Reportagem de Capa – Edição 88 de Novembro/Dezembro de 2004
Feliz Ano Velho...
Setor sucroalcooleiro registra novo recorde de produção na safra 2004/05 e comemora crescimento de 32% em relação ao período anterior.

Colheita recorde de cana: perspectiva de superprodução se transformou em euforia no fim da safra
As tradicionais festas de fim de safra na Destilaria Guaricanga, na Oeste Paulista, no Grupo Aralco, na Alcoolvale, na Destivale, na Equipav, na Centrálcool, na Unialco, na Floralco, na Guarani, na Mundial, tiveram um colorido especial em dezembro de 2004. Assim como tantas outras usinas brasileiras, estas unidades comemoraram também recordes de produção – nunca haviam colhido antes tanta cana e nem fabricado tamanhos volumes de açúcar e álcool.

Da mesma maneira como houvera ocorrido em 2003/04, a região Centro-Sul apresentou na safra que acaba de se encerrar uma temporada recorde. As usinas moeram uma quantidade superior aos 325 milhões de toneladas de cana estimados para o ciclo 2004/05 pela União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica). Devido às chuvas, 5 milhões de toneladas ainda ficaram em pé nos canaviais.

Ao todo foram processadas 327,14 milhões de toneladas de cana, responsáveis pela produção de 13,54 bilhões de litros de álcool e 22,05 milhões de toneladas de açúcar – o volume total de ATR foi de 47,5 milhões de toneladas. A produção apresentou crescimento de 7,8% para o açúcar e 3,6 para o álcool em relação à safra anterior - já a moagem de cana 9,27% acima.

A safra teve dois períodos de produção muito distintos. Até o final de setembro, priorizou-se a produção de açúcar, sendo que da oferta de ATR, 50,93% destinou-se a produção de açúcar, enquanto que a partir de outubro a prioridade foi a produção de álcool, ficando a oferta de ATR para produção de açúcar em 44,08%.

Se forem confirmadas as previsões para a safra do Norte/Nordeste, que está prestes a terminar, o Brasil fecha a temporada com aproximadamente 385 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, plantadas em 5,5 milhões de hectares. O país também registra a produção e 14 bilhões de litros de álcool e 26 milhões de toneladas de açúcar. “Os resultados alcançados superaram até mesmo as previsões mais otimistas”, revela o presidente da Canaoeste e da Orplana, Manoel Ortolan.

Medo de superprodução

Mesmo surpreendentes, os números superlativos foram previstos pelo setor, que temia uma crise de superprodução. Respaldavam o temor a grande queda dos preços do açúcar e do álcool no mercado interno durante a entressafra passada e as dúvidas sobre os destinos para os volumes produzidos. Pessimistas, alguns empresários chegaram a mencionar a possibilidade de uma nova crise, semelhante à verificada no final da década de 90.

Nem os prognósticos mais satisfatórios poderiam prever, porém, as agradáveis surpresas que 2004 reservara ao setor sucroalcooleiro nacional. O ano foi uns dos melhores momentos da agroindústria canavieira nacional desde o Proálcool, maior programa de energia renovável do mundo lançado há quase três décadas. “O complexo sucroalcooleiro somou US$ 3,137 bilhões e ficou entre os principais itens da pauta de exportações do agronegócios brasileiro”, informa Ortolan. Juntos, o açúcar e o álcool proporcionaram um crescimento de 32% ao Brasil em relação a 2003.

A mudança de cenário pode ser atribuída principalmente à demanda pelo álcool ao longo do ano. Internamente, às vendas de veículos equipados com a tecnologia flex fuel alcançaram mais 328 mil unidades, o que impulsionou o consumo do combustível no Brasil. Foram fabricados 6,3 bilhões de litros de álcool hidratado, o que consolida um aumento de 17% em relação ao volume de 5 bilhões de litros produzidos na safra 2003/04.

Mas foi o aumento nas exportações, que triplicaram, o maior responsável pelo sucesso do setor. “Os embarques foram motivados principalmente pela alta nos preços do petróleo e seus derivados, pela quebra de safra na Índia e pelo aumento no uso industrial em novos destinos”, lista o presidente da Consultoria Datagro, Plínio Nastari.

De 900 milhões de litros exportados em 2003, as vendas de álcool para o mercado internacional pularam para 2,4 bilhões de litros. O combustível é considerado mundialmente uma das alternativas mais viáveis ao petróleo, que, de origem fóssil, observa fim de suas reservas. Vários países devem implantar políticas de mistura à gasolina ou até mesmo usá-lo plenamente.
Ortolan: surpresa com resultados do ano
“Índia, Estados Unidos, Tailândia e quase todos os países que estão desenvolvendo programas para melhorar as condições ambientais compraram muito do Brasil neste ano. O resultado ajuda o país a se consolidar na liderança mundial da produção de cana-de-açúcar”, sublinha o diretor do Departamento do Açúcar e do Álcool do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Ângelo Bressan.

Notícias prósperas também marcaram o desempenho do açúcar em 2004. As exportações do produto também atingiram recorde ao somar vendas de 15,76 milhões de toneladas, montante 21,7% maior se comparado às 12,9 milhões de toneladas exportadas em 2003. Os embarques geraram uma receita também inédita de US$ 2,64 bilhões - 23% superior aos números do ano anterior.

A principal novidade do mercado de açúcar foi a vitória do Brasil no painel da OMC (Organização Mundial do Comércio), que determinou o fim dos subsídios praticados pela União Européia ao produto. Com isso, o país espera abocanhar os mercados deixados pela Europa, o que pode significar um lucro de US$ 700 milhões. “Mais do que novos mercados, conseguimos um redirecionamento dos investimentos na indústria do açúcar e reformulação do regime europeu”, frisa o presidente da Unica, Eduardo Pereira de Carvalho.

Cerca de 60% das exportações de açúcar da próxima temporada já estão negociadas, de acordo com a Consultoria Datagro. As vendas do produto ao exterior estão estimadas em 17,52 milhões de toneladas. Os números para 2005 ainda não foram calculados, mas as projeções são otimistas. “Haverá boa margem de aumento já para o próximo ano”, calcula o presidente da Datragro.

Investimentos no biodiesel

Com o açúcar e o álcool já destacados nacional e internacionalmente, o setor passar a direcionar investimentos para outro combustível que nos próximos anos ganhará projeção: o biocombustível, que consiste na adição de 5% de biodiesel (produzido a partir do álcool e óleos vegetais, como mamona, soja, dendê) no diesel.

Açúcar brasileiro: exportação recorde e vitória na OMC
Inicialmente a mistura ao diesel mineral será na proporção de 2%. O governo ainda deve determinar a partir de quando ela será compulsória. Dilma defende que a obrigatoriedade seja imposta até 2007. Com isso, a proporção da mistura também aumentaria gradativamente.

O biocombustível levará o país a economizar já a partir do primeiro ano do projeto US$ 1,2 bilhão a US$ 1,8 bilhão só com a substituição de importações de diesel pelo combustível vegetal. Além disso, poderá gerar 200 mil empregos no país.

O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, compara a atual expectativa em relação à produção de biodiesel à década de 70, quando foi lançado o Proálcool. Ele lembra que o excedente de produção de soja e o alto preço do petróleo formam um cenário muito parecido com a década de 70, quando o país optou pela produção do álcool em virtude da grande oferta de cana-de-açúcar. “Creio que teremos de criar para o biodiesel ações semelhantes às implementadas para o álcool da década de 70, como a proteção de regiões mais carentes, para que o produto seja competitivo”, avaliou. “Logo o biodiesel terá o mesmo nível de competitividade do álcool”.


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