Reportagem de Capa III – Edição 87 de Setembro/Outubro de 2004
O gerenciamento da variabilidade
Nova técnica de gestão da produção agrícola canavieira, a agricultura de precisão começa a ganhar adeptos nas usinas brasileiras; Tecnologia promete redução de custos através de sistema de adubação localizado e processo de avaliação da produtividade.
Aplicação de calcário em taxa variada: agricultura realizada localizadamente
Todos os 6500 hectares de extensão da área de reforma da usina Jalles Machado, de Goianésia (GO), estão recebendo, desde julho do ano passado, um tratamento diferenciado de adubação. A aplicação de calcário no solo obedece a parâmetros de taxa variada, determinados por mapas de recomendação produzidos com base nos conceitos da agricultura de precisão (AP). “Aplicamos somente as quantidades necessárias a cada espaço do canavial. Assim, estamos racionalizando o uso de insumos”, explica o agrônomo Rogério Soares, supervisor agrícola da empresa.

Para saber quais áreas precisam de mais calcário e que locais pouco precisam do insumo, a Jalles fez uma amostragem criteriosa do solo. No início do processo, é utilizado um aparelho GPS (Global Positioning System) que navega pelo canavial e coleta amostras do solo - da mesma maneira realizada convencionalmente, mas ao redor de um ponto. O material colhido é enviado a um laboratório que emite um resultado, a partir do qual são produzidos mapas de recomendação de aplicação de calcário. O mapa funciona como uma receita que calcula ponto a ponto a quantidade necessária de aplicação de nutriente e é inserido em um controlador eletrônico responsável por coordenar a máquina de aplicação.

O sistema é diferente do processo largamente utilizado hoje pelas usinas, em que se prioriza um número representado pela média do talhão ou da fazenda, após análise do resultado da amostragem. “O conceito praticado pela média deixa de considerar aspectos muito importantes e é excessivamente simplificado. Com a agricultura de precisão é possível se observar informações surpreendentes. A lógica é simples: se isso aqui é diferente disso, por que tratar igual?”, questiona o engenheiro agrícola, José Paulo Molin, professor titular da Esalq/USP.
A Agricultura de Precisão se baseia no uso racional de tecnologias atuais para o manejo de solo, insumos e culturas. A nova técnica fornece ao produtor informações detalhadas que permitem identificação das regiões de altas e de baixas produtividades dos talhões e administração dessas diferenças.

O conceito é muito novo no Brasil e ainda gera algumas dúvidas de interpretação, principalmente por parte de potenciais usuários. “Existe muito misticismo, muita gente não sabe o que a tecnologia é capaz de oferecer. Falta maior difusão”, confirma o engenheiro agrônomo Leonardo Menegatti, consultor técnico da empresa APAgri.

Das 350 usinas do Brasil, apenas sete unidades já fazem algum tipo de aplicação baseado nesta técnica, o que perfaz um total de 150 mil hectares de cana. O precursor no País foi o Grupo Zilo Lorenzetti, que implantou a tecnologia em 1999, mas há dois anos, por questão administrativa, o sistema foi inteiramente desativado. Em 2002, a usina Guairá foi a primeira a testar o mapeamento de produtividade na colheita mecanizada e a adotar o gerenciamento do solo para aplicação de taxa variada. Ao contrário do passado, hoje, as principais tecnologias necessárias para a aplicação da AP são fornecidas por fabricantes nacionais, o que barateia o custo do processo – mesmo assim ainda são pouca empresas que investem na produção destes equipamentos.
Tipos de gerenciamento

As estratégias de adoção de técnicas de agricultura de precisão apresentam inúmeras variações, mas o setor sucroalcooleiro tem optado por duas alternativas: o gerenciamento integrado de entradas e saídas e a gestão da adubação das culturas – a segunda escolha, por dispor de tecnologias melhor desenvolvidas, apresenta mais adeptos.

Ainda não há dados científicos que possam comprovar a eficácia da agricultura de precisão porque os principais estudos são recentes e não há pesquisas prontas a respeito, mas os pesquisadores asseguram os benefícios.“Os resultados econômicos pesquisados são favoráveis, mas ainda não podemos avaliar a cana plantada nestas áreas por que ainda vai ser colhida na próxima safra. A redução de custos com insumos é imediata”, garante Menegatti.

O gerenciamento da adubação pode ser feito de duas formas. A primeira é realizada por empresas prestadoras de serviços, que, além de vender o produto, pode comercializar também a aplicação do insumo com máquinas importadas de grande porte e tecnologia de ponta. A outra frente é a usina fazer isso – como acontece na usina Colombo.

