Especial – Edição 87 de Setembro/Outubro de 2004
O berço da cana no Brasil
Primeira região do país a produzir cana-de-açúcar, Nordeste investe em programas de recuperação e novas tecnologias para resgatar os índices de produção obtidos há 15 anos e competir com o Centro-Sul.
Os três primeiros trimestres de 2004 confirmaram a vocação canavieira de Pernambuco. As exportações de açúcar bruto aumentaram 57% no período, índice que totalizou um volume de US$ 70 milhões, ante os US$ 44,3 milhões registrados no mesmo período do ano passado. Os embarques do produto atraíram ao Estado um saldo de US$ 341 milhões. Até o final do ano, as perspectivas continuam animadoras. O Sindaçúcar-PE (Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool do Estado de Pernambuco) calcula que em outubro, novembro e dezembro as vendas ao exterior possam render mais US$ 90 milhões - o álcool também poderia gerar mais US$ 10 milhões.

A safra 2004/05 em Pernambuco deve fechar com a produção de 400 milhões de litros de álcool, dos quais 100 milhões de litros destinados à exportação. Os números representam alta em relação ao volume total produzido em 2003, de 370 milhões de litros. Este aumento está relacionado ao crescimento do uso do combustível em outros países e aos preços considerados atrativos diante das altas do petróleo.

Mesmo apresentando evolução nos embarques ao exterior em Pernambuco, o álcool ainda mantém desempenho modesto se comparado ao açúcar, primeiro lugar na pauta de exportações do Estado, com 40% dos volumes embarcados. Para se ter uma idéia, no ranking das 10 empresas que mais comercializam produtos com o mercado internacional, três são usinas, e há ainda uma trading. Os maiores compradores do açúcar pernambucano são: Rússia (62%), Estados Unidos (12,65%), Tunísia (9,92%), Romênia (3,93%), Argélia (3,54%) e Portugal (3,30%).

A partir da próxima safra, a Inglaterra também deve integrar esta lista. Em agosto, o Porto de Suape obteve uma chancela oficial para comercializar açúcar diretamente com a Bolsa de Londres, o que hoje é feito somente pelo Porto de Recife, que abriga o Terminal de Açúcar do Sindaçúcar. “Outro negócio que está crescendo em Pernambuco é a produção de cachaça, inclusive com aumento das exportações”, comenta o presidente da Fiepe (Federação das Indústrias de Pernambuco), Jorge Wicks Côrte Real.

Quinto maior produtor de cana no Brasil, mais da metade da produção de açúcar de Pernambuco é destinada ao comércio exterior. Esta veia está relacionada ao início das atividades do setor sucroalcooleiro no Estado, que foi colônia de Portugal. O segmento canavieiro é a principal atividade econômica local e responde por aproximadamente 20% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual.

Cerca de 35% dos empregos industriais do Estado são gerados pelo setor sucroalcooleiro, que oferece trabalho para um contingente de 60 a 80 mil profissionais – o número depende muito do setor de corte relacionado a quantidade de chuvas no período da safra. A atividade está presente em 400 mil hectares de terras em Pernambuco e movimenta o cotidiano de 55 municípios das zonas da mata Norte e Sul e da Região Metropolitana do Recife, a cerca de 130km de Recife.

O setor já criou 125 escolas no Estado. Hoje são 17.500 alunos atendidos pelas usinas de Pernambuco. “Na verdade é um reconhecimento da própria responsabilidade social que o setor assumiu bem antes desse discurso virar moda. Surgiu como uma necessidade natural do entorno das usinas, das normas do convívio humano”, diz o presidente do Sindaçúcar, Renato Cunha.

Se repetir o retrospecto de crescimento desta safra, o setor em Pernambuco deve apresentar um ligeiro aumento na geração de empregos. A perspectiva é que as 27 usinas do Estado processem na temporada atual 19 milhões de toneladas de cana, 6% a mais em relação a 2003. Este volume de matéria-prima é suficiente para a fabricação de 1,65 milhão de toneladas de açúcar - 950 milhões comercializadas com o exterior. “A perspectiva agrícola é atingir de 24 milhões a 25 milhões de toneladas até 2008/2009”, anuncia Cunha.
Feira leva tecnologias modernas e equipamentos consagrados
para o Nordeste
O setor sucroalcooleiro de Pernambuco deverá faturar na safra 2004/05 um volume da ordem de R$ 1,1 bilhão. Parte deste montante, entre 6% e 12%, pode ser investido em novos equipamentos para os setores agrícola, industrial, de bioeletricidade e ambiental dentro das usinas.

Os recursos serão concentrados principalmente na aquisição de mecanismos de processos industriais como a produção de açúcar tipo very high polarization (VHP) – hoje as usinas do Nordeste produzem mais açúcar refinado e do tipo demerara. Além disso, haverá investimentos em irrigação, barragens para o acúmulo de água, drenagem de áreas de várzeas na Zona da Mata sul do Estado, bioletricidade, recuperação de matas e logística de escoamento.

Nos últimos cinco anos, Pernambuco investiu de R$ 40 a 60 milhões em barragens de acumulação de água e irrigação - face ao período seco de 1999/2000. Empregou também, em 2001 e 2002, cerca de R$ 30 milhões em térmicas de Biomassa e pequenas centrais hidrelétricas. “Algumas usinas melhoraram o processo industrial de açúcar com investimentos de R$ 40 milhões em refinaria de açúcar e versatilidade para açúcar VHP”, observa o presidente do Sindaçúcar/PE, Renato Cunha.

