Reportagem de Capa II Edição 87 de Setembro/Outubro
de 2004
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O combustível do crescimento
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| Mesmo com grandes perspectivas para o açúcar,
possibilidades de exploração de novos mercados transforma
o álcool na menina dos olhos do setor. |
| Abastecimento de álcool: pré-requisito
fundamental para o crescimento das exportações |
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Conhecido por fazer discursos inflamados, com frases
até gritadas, o presidente da Unica, Eduardo Pereira de Carvalho,
embargou o tom de voz por alguns instantes durante o pronunciamento
feito na IV na Conferência Internacional da Datagro sobre Açúcar
e Álcool, realizada recentemente em São Paulo. Ao comentar
sobre a vitória do Brasil no contencioso do açúcar
na OMC, o executivo se emocionou. Depois, retomou o velho estilo:
Estávamos insatisfeitos com as negociações
internacionais, então ganhamos os mercados na porrada. Mais
do que mercado, conseguimos um redirecionamento dos investimentos
na indústria do açúcar e reformulação
do regime europeu. É um caminho sem volta, o futuro agora nos
pertence.
Antes mesmo do fim da safra 2004/05, cerca de 60% das exportações
de açúcar da próxima temporada já estão
negociadas os números são da Consultoria Datagro.
As vendas do produto ao exterior neste ano estão estimadas
em 17,52 milhões de toneladas. Os números para 2005
ainda não foram calculados, mas as projeções
são otimistas. Haverá boa margem de aumento já
para o próximo ano, calcula o presidente da Datragro,
Plínio Nastari.
Mesmo com as recentes conquistas do Brasil no painel da OMC em relação
ao açúcar e as grandes possibilidades do produto no
mercado internacional, especialistas garantem que o álcool
deverá priorizar as atenções do setor sucroalcooleiro.
A crescente venda dos veículos flexíveis, que contribuem
para a formação de um sólido mercado interno,
e a demanda mundial por combustíveis renováveis alicerçariam
o crescimento do produto. As afirmações foram feitas
na Conferência Internacional da Datagro.
A Crystalsev estima que a demanda pelo combustível em 2005
seja de 3,8 bilhões de litros, que aumentaria para 13,3 bilhões,
se forem considerados os programas de substituição de
energia em diversos países. Há um grande potencial
para exportação do álcool, afirmou o superintendente
da empresa Ricardo Ferreira dos Santos.
As exportações de álcool desta safra, avaliadas
em 2,2 bilhões, apresentam significativo aumento em relação
à temporada anterior, quando foram comercializados com outros
países 900 milhões de litros - 14,5% ante 8,1% do total
produzido. Segundo estatísticas da Unica, o volume de lucros
das usinas com o combustível, que hoje é de 4,8%, poderá
subir para 18,1% em breve.
O Grupo Cosan, proprietário de 13 usinas, deve terminar a safra
com a produção de 1 bilhão de litros de álcool
30% deste volume destinado para a exportação.
O destaque é o aumento das exportações
de álcool, principalmente para os Estados Unidos, que foi o
principal mercado nesta safra, diz o superintendente do grupo,
Pedro Mizutani. |
Eduardo Carvalho em um de seus discursos
inflamados:
choro ao comentar sobre a vitória do açúcar
na OMC
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Possíveis mercados
Os principais mercados importadores a curto prazo seriam o Japão,
que hoje alcança 500 mil litros, mas pode chegar a 6 bilhões
de litros em 2010. Além disso, do volume esperado para o próximo
ano, um bilhão de litros seriam pedidos pela União Européia
e 600 milhões de litros pela Índia. Outros prováveis
consumidores são a Tailândia ( 700 milhões l),
os Estados Unidos (600 milhões l), Canadá (400 milhões
l), Japão e Coréia ( 500 milhões l). À
medida que China, Japão, Tailândia e alguns países
da Comunidade Européia consolidarem seus programas de uso de
álcool combustível, este mercado deverá crescer
rapidamente, sendo o Brasil o único país do mundo em
condições de oferecer o produto a preços competitivos,
diz o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.
A Crystalsev também avalia, porém, que os volumes produzidos
pelo Brasil sejam insuficientes para atender esta demanda. Este
ano suprimos a necessidade com estoques de até quatro safras
atrás. É preciso haver planejamento, alerta Santos.
