Reportagem de Capa IIII Edição 86 de Julho/Agosto
de 2004
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Os mitos - e os poucos recursos do
Brasil
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| Líder mundial em produção
de cana, Brasil ainda apresenta baixa relação de pesquisa
científica realizada por área cultivada. Programas de
melhoramento genético existentes são eficientes, mas
falta de novos investimentos pode afetar competitividade internacional
do País.
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| Cruzamento bi-parental em clones de cana:
busca por variedades produtivas
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Todos os anos, a Usina Nova América insere
180 novos genótipos de cana-de-açúcar em uma
área agrícola destinada a um conjunto de avaliações
experimentais - testes clonais - em diferentes condições
edafoclimáticas. Estes exames são realizados para analisar
a tolerância do clone a doenças e pragas. A unidade,
que mantém parceria com três entidades, tem atualmente
em avaliação 700 clones candidatos a novas variedades,
que podem levar de 10 a 13 anos até o lançamento comercial.
Vale a pena investir neste processo de melhoramento genético.
Historicamente, o ganho com a substituição de variedades
é muito significativo, garante o supervisor da área
de planejamento agrícola da usina, José Fogaça.
O que a Nova América anseia constantemente é a utilização
de boas variedades, conceito que compreende um conjunto de qualidades
capaz de competir com as condições existentes e mostrar
resultados superiores às expectativas ambientais e econômicas.
As características mais valorizadas são: resistência
a pragas e doenças, brotação de soqueira sem
nenhuma restrição ao tipo de solo, alto teor em sacarose,
alta produtividade além de resistência à
seca.
Mas é praticamente impossível reunir em uma variedade
todas as qualidades desejadas pelos produtor. Hoje uma grande usina
tem que ter um elenco de pelo menos 15 variedades para poder fazer
manejo em ambientes específicos para cada região,
pondera o pesquisador Geraldo Veríssimo, coordenador do Programa
de Melhoramento Genético da Cana-de-açúcar
PMGCA, do Centro de Ciências Agrárias da Ufal (Universidade
Federal de Alagoas).
Neste contexto, se torna importante a incessante pesquisa e busca
por novas variedades. Hoje no Brasil, quatro entidades realizam atividades
de desenvolvimento de novas variedades de cana-de-açúcar
Ridesa, Copersucar, IAC e CanaVialis , duas usinas também
conduzem seus próprios programas de melhoramento. Mas nem sempre
foi assim.
Até a diversificação destes programas, há
pouco mais de 30 anos, a introdução de variedades na
lavoura canavieira do Brasil era feita exclusivamente através
da importação de cana estrangeira, vinda principalmente
de Java, Índia e Argentina. O Brasil só começou
a produzir com plantas próprias em larga escala com a introdução
das variedades SP, o que agregou um grande diferencial ao País.
Quando se faz uma adaptação o ganho é menor
se comparado com o desenvolvimento realizado de acordo com as condições
locais, destaca o gestor de Tecnologia da Copersucar, René
Sordi.
Nas últimas duas décadas, o setor registrou ganhos expressivos
de produtividade, acrescendo a capacidade de produção
de 70 t/h para 84 t/h. Nos últimos 25 anos, para os Estados
de São Paulo e Minas Gerais respectivamente, verificaram-se
incrementos de 0,64 e 1,34 toneladas de cana/ha/ano e 1,79 e 1,25
kg de açúcar/tonelada de cana/ano. Outras conquistas
foram importantes como aumento do teor de sacarose por cana, maior
longevidade do canavial e ainda exploração dos ambientes
de baixa fertilidade. Entre outros fatores, esta evolução
também pode ser atribuída às variedades.
Hoje, com o panorama do setor modificado, os usuários, que
também cresceram, passaram a exigir a adaptação
das variedades usadas a outros fatores também: colheita mecanizada
de cana crua, bagaço para uso na cogeração de
energia e necessidade de maior produtividade por área plantada
uma vez que há pouca disponibilidade de terras para
expansão da produção de cana. Por isso,
é importante que as usinas não se concentrarem em poucas
variedades. Elas podem diversificar o uso na grande cultura e com
isso se tem mais segurança, confirma o pesquisador do
IAC e coordenador das pesquisas, Marcos Guimarães de Andrade
Landell. |
Amostra de experimentos de novas variedades:
limitação de
recursos para essa área de pesquisa
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Aperfeiçoamentos necessários
Por ano, 1/6 dos canaviais brasileiros é renovado e para oferecer
resposta às necessidades dos produtores, o Brasil dispõe
hoje de uma grande vanguarda científica. Atualmente, o Brasil
é o único país possuidor de programas de melhoramento
de cana que liberam aproximadamente 20 variedades a cada cinco anos,
contra apenas uma variedade em outras nações canavicultoras.
Os programa brasileiros são muito competitivos com os
estrangeiros, destaca o pesquisador científico Marcelo
de Almeida Silva, do Programa Cana IAC.
