Reportagem de Capa III Edição 86 de Julho/Agosto
de 2004
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Energia desperdiçada
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| Pesquisadores garantem que o palhiço
também representa uma opção para aumentar a disponibilidade
de biomassa para cogeração nas usinas nacionais..
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| Antiga turbina a vapor de simples estágios:
sucesso nas décadas de 70 e 80
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O próspero momento vivido atualmente pelo setor
sucroalcooleiro está estruturado nas possibilidades de comércio
internacional que se abrem tanto para o açúcar quanto
para o álcool. Em meio a esta euforia, outro produto fabricado
genuinamente pelas usinas, mas que ainda não propicia os lucros
desejados, têm sido matéria de estudos e pesquisas detalhadas:
a cogeração de energia.
A maior parte das usinas brasileiras já iniciou um processo
de otimização do balanço térmico das suas
plantas, com o objetivo de prepará-las para comercializar o
excedente de energia elétrica cogerado. Hoje, o potencial instalado
de geração utilizando apenas o bagaço de cana
é de 90Kwh/TC, volume que não é inteiramente
aproveitado em função do preço de venda da energia.
Quando o setor sucroalcooleiro alcançar toda a sua capacidade,
poderá produzir 30 milhões de MWh/ano, o que representa
9% da energia fabricada no Brasil.Já passou da hora do
Brasil construir um modelo de desenvolvimento tecnológico e
industrial baseado em dados concretos, onde, a biomassa venha a ter
uma participação mais efetiva na matriz energética
nacional, minimizando os riscos de apagões, defende o
pesquisador Tomaz Caetano Cannavam Ripoli, titular da Esalq/USP.
O setor sucroalcooleiro pode aumentar ainda mais a sua capacidade
de geração e sem precisar investir nas plantas
de produção de energia das usinas. Além do bagaço,
pesquisadores garantem que o palhiço decorrente da colheita
sem queima prévia é uma opção importante
para aumentar a disponibilidade de produção de energia,
a custos relativamente mais baixos.
Se for considerado que as mesmas centrais termoelétricas a
bagaço de cana já instaladas, e que exportam energia
atualmente, utilizarão o palhiço - apenas trabalhando
mais horas durante o ano - , o Brasil já possui cerca de 250MW
de energia excedente no setor sucroalcooleiro. Esse procedimento aumentaria
o potencial de geração das usinas para 150Kwh/TC, o
que representa 50 milhões de MWh/ano 15% de toda a energia
gerada hoje no País.
A necessidade de aproveitamento do palhiço pode se ampliar
ainda mais à medida que as usinas aderirem a uma nova tecnologia
industrial, divulgada há pouco tempo pela Dedini,que viabiliza
a produção de álcool utilizando o bagaço.
Por outro lado, a oferta de pontas e palha deve aumentar com o crescimento
da colheita mecanizada no Brasil, procedimento que já alcança
37% do corte de cana no País.
Os pesquisadores recomendam, porém, que parte do palhiço
não seja recolhido do solo, para servir de proteção
ao terreno. A outra parte desse material, para quem deseja agregar
valor, deve ser dirigida a usina para fazer co-geração
de eletricidade junto com o bagaço, sugere Rípoli.
Mas o aproveitamento do palhiço não consiste em um sistema
tão simplificado, exige também algumas soluções
financeiras e tecnológicas. A grande dificuldade atual está
no manuseio e transporte deste material desde o campo até a
central termoelétrica. Hoje nos deparamos com custos
considerados elevados para trazer este combustível do campo,
em função do preço pago pela energia elétrica
produzida nas usinas, reconhece o gerente comercial da Koblitz,
Marcílio Reinaux Jr.
Já existem algumas iniciativas e desenvolvimentos iniciais
neste sentido até mesmo com algumas experiências bem
sucedidas. Para retirar o palhiço do solo e levá-lo
à indústria vários sistemas foram testados. As
maiores possibilidades são por enfardamento, a granel, e através
de prensas algodoeiras, mas estudos desenvolvidos pela Esalq em parceria
com o Grupo Cosan indicam que o melhor sistema é a colheita
integral.
Para se chegar a esta constatação, os pesquisadores
analisaram uma grande quantidade de variáveis. Essa definição
se resume a três variáveis, enfatizando-se a condição
posta na usina. São elas: Eficiência Energética
do Sistema (ou seja, a relação entre o quanto se consome
de energia na forma de combustível, nas diversas operações
de cada sistema estudado e o quanto de energia, na forma de palhiço,
se disponibiliza no pátio da usina); Percentagem de Terra Aderida
ao Palhiço (dependendo de condições edafo-climáticas
no momento da colheita do canavial e/ou do recolhimento do palhiço,
associado ao tipo de sistema de retirada do palhiço do campo,
a quantidade de terra é bastante variável) e Custo da
Energia, na Forma de Palhiço, posta na Usina (em R$/Equivalente
barril de petróleo).