Éramos entregadores de álcool, não temos
tradição. Precisamos nos programar para que a exportação
não seja só de excedentes, tenha continuidade,
concorda o presidente do Siamig, Luiz Custódio Cotta Martins.
A preocupação é recorrente. A Câmara Setorial
do Açúcar e do Álcool, órgão vinculado
ao Ministério da Agricultura, divulgou recentemente um levantamento
que indica um déficit de produção de álcool
de 1 bilhão de litros nesta safra se comparados aos volumes
observados no mesmo período em 2003 o consumo também
registrou aumento de 1 bilhão de litros.
Os números suscitaram boatos sobre nova possibilidade de desabastecimento
de álcool durante a entressafra como ocorrera no fim
da safra 2002/03. Os rumores teriam inclusive irritado o ministro
da Agricultura. O jornal Valor Econômico publicou uma declaração
de uma fonte setor e do governo sobre possíveis punições
ao setor caso a hipótese se confirmasse. O ministro já
fez várias ameaças veladas de que poderia impor taxas
de exportação para açúcar e álcool,
se as usinas não garantissem o abastecimento.
Tanto Eduardo Carvalho quanto o diretor do Departamento de Açúcar
e Álcool do Ministério da Agricultura, Ângelo
Bressan, rechaçam a suposição de desabastecimento
e de redução da mistura de 25% de álcool à
gasolina. Para o setor, esta possibilidade representaria um abalo
na própria imagem no momento em que tenta se firmar como grande
exportador mundial.
Na mesma época em que a notícia foi veiculada, houve
uma mudança significativa do perfil da produção
de açúcar e álcool no Centro-Sul. Na segunda
quinzena de setembro, a oferta de ATR Açúcar
Total Recuperável para a produção de açúcar
foi de 51,18%, enquanto na primeira quinzena de outubro houve uma
significativa redução para 46,8%. Essa mudança
demonstra a preocupação do setor com o abastecimento
de álcool no mercado interno e com os compromissos assumidos
com o mercado externo.
Inicialmente, Santos calcula que o volume de produção
da próxima safra ficará entre 14,2 e 14,3 bilhões
de litros, dos quais 13,3 bilhões de litros seriam consumidos
internamente com isso, o excedente para exportação
seria de apenas 1,2 bilhão de litros, bem abaixo da demanda
estimada. Este é apenas um número de partida,
depende de muitos fatores, mas é preciso organizar melhor as
vendas externas.
O aumento de exportações para o próximo ano é
visto com reticência pela Consultoria alemã F.O. Licht,
que credita o aumento das exportações brasileiras de
álcool aos baixos preços do produto em 2004. Antes do
início da safra, o metro cúbico (mil litros) do anidro
chegou a ser negociado por R$ 350 no final da temporada este
valor já havia subido para R$ 900.O preço da gasolina
deve até continuar alto, mas dificilmente os valores do etanol
cairão tanto, acredita o analista da empresa Christoph
Berg.
Números finais da safra 04/05
Nesta safra os preços do álcool não apresentaram
bons rendimentos apenas para as exportações, os preços
no mercado interno foram mais remuneradores em relação
ao açúcar o anidro 20% a mais e o hidratado 10%
superior. Isso foi observado pela primeira vez na história
e teria acontecido em função da oferta justa do combustível
e os altos preços cobrados pela gasolina.
Os resultados e a preocupação em faltar álcool
tanto internamente quanto para exportação devem determinar
o ritmo da próxima safra, que deve ser mais alcooleira. Segundo
projeções da Crystalsev, a temporada 2005/06 alcançará
345 milhões de toneladas no Centro-Sul.
Este ano a colheita final de cana deverá atingir 330 milhões
de toneladas, 10 milhões a mais que o estimado inicialmente
o volume também é 10,2% superior em relação
a 2003/04. A produção de álcool deve atingir
15,2 bilhões de litros neste ano, representando um acréscimo
de 500 milhões de litros em relação à
safra passada e a de açúcar chegará a 23,052
milhões de toneladas.
Os analistas avaliam também o Nordeste do país colheita
possa esmagar até 63 milhões de toneladas de cana, número
que atinge 388 milhões de toneladas para a safra brasileira,
com aumento de 8,4% sobre a temporada anterior.
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