Os programas nacionais são beneficiados pelas condições
climáticas favoráveis do Brasil para o florescimento
e produção de sementes verdadeiras, que viabiliza, a
um custo baixo, o cruzamento entre variedades e a obtenção
de variabilidade genética. A estação experimental
da Copersucar em Camamu (BA), por exemplo, é considerada o
melhor centro de hibridação de cana do mundo.
Outro aspecto relevante corresponde à saudável competição
estabelecida entre os programas de seleção existentes.
Um se torna referência um para o outro, e muitos grupos de excelência
são criados nesta área, o que pode proporcionar ganhos
de eficiência no processo como um todo. Para as usinas,
isso é muito interessante, porque todas as entidades vão
estar sempre procurando nos oferecer material de ponta, reforça
Fogaça. Mas em hipótese alguma pode haver casos
de omissão de características negativas, alerta
o produtor Antônio Aparecido.
Embora sejam considerados suficientes e eficientes, os programas brasileiros
também apresentam algumas restrições. No passado,
houve liberação de variedades que não foram bem
sucedidas, principalmente por não repetirem na prática
os resultados verificados nos experimentos. Antes de se tornar
variedade, o material genético precisar ser multiplicado e
avaliado com mais rigor em alguns casos, sugere o produtor.
Outra queixa constante é a falta de um perfil de variedades
quanto à qualidade tecnológica para processamento. Sentimos
falta de informações sobre características que
são responsáveis pelas perdas de açúcar
e pela qualidade do produto final, por exemplo, explica Aparecido.
Atender a esta reivindicação tem sido uma das maiores
preocupações dos programas de seleção
nos últimos sete anos. Existe um grande esforço na atualidade
para que a caracterização de uma nova variedade, relativa
a seu manejo, seja fornecida no momento da liberação.
Todos os projetos procuram manter uma rede experimental ampla e que
proporcione indicação detalhada do melhor manejo da
variedade em questão. Concordo, no entanto, que essa
estratificação não tenha sido suficiente para
revelar o comportamento da nova cultivar em um número mais
amplo de ambientes de produção, reconhece Silva.
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Teste de teor de sacarose: experimentos visam
lançar
variedades com maior potencial de produção de
açúcar
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Investimentos insuficientes
Essa deficiência é um reflexo da limitação
de recursos para essa área de pesquisa. O Brasil possui uma
área plantada com cana de aproximadamente 5,5 milhões
de hectares, é o maior produtor mundial, com 300 milhões
de toneladas colhidas por ano, mas esta liderança não
apresenta o mesmo retrospecto em números de estudos científicos.
O Brasil investe em pesquisa na área de melhoramento genético
visando o desenvolvimento de novas variedades cerca de 1,5 dólar
por hectare. Essa relação é pequena se comparada
com países como Austrália e Estados Unidos, que gastam
aproximadamente 8,5 dólares por hectare, além de Barbados
e Ilhas do Caribe, com US$ 14,4 por hectare - no País o investimento
é opcional, e em outros países os produtores são
forçados a apoiar através de taxas compulsórias.
Com isso, a produção científica brasileira na
área da canavicultura fica aquém do desejado, restringindo
ganhos no conhecimento. Como conseqüência, muitas
inovações poderiam ser obtidas, ou mesmo, problemas
serem solucionados se o investimento financeiro, quer seja por parte
do governo, quer seja por parte da iniciativa privada, fosse mais
priorizado, acredita Silva.
Os maiores investimentos nesse sentido foram vistos na décadas
de setenta e oitenta, principalmente em projetos da Copersucar e do
extinto Planalsucar. Até hoje, o Brasil usufrui dos resultados
destas aplicações, mas ainda tem inúmeras situações
restritivas e limitantes a produção da cana, que merecem
ser estudadas para viabilizar o seu cultivo. Não podemos
considerar normal que os problemas apareçam primeiro para que
possamos nos mover com nossos projetos e estudos visando resolvê-los
depois. A pesquisa científica deveria estar na vanguarda da
demanda, enfatiza o pesquisador do IAC.
Alguns problemas hoje estão surgindo e precisam ser estudados
mais criteriosamente, o que demanda novos investimentos. O setor sucroalcooleiro
já até divulga novas idéias para angariar mais
recursos. A proposta mais ousada parte do professor Márcio
Henrique Pereira Barbosa, coordenador do programa de melhoramento
genético da Universidade Federal de Viçosa, que sugere
a criação de um Fundo Setorial do Açúcar,
Álcool e Subprotudos através do Ministério da
Ciência e Tecnologia. Iniciativas semelhantes já existem
nos setores de Petróleo, Energia, Irrigação.
