Reportagem de Capa Edição 87 de Setembro/Outubro
de 2004
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Eco-produção
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| Setor sucroalcooleiro tenta reverter imagem
de atividade econômica poluidora do meio-ambiente difundida
pela sociedade brasileira; Ações ecologicamente corretas
também são pré-requisitos indispensáveis
para conquista do mercado externo.
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| Comissão Técnica de Meio Ambiente
na Usina Central de Álcool: conscientização
de todos os colaboradores, da presidência ao chão
de fábrica |
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O estudante Franklin Barros, de 17 anos, aluno da
escola Profª Amira Once Chalella, localizada em São José
do Rio Preto, no interior de São Paulo, havia assistido recentemente
em uma aula de geografia a um vídeo documentário que
retrata o reaproveitamento da água usada por indústrias
no Japão. Considerou a idéia muito interessante,
um exemplo da preocupação com o meio-ambiente no primeiro
mundo. O jovem descobriu, pouco tempo depois, que uma empresa
instalada na cidade de Olímpia (SP), a poucos quilômetros
da sua casa, pratica um procedimento semelhante. Pôde ver também
o sistema em funcionamento na Açúcar Guarani - Cruz
Alta, que visitou através de uma excursão colegial.
Nunca pensei que houvesse tanta organização. Pelo
que escuto falar, tinha uma imagem errada das usinas, confessa.
O conceito propagado ao jovem estudante ainda se estende a grande
parte da sociedade, que encara o setor sucroalcooleiro como uma atividade
devastadora da natureza - não apenas a indústria canavieira,
outros ramos do agronegócio, embora gerem empregos e renda
para a população, também são relacionados
à degradação da natureza.
O início das atividades agrícolas está, de fato,
intrinsecamente associado a desmatamentos, prejuízos a flores,
plantas e animais, além de poluição do ar e de
rios. No caso específico do setor sucroalcooleiro, cristalizou-se
uma imagem de desrespeito a leis trabalhistas, exploração
de mão-de-obra escrava e grande agressão ao meio-ambiente.
Há ainda outra linha de raciocínio que acusa o segmento
de apropriar-se de recursos do governo em benefício próprio.
Esta impressão, entretanto, não foi atribuída
aleatoriamente, as próprias usinas reconhecem os erros durante
o desenvolvimento do setor. Os maiores problemas eram os sub-produtos
que não foram reaproveitados de imediato e descartados no meio-ambiente.
Um pouco de desconhecimento da população também
contribui. Até hoje, as pessoas confundem o cheiro da vinhaça
com degradação, justifica o engenheiro agrônomo
Fernando Alonso, gerente de produtos da Native Alimentos Orgânicos,
empresa do Grupo Balbo.
Outro ponto considerado fundamental para a composição
desta imagem negativa é a falta de ingerência dos órgãos
públicos no passado. Também não havia cobrança
específica do governo e nem os usineiros tinham as informações
de hoje, confirma Alonso. Antes não havia tanta
concentração de indústrias e os donos de usina
eram desprovidos de informações técnicas. Assim,
se poluía inconscientemente, emenda o gerente geral da
Usina Coinbra Cresciumal, Afonso Barbatto.
A solidificação desta imagem na opinião pública
também passa necessariamente pela imprensa, que nem sempre
manteve um contato facilitado com o setor. Faltam porta-vozes,
faltam canais de comunicação. O setor sempre foi arredio
à informação, denuncia o jornalista Wilson
Toni, renomado profissional de comunicação em Ribeirão
Preto.
Todos estes fatores descritos contribuíram, mas o estigma sustentado
até hoje pelo setor foi adquirido durante os anos em que, como
reconhece Alonso, os sub-produtos dos processos das usinas eram despejados
no ambiente. O maior deles, a vinhaça, atualmente usada como
fertilizante, era evacuada em rios e canais abertos, causando poluição
e matando peixes, além de acarretar prejuízos à
flora. Além disso, as queimadas da palha da cana também
sempre renderam reclamações - o que acontece até
hoje.
Há alguns anos, porém, quando o governo, através
de órgãos como a Cetesb (Companhia de Tecnologia de
Saneamento Ambiental), começou a controlar as conseqüências
das ações das usinas no meio-ambiente, várias
medidas de preservação passaram a ser observadas. Percebemos
um crescimento no grau de conscientização do setor produtivo,
analisa o tenente coronel da Polícia Ambiental da região
de Araçatuba, Milton Paulo Boer.
As multas severas e o controle rígido têm motivado adoção
de normas de controle. A fiscalização está
muito rigorosa. Várias usinas precisaram implantar soluções
em caráter de urgência para não serem notificadas,
aponta o gerente industrial da Usina Colombo, Sérgio Colombo.
A vigilância comum aos órgãos ambientais também
se estendeu e modificou o relacionamento das pessoas com a natureza.