Muitas usinas estão se ocupando em determinar este custo
em relação à massa de palhiço posta na
usina, o que é um erro que leva a resultados totalmente falsos,
pois dependendo do sistema, ter-se-á, palhiço com diferentes
umidades e diferentes percentagens de terra, o que refletirá
em quantidades de energia líquida disponível bastante
diferenciadas, refletindo, por sua vez, em custos irreais, de um dado
sistema, explica Rípoli. |
| Colheita de cana integral: possibilidade
de transporte do material para a indústria. |
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Colheita integral
A tendência é a introdução de máquinas
um pouco diferenciadas das atuais colhedoras de cana utilizadas pelas
usinas. Os equipamentos de cana picada no futuro serão
máquinas mais simples, sem sistemas de limpeza para que a matéria
prima vá integralmente para usina e na usina ocorra a separação
entre o que é colmo e o que é palhiço,
acredita o professor da Esalq.
Também surge a necessidade de desenvolvimento de um novo modelo,
capaz de colher a cana integralmente. Essa máquina já
existe e acaba de ser lançada pela empresa Motocana com o nome
de Fênix CM 500i. A operação pode representar
até 30% de redução de custos, pois as colhedoras
são equipadas de motores menos potentes, com menores consumos
específicos de combustível e demais componentes do sistema
de limpeza eliminados.
A Fênix não opera consorciada com outras máquinas,
porque possui depósito próprio de cana, dispensando
transbordo e caminhão associados utilizados na colheita de
cana picada.A máquina, que possui capacidade para 240 toneladas
por dia, realiza a colheita de duas linhas simultâneas, o que
reduz pela metade o trânsito sobreposto sobre o talhão
e a conseqüente compactação do solo.
O mais importante fundamento de produção da máquina
é o cortador basal flutuante. A Fênix é composta
de quatro pirulitos hidráulicos que copiam o relevo do solo
para promover o levantamento da cana tombada. Com este sistema,
o equipamento não deixa toco e não aprofunda o corte,
ou seja, não atinge o sistema radicular importante, ressalta
o engenheiro Félix de Castro Neto, consultor responsável
pelo projeto.
Outra inovação importante para os fabricantes é
o sistema de limpeza proporcionado pelo corte integral.Como a matéria
prima é transportada diretamente para a caixa acumuladora sem
contato com solo e sem que haja outros materiais estranhos, a máquina
colhe uma cana limpa, com pequenos índices de impureza mineral.
Projetos
Além de máquinas específicas, as empresas de
soluções em cogeração também já
estão disponibilizando projetos às usinas interessadas
em aproveitar o palhiço para produzir energia. Os sistemas
consideram que a central termoelétrica deverá trabalhar
durante quase todo o ano e não apenas durante a safra de cana-de-açúcar.
Isto implica em equipamentos e sistemas de geração
com condensação de vapor que tenham capacidade de funcionar
durante todo o ano com segurança e confiabilidade, esclarece
Reinaux.
O Centro Tecnológico da Copersucar também está
direcionando pesquisas para o lançamento de variedades de cana
com alto teor de fibra. Este tipo de cana tem uma perspectiva
interessante para biomassa, explica o gestor de Tecnologia da
Copersucar, René Sordi.
O sistema ainda não é usado em larga escala por nenhuma
usina, mas já existem unidades realizando testes. Com 47% da
colheita mecanizada, a Usina Triunfo ainda não aproveita o
palhiço para gerar energia, mas está estudando a viabilidade
do processo. As impurezas ainda estão em torno de 6%
e o ideal é que estejam em 2%. Estamos fazendo testes para
chegar a este percentual, revelou ao informativo Energia o gerente
agrícola Etelmínio Bastos.
Também existem profissionais que desdenham completamente do
sistema. Os custos são altos, não acredito que
esta técnica deva se firmar no setor, comenta o diretor
agrícola de uma grande usina paulista. Sem sombra de
dúvida, esta não só é uma tendência
como acredito ser uma das soluções mais interessantes
para suprimento da nova energia que o Brasil vai precisar dentro de
muito pouco tempo, se tivermos o crescimento econômico desejável,
discorda Reinaux.
Há outros pontos favoráveis. Além de ser renovável
e verdadeiramente limpa do ponto de vista ambiental - permite que
as centrais sejam elegíveis Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
do Protocolo de Kyoto - também é a solução
que pode ser construída mais rapidamente.
Para a construção de uma central completamente nova
de biomassa há um prazo médio de 11 meses desde a assinatura
do contrato até a venda do primeiro KWh. Além
do que é o tipo de energia que não será produzida
de forma concentrada, ou seja será uma geração
distribuída, por onde quer que tenhamos canaviais pelo Brasil.
Isto evitará investimentos em grandes linhas de transmissão,
garante o gerente da Koblitz.
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