Segundo a idéia, os recursos seriam provenientes da comercialização
do açúcar e do álcool e o Fundo estabelecido
por uma lei específica - um percentual seria retido pelo Ministério
da Ciência e Tecnologia, que faria a gestão através
das suas agências de fomento a pesquisa. Para se aprovar projetos
voltados para cana em alguns destes fundos a concorrência é
grande, e há editais específicos que não permitiriam
a iniciativa. Sendo assim tenho certeza de que incrementaríamos
a pesquisa científica com a cana-de-açúcar e
tecnologia de indústria com a criação de um fundo
específico para nosso setor, defende Barbosa.
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| Clones desenvolvidos no Brasil: a introdução
de variedades era feita exclusivamente através da importação
no passado
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Capital privado
Se o Estado não consegue atender de maneira absoluta as necessidades
financeiras dos institutos de pesquisa e das universidades, também
não há uma plena conscientização do capital
privado para a importância da pesquisa científica. Ao
contrário da Nova América, o contingente de usinas que
acredita nos projetos de pesquisa e gera importantes informações,
capazes de beneficiar toda a cadeia produtiva, ainda é pequeno.
Ainda há a idéia de que a pesquisa científica
é cara, pondera o pesquisador William Lee Burnquist,
coordenador geral do Programa de Melhoramento Genético da Copersucar.
Algumas usinas também se apegam às boas condições
que o Brasil tem para desenvolvimento da cana-de-açúcar
para justificar a falta de investimentos em pesquisas. Mas o País
só chegou a esta situação favorável porque
investiu em variedades que aumentassem a produtividade e resistisse
a pragas.
Os canaviais brasileiros tiveram três doenças com grave
potencial de destruição: carvão da cana, nos
anos 70 e 80; ferrugem, no final da década de 80; e amarelinho,
nos anos 90. Se não houvesse programas de melhoramento
genético que criasse variedades resistentes, essas doenças
dominariam as nossas extensões de cana, defende Burnquist.
Outro exemplo clássico é controle biológico da
broca. Em países como Paraguai e Bolívia, grande parte
da produção de cana é afetada pela praga, que
também encontra boas condições de desenvolvimento
no Brasil. Há 20 anos, o País perdia 10% da plantação
para a broca hoje esse percentual é quase inexistente.
Isso só foi possível porque os programas de melhoramento
descobriram a solução biológica, ilustra
Burnquist.
As usinas já são conveniadas a um programa, porém,
atestam a necessidade de maior participação.Este
intercâmbio é fundamental para que fiquemos atualizados,
diz Fogaça. O diferencial de uma usina está na
escolha do material genético com o qual vai trabalhar. É
importantíssimo investir para termos uma grande gama de variedades
disponível, completa o gerente agrícola da Usina
Coruripe, Cícero Almeida.
Decidida a ampliar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento
de novas tecnologias para aplicação nas atividades agrícolas,
logísticas e industriais dos setores canavieiro e sucroalcooleiro,
a Copersucar anunciou a abertura para o mercado nacional do seu novo
Centro de Tecnologia, destinado a usinas e também a todos os
produtores de cana-de-açúcar do País. A
entrada de fornecedores deu uma característica interessante
ao centro, que não é só de usineiros, é
para o produtor também e isso é muito importante para
a captação de recursos e direcionamento de pesquisas,
frisa Sordi.
O novo CTC pretende beneficiar ainda mais o setor na medida que as
conquistas obtidas por esse centro de excelência serão
incorporadas imediatamente por um número maior de empresas
e grupos produtores de cana-de-açúcar, açúcar
e álcool, que se associarem à instituição.
O orçamento destinado às pesquisas deve ser R$ 30 milhões,
volume que será repartido entre as 32 unidades da Copersucar
e os novos associados os contratos de serviços para
não conveniados deve ser revisto.
A Copersucar mantém um programa de melhoramento genético
há 25 anos e possui variedades SP implantadas nos canaviais
de 226 usinas brasileiras 45,9% dos canaviais nacionais são
formados por variedades SP. Até agora 78 usinas e 6 associações
de produtores já se associaram ao novo CTC.
Considerando os dados da safra 03/04 , quando foram produzidas 357,5
milhões de toneladas de cana-de-açúcar, os conveniados
representam quase 40% da produção nacional ou o equivalente
a 137 milhões de toneladas de cana moída. As inscrições
estão abertas até o dia 31 de outubro e a taxa de adesão
foi suspensa. Todos os conveniados já terão direito
sobre as novas variedades que a entidade vai disponibilizar no mercado
de 6 a 8 novos tipos serão lançados até
o final do ano.
A iniciativa da Copersucar pretende evitar que o Brasil, maior produtor
sucroalcooleiro mundial, em poucos anos comece a se sentir ameaçado
pela concorrência de outras nações. Para se manter
competitivo em um mercado extremamente globalizado, o país
precisa investir em tecnologia e fortalecer o seu padrão de
produtividade. Só para manter a posição
que atingimos, é preciso muito esforço. Não se
fala em aumentar a competitividade e sim manter a que já tem.
Estamos remando contra a maré, se pararmos, voltamos pra trás,
pondera Burnquist.
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