Os acidentes ambientais, o esgotamento dos recursos naturais, a destruição
da camada de ozônio e o uso de defensivos agrícolas indiscriminadamente
motivam um novo comportamento de preservação.
Mais preponderantes que as exigências da fiscalização
e a cobrança da sociedade, porém, tornaram-se as restrições
do mercado consumidor, principalmente os clientes que representam
empresas do exterior. Há uma preocupação
excessiva com esta questão ambiental em outros países.
Alguns clientes chegam a fazer auditorias nas empresas antes de fechar
contratos. Logo, quem não atender as normas de preservação
vai perder mercado, prevê a gestora ambiental da Santo
Antônio, Anna Paula Favaretto.
A preocupação deve aumentar ainda mais neste momento,
quando o setor sucroalcooleiro nacional vive uma grande expectativa
de aumento de exportações dos seus dois principais produtos.
O álcool é considerado mundialmente uma das alternativas
mais viáveis ao petróleo. Vários países
devem implantar políticas de mistura do combustível
à gasolina ou até mesmo usá-lo plenamente. Líder
de produção e tecnologia, o Brasil tem grandes chances
de elevar as vendas internacionais. Nesta safra, o país exportou
2 bilhões de litros ante 900 milhões de litros na temporada
passada - e este é apenas o começo. |
| Exigências para certificação
ISO 14001
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Política adequada à natureza,
escala e impactos ambientais das atividades, produtos e serviços;
Melhoramento contínuo;
Cumprimento da legislação e regulamento;
Estrutura para revisão dos objetivos e metas ambientais;
Documentação e comunicação interna
da política ambiental
da empresa;
Disponibilidade da política ambiental da empresa para
o
público externo;
Integração com outras áreas da empresa;
Fonte: Livro Qualidade e Gestão Ambiental
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Árvores nativas e cana orgânica
Considerados fundamentais para a comunidade e obrigatórios
a todas as empresas do setor, os projetos de reflorestamento ganham
importância maior em algumas usinas. Inaugurado há sete
anos com apenas três mil mudas, o viveiro da Açúcar
Guarani possui hoje 50 mil plantas. As sementes, fornecidas também
para instituições públicas e privadas, são
provenientes do IPEF (Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais),
de Piracicaba e da coleta feita nas matas da região de Olímpia.
Os ipês, jatobás, cedros e outras 40 espécies
nativas que formam a mata ciliar desempenham o papel de guardião
do rio Turvo, um dos mais importantes do Oeste Paulista, ao não
permitir o assoreamento de suas águas. A Guarani preserva 743
hectares de mata, extensão em que estão plantadas 70
mil árvores às margens do rio e de represas. O viveiro
já se tornou um item tão indispensável na usina
quanto qualquer outro equipamento de produção. O jardineiro
da empresa, Santo Feltrin, que também já foi bóia-fria,
tem orgulho e ciúme das plantas. Este viveiro tem para
mim importância parecida com a da minha família.
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Rudinei Pestana e as certificações
ISO 14001:
diferencial de mercado
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A Usina Santo Antônio, do Grupo Balbo, também
mantém um grande banco de sementes em um viveiro, desenvolvido
a partir de 1999. São mais de 50 espécies cultivadas
em cinco municípios da área de abrangência de
Sertãozinho (SP), que ocupa ao todo 90 hectares. O viveiro
é mantido para garantir a qualidade e a quantidade das mudas,
com o objetivo de reflorestar as áreas de preservação
ambiental e de reserva legal, alega a gestora ambiental Anna
Paula.
As áreas de reflorestamento da Santo Antônio são
beneficiadas pela lavoura de cana orgânica cultivada pela usina.
A unidade estima que 70% dos canaviais são ocupados por matéria-prima
orgânica, que dispensa o uso de agrotóxico e herbicidas
para controle de pragas - além disso, a empresa prefere o corte
mecanizado à colheita manual, que demanda o uso de fogo como
método despalhador.
Com o palhiço na lavoura, os canaviais são protegidos
de erosão e todos os tratores, caminhões e colhedoras
usados nos processos de colheita e plantio utilizam esteiras ou pneus
de alta flutuação para não compactar o solo.
O controle de pragas e ervas daninhas é realizado biologicamente
ou espontaneamente, por outras plantas."A cana orgânica
é um produto sadio e, como não usa produtos químicos,
mantém os microorganismos vivos no solo, além de oferecer
um ambiente propício para a flora e a fauna se desenvolverem",
enfatiza Alonso.
A cana produzida pela Santo Antônio é fornecida também
para a Usina São Francisco, outra unidade pertencente ao Grupo
Balbo, que, em 1986, deu início ao Projeto Cana Verde, cujo
objetivo principal era o desenvolvimento de um sistema auto-sustentável
de produção de cana-de-açúcar, baseado
na busca da total manifestação do potencial ecológico
e conservacionista desta cultura.
