa Elisa vai aproveitar totalmente a própria capacidade instalada de produção. “Mas casos como este são isolados. Quem quiser crescer, necessariamente deve investir”, pontua Ferraz.

É o caso da Unialco, de Guararapes (SP). A capacidade diária da fábrica de açúcar da unidade é de 17 mil sacas, mas graças a modificações realizadas na planta está produzindo em média de mais de 20 mil sacas ao dia – o objetivo da empresa é atingir a marca de 25 mil sacas ao dia.
A Unialco exporta 150 mil toneladas de açúcar por ano e quer aumentar o índice para 180 mil toneladas. Para a safra 2005/2006 investimentos da ordem de 3 milhões de reais serão realizados na fábrica de açúcar. Serão adquiridos novos equipamentos como vácuo, pré-evaporador, filtro prensa, aquecedor, além da automatização de toda a produção. “Todo o investimento foi feito visando aumentar a exportação”, define o diretor-superintendente industrial, José Morais.

Além de aplicações para aumentar a capacidade produtiva das usinas, está prevista também a instalação de 31 novas unidades, cada uma avaliada em 50 milhões de dólares, o que perfaz um investimento total de cerca de 1,5 bilhão de dólares."O efeito da disputa na OMC é imediato para a decisão das usinas em fazer mais investimentos", destaca Carvalho. Os anúncios não param de pipocar no Brasil e representam expansões de grupos já consolidados no setor.

O Grupo Tonielo, que já é dono da Virálcool e da Destilaria Santa Inês, projeta a construção de uma nova usina em Castilho, na divisa com Mato Grosso. A Açúcar Guarani investiu recentemente mais de 100 milhões de reais na ampliação de sua unidade matriz e na criação de uma destilaria. A Usina Cerradinho acaba de lançar oficialmente o novo empreendimento da empresa – outra unidade no município de Potirendaba, na região de São José do Rio Preto, que deve entrar em operação na safra 2006/2007.

Além de São Paulo, outro estado bastante beneficiado com os novos investimentos é Minas Gerais, que já contabiliza a instalação de sete novas usinas e planeja dobrar a produção de cana para 30 milhões de toneladas em três anos, vislumbrando ampliar também a exportação de açúcar.

De janeiro a junho deste ano, as exportações mineiras de açúcar acumularam alta de 107,76% na comparação com o mesmo período do ano passado ou volume de 296,6 mil toneladas (US$ 45,8 milhões). “Cerca de 70% do açúcar que produzimos é exportado. Também estamos de olho no mercado que será deixado pela Europa”, contextualiza Luiz Custódio Martins.

Produção de açúcar: Brasil pode alcançar 60% do mercado mundial.
Aumento de área cultivada

Minas Gerais atrai investimentos porque tem disponibilidade de terras e pratica preços mais amenos aos encontrado no Centro-Sul. Para ofertar o açúcar ao mercado internacional e garantir o consumo interno, o Brasil precisará também aumentar a quantidade de cana produzida."Temos que pensar daqui para frente em ampliar as áreas de cana, por causa da vitória do açúcar na OMC e pelo crescimento do consumo mundial do etanol", observa o ministro Rodrigues.

Os bons preços praticados pelos arrendatários e a grande disponibilidade de terras para o cultivo de cana transformaram a região de Araçatuba na última fronteira agrícola de São Paulo – dos 40 novos projetos do setor, 50% devem se estabelecer na área. “O futuro do setor necessariamente passa pela região Noroeste Paulista”, reconhece o presidente da Unica.

Com topografia, solo e clima favoráveis ao plantio de cana, além de mão-de-obra especializada e facilidade de escoamento da produção – beneficiada no ano passado com a inauguração de um grande terminal -, a região, reconhecida pela criação de gado, utiliza áreas da pecuária para o cultivo de canaviais.

Em uma década, as extensões dedicadas a cana aumentaram 65,8%, passando de 80,9 mil hectares para 134,2 mil ha. Se as 6,7 milhões de pastagens disponíveis, que estão sendo subutilizadas, forem usadas para plantar cana, a região de Araçatuba, com 66 usinas implantadas, ainda teria capacidade para receber mais 70 unidades.

Um dos conglomerados que decidiu investir na região foi o Grupo J. Pessoa, que adquiriu a antiga Usina Cruzálcool e se prepara para reativá-la em 2007 com o nome de EMA (Energética da Mata). “Eu acho que Araçatuba tende a ser a capital do açúcar no Brasil. Acredito que essa região vai ter um nível de crescimento diferente das demais, pois é extremamente propícia para a cana”, afirma José Pessoa de Queiroz Bisneto, presidente do Grupo.

As possibilidades de exportação estão estimulando até investimentos mais ousados. Segundo maior produtor de açúcar do Brasil, Alagoas não possui mais terras cultiváveis. Para aumentar a área de plantio, um programa de melhoramento genético desenvolvido no Estado pretende descobrir uma variedade de cana que se desenvolva no sertão – o que ofereceria mais 15% de área plantada ao setor alagoano.

Capital Estrangeiro

Além dos investimentos próprios, o setor sucroalcooleiro nacional também vive a expectativa de incremento da aplicação de capital estrangeiro no País, que lucra hoje com a atuação de duas empresas francesas: Béghin-Say e Louis Dreyfus. As maiores possibilidades recaem sobre a alemã Sudzucker, maior processadora de açúcar do mundo, que já visitou o Brasil em algumas oportunidades, sem ter fechado qualquer contrato. Estas unidades também estariam interessadas na tecnologia brasileira de ponta – e não apenas em açúcar e álcool.

A transformação de grandes perspectivas em lucros reais, entretanto, pode ser um processo lento. A União Européia ainda não decidiu se vai recorrer da decisão da OMC e é difícil imaginar que aceitará as novas regras sem alguma manifestação. O resultado final só deve ser conhecido em um ano. Com isso, as conseqüências do painel da OMC só devem ser sentidas a médio e longo prazos.

Além disso, para aproveitar as oportunidades que agora são vislumbradas, o setor brasileiro vai precisar demonstrar o amadurecimento que faltou na década de 90, quando houve desabastecimento de álcool no Brasil porque as usinas enfatizaram as exportações de açúcar.

Por isso, é preciso a organização de um planejamento para garantir que o crescimento da demanda externa não ocasione a falta de produto no mercado interno, tanto açúcar quanto álcool. “É preciso entender que o aumento na produção de açúcar e álcool não ocorre da noite para o dia, e que o setor tem que ter responsabilidade para saber administrar o crescimento da demanda”, sustenta o presidente do Ceise (Centro das Indústrias de Sertãozinho e Região), Mário Garrefa.


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