Mais novidades podem estar por vir. O Estado também foi escolhido para a implantação de uma fábrica-piloto de biodiesel em 2005, que envolverá investimentos avaliados em R$ 480 mil, além de aproximadamente R$ 500 mil para pesquisas de desenvolvimento da tecnologia para a produção do combustível.O projeto, financiado em parceria pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e o governo de Pernambuco, produzirá de 30 a 40 mil litros de biodiesel por dia.

As usinas de Alagoas, que também pretendem se manter competitivas em relação às unidades do Centro-Sul, devem empregar R$ 1,8 bilhão - 10% de sua receita – em projetos de expansão das usinas. Os principais investimentos devem incidir sobre tecnologias de irrigação. Sem novas áreas disponíveis para aumentar a produção, a alternativa no Estado é verticalizar os canaviais – a produtividade média nos últimos cinco anos passou de 40 toneladas por hectare para 55 toneladas.

Os aportes sucroalcooleiros no Nordeste devem somar, ao final da safra 2004/05, cerca de R$ 300 milhões, investidos principalmente pelos Estados de Alagoas e Pernambuco. Estas novas oportunidades de mercado são atrativos especiais para os expositores da I Sucroálcool Nordeste (Feira Nacional de Máquinas, Produtos e Serviços para o Setor Sucroalcooleiro), que será promovida de 23 a 26 de novembro, no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda.

O evento, que deve reunir 70 expositores, provenientes principalmente do Sudeste do Brasil, espera receber pelo menos 15 mil visitantes e gerar negócios da ordem de R$ 150 milhões. O principal objetivo da organização é atrair produtores e profissionais das regiões Norte e Nordeste para conhecerem as novidades e principais tecnologias voltadas ao aprimoramento da produção sucroalcooleira no Brasil.

“Temos pelo menos cinco eventos voltados ao segmento que ocorrem em São Paulo. Uma viagem para participar destas feiras é onerosa e muitos técnicos de outras regiões ficam privados de conhecer as tecnologias”, afirma Waldir Freire, diretor da Valete Marketing & Eventos, empresa que promove a Sucroálcool NE. “Outros eventos acontecem em uma época ruim para os representantes do Nordeste visitarem. Em novembro, o setor estará em safra normal e estaremos próximos das usinas, para que todos participem”, completa o gerente comercial da Koblitz, Marcílio Reinaux Jr.

Evento Itinerante

A proposta da Valete é promover um evento itinerante, realizado anualmente com intercalações entre Olinda e Maceió, que representam os maiores pólos produtores do Nordeste – a região é a maior exportadora de açúcar do Brasil. O setor sucroalcooleiro é responsável por 80% do PIB de Alagoas e 19% do índice de Pernambuco. “O segmento retomou a produção no Nordeste e está investindo em tecnologia”, diz o presidente do Sindaçúcar/PE, Renato Cunha.

A Feira reunirá fornecedores, produtores, prestadores de serviços e plantadores de cana-de-açúcar do Nordeste. “Vamos congregar visitantes dos três principais Estados sucroalcooleiros do Nordeste: Pernambuco, Alagoas, Paraíba”, anuncia Freire.

A Sucroálcool NE conta com apoio de entidades importantes como Unida, Stab Setentrional, Sindaçúcar, Alco, Andef, FIEPE, Copergás, além de uma parceria com o governo de Pernambuco. “Estamos sendo apoiados pelas principais entidades do Nordeste, o que vai garantir certamente a presença de profissionais qualificados e influentes das usinas do Nordeste”, acredita o diretor da Valete Eventos.

Os visitantes que estiverem na Feira poderão acompanhar novidades de diversos ramos da indústria sucroalcooleira. Os expositores já confirmados apresentarão produtos consagrados e lançamentos para diversas áreas de produção dentro da planta de uma usina, desde equipamentos de proteção e automação até química e energia. “Acreditamos que as usinas do Nordeste representam um mercado em expansão. Participaremos da Sucroálcool NE mostrando o nosso novo redutor planetários e os nosso lançamentos na linha de turbinas a vapor”, adianta o gerente de marketing da TGM Turbinas, Adalberto Marchiori.

A Woodward já mantém clientes no Nordeste e pretende ampliar a sua participação no mercado da região e usará a Sucroálcool como ferramenta estratégica. “Queremos manter um contato fixo com os clientes locais e não apenas esporádico. Há um grande mercado para se explorar, as usinas do Nordeste estão se modernizando, usando como espelho os resultados das unidades do Centro-Sul”, acredita o gerente de contas da empresa, André Coutinho.

Os principais executivos do setor no Nordeste estão otimistas com a realização da Sucroálcool. “A melhoria dos negócios se dá pelo constante esforço, aprimoramento e renovação. Nossa competitividade é marcante no Brasil e é importante que o Nordeste se mantenha na vanguarda da tecnologia. A feira ajuda nesse processo e é a prova de que o Nordeste participa desse constante esforço de evolução em relação a questões técnicas”, diz o presidente da Alco (Associação dos Produtores Autônomos de Álcool), Roberto Hollanda.

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