A unidade investiu na compra de duas máquinas de aplicação, avaliadas em R$ 50 mil cada uma. Além de GPS e controlador digital, o equipamento é composto por uma esteira de colméias ligada no eixo acionado pelo motor hidráulico, que gira mais rápido ou mais devagar de acordo com a dose a ser aplicada. O aparelho, entretanto, tem apresentado alguns problemas. “Precisamos parar a aplicação por algum tempo para consertar defeitos da máquina”, diz Cristiane Dias, do Departamento Agrícola da usina.

A Colombo está desenvolvendo a técnica há um ano em 6000 hectares da área de reforma do canavial – para a próxima safra pretende ampliar a metodologia de aplicação de fósforo e calcário para 7000 ha. “Os investimentos iniciais são altos, mas acreditamos na boa relação custo/benefício provocada pela redução do uso de insumos”, esclarece Cristiane.
Etapas Estratégicas da AP

Manejo da Fertilidade do Solo
1º passo: amostragem do solo
2º passo: Produção dos mapas de Fertilidade
3º passo: definição das estratégias de atuação
prioridades e das usinas
4º passo: Aplicação das soluções
Mapeamento da produtividade
1º passo: Mapeamento da Produtividade das
culturas
2º passo: Definição das zonas de manejo
3º passo: Levantamento das causas
4º passo: Aplicação das soluções
Leonardo Menegatti em área de reforma da Jalles Machado: usina superestimava aplicação de calcário e fósforo
Embora a perspectiva de resultados favoráveis anime as usinas, a adequação da técnica não pode ser generalizada e a decisão de implantar a agricultura de precisão demanda um levantamento específico. A Jalles Machado, por exemplo, foi material de um estudo de caso desenvolvido pela AP Agri.

Foi realizado um mapeamento completo em 500 hectares de cinco fazendas da usina, com objetivo de analisar uma avaliação econômica da aplicação em taxa variada de fósforo e calcário – a escolha dos canaviais não foi aleatória, obedeceu critérios de características e representatividade que configuraram a condição total da usina. “Aplicando pela média, em todas as fazendas pesquisadas a usina estava superestimando o consumo de calcário”, revela Menegatti.

Durante o estudo, foram feitas aplicações de calcário e fósforo em taxa fixa e índice variável. O resultados mostraram que houve redução de 34,5% do consumo de calcário - uma das fazendas apresentou queda da ordem de 50%. “Este é um índice astronômico”, pontua o consultor.

Em média, também houve diminuição de 38,6% do consumo de fósforo, nas cinco fazendas – em uma houve redução de 61,3%. Nem sempre houve queda de fósforo, porque em uma fazenda o nível do nutriente era tão baixo que toda a área precisou passar por correção em quantidades iguais, uniformes. Sem o uso da agricultura de precisão, a usina não conseguiria chegar a esta informação.

Em 2005, a Jalles vai adquirir mais duas máquinas e estender a implantação de AP para a aplicação de fósforo. “É uma tecnologia bastante viável. Além disso, estamos adotando ações para conquistar a certificação ISO 14001 e esta é uma ferramenta que veio ao encontro dos nossos conceitos”, divulga Soares.

O resultado final do estudo na usina aponta para ganhos econômicos significativos. O custo por área do sistema tradicional, avaliado em 186,04 R$/ha, caiu para 118,12 R$/ha em taxa variada. A diferença obtida em 468 hectares, de R$ 31.845,54, multiplica-se para R$ 441.480,00 – valor estimado para toda a área de plantio. “No primeiro ano, paga-se todo o investimento e ainda sobra dinheiro”, avalia Menegatti.

Vantagens e desvantagens da agricultura de precisão

Vantagens
* Aumento de conhecimento sobre o meio produtivo;
* Preservação do meio ambiente devido a redução de fertilizantes e agroquímicos;
* Maximização da qualidade, produtividade e retorno financeiro;
* Diminuição de gastos com fertilizantes e agroquímicos;
* Fornecimento de dados concretos para tomada de decisão.
Desvantagens
* Custos altos
* Poucas tecnologias nacionalizadas
* Desinformação de potenciais usuários
* Falta de resultados concretos para apresentação
Para chegar aos resultados descritos, a usina Jalles Machado trabalhou com uma estratégia de aplicação para cada produto. Há dois tipos de sistemas possíveis. Quando opta pelo primeiro, a usina visa obter produtividades maiores utilizando a mesma quantidade de insumos consumida em aplicação uniforme. A aplicação é redistribuída, coloca-se mais onde há falta de nutriente e menos nos locais em que há boa quantidade do insumo.

A outra opção é manter a produção obtida com aplicação uniforme, mas utilizando menos insumos. A escolha é uma questão administrativa da usina, que precisa definir as estratégias para determinar as recomendações. “Essa é a vantagem da tecnologia, o produtor consegue considerar outros fatores numa recomendação, como por exemplo: nutriente, ambiente de produção e nível do solo e faz ela variar em função destes três parâmetros”, explica o consultor.


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