Desde o preparo de solo para plantio até o processamento industrial
da cana, foi promovida então a integração da
mais avançada tecnologia disponível com antigas e tradicionais
técnicas naturais de cultivo. Hoje, 18 anos após o início
do projeto, nas reservas florestais próximas à usina,
que contabilizam 1 milhão de árvores plantadas, foi
desenvolvida uma ilha de biodiversidade, onde há uma grande
variedade de animais da fauna brasileira: tamanduás, tucanos,
aves raras, capivaras, veados, cachorros-do-mato, entre outros.
De julho de 2002 a junho de 2003, a Embrapa, em parceria com a ONG
Ecoforça, realizou um levantamento minucioso em todas as fazendas
da usina. O estudo foi baseado em imagens de satélite e pesquisas
em campo 820 levantamentos foram feitos. O monitoramento descobriu
nas áreas da usina 5 espécies de anfíbios, 191
de aves, 38 de mamíferos e 13 de répteis, totalizando
247 de vertebrados das quais 189 são consideradas raras.
Um canavial convencional geralmente apresenta 40 espécies diferentes.
A biodiversidade da Suíça tem 96 espécies.
Somos maiores que um país inteiro, salienta o gerente
de produtos da Native.
A São Francisco cultiva 7.500 hectares de terras com cana-de-açúcar,
100% certificadas para produção orgânica. Para
complementar as necessidades de matéria-prima da usina, 5.500
hectares de 11 fazendas localizadas na Santo Antônio também
foram convertidas e certificadas. Juntas, as usinas do Grupo Balbo
produzem 1 milhão de toneladas de cana orgânica por safra.
Como resultado dessa iniciativa, a Usina São Francisco recebeu,
em outubro de 1997, o certificado de produtor orgânico. Este
é o maior projeto de agricultura orgânica da atualidade
por uma empresa privada. O cultivo da cana orgânica foi o primeiro
passo do Grupo Balbo para a criação da Native Produtos
Orgânicos, que fabrica e exporta produtos orgânicos para
todo o mundo (veja quadro).
ISO 14001
Além do cultivo de cana orgânica, outro projeto prioritário
na usina Santo Antônio é a certificação
pela norma ISO 14001. O documento, além de orientar condutas
para a implantação da gestão ambiental, atesta
para a sociedade que as ações da usina têm a finalidade
única de minimizar e eliminar o passivo ambiental produzido
nas atividades da empresa.
Contemplada há três anos pela norma ISO 9000, que garante
a qualidade da fabricação dos produtos comercializados,
a usina de Sertãozinho está adotando agora os processos
necessários para atender os pré-requisitos da família
certificação 14001. Espera ter todos os procedimentos
aprovados em no máximo dois anos. A certificação
é um diferencial de mercado. Na hora da compra, o cliente,
principalmente o internacional, prefere a empresa certificada. No
futuro, quem não tiver, não vai vender. Estamos nos
adiantando, esclarece Anna Paula.
Foi exatamente pensando em facilitar a entrada dos seus produtos no
mercado internacional que a Usina Santa Cruz se tornou, em 2002, a
primeira unidade brasileira a receber certificação ISO
14001 em todos os seus processos - antes, a Usina Guaxuma, de Coruripe
(AL), já havia sido certificada, mas apenas na parte industrial.
Já tínhamos um trabalho de qualidade total e a
ISO 9002. Nos impusemos então o desafio de conquistar a ISO
14001", conta Pestana.
Para obter a certificação, porém, não
basta querer. A norma exige das organizações a identificação
de todos os impactos ambientais ou aspectos relacionados, para então
implementar ações que melhorem os processos em áreas
prioritárias que apresentem aspectos significativos.
A Santa Cruz precisou investir em obras de adequação,
aquisição de novos equipamentos e treinamento de conscientização
com funcionários, clientes e fornecedores, sempre com o objetivo
de tornar todos os processo o menos agressivo possível ao meio-ambiente.
Não há atividade econômica sem impacto ambiental.
Viver é poluir. A nossa proposta é trabalhar minimizando
ao máximo estas conseqüências, discorre o
coordenador de gestão da usina.
Além das adaptações no início do processo,
uma certificação deste porte também exige melhoria
contínua. Auditorias são realizadas com freqüência
para avaliar o prosseguimento dos processos aprovados. Da implantação
até hoje, a usina Santa Cruz estima ter investido R$ 3,2 milhões.
É um alto valor, mas compensa porque as nossas infrações
ambientais caíram muito. O maior ganho é a imagem da
empresa, principalmente no momento de uma negociação,
sustenta Pestana.
Mesmo com tantos benefícios enumerados, poucas usinas são
certificadas com a norma ISO 14001. Em breve este número pode
aumentar, já existem vários processos de certificação
em andamento - é o caso da Sabarálcool, da Jalles Machado
e da Colombo.
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