Reportagem de Capa II – Edição 88 de Novembro/Dezembro de 2004
... PRÓSPERA SAFRA NOVA
Perspectivas para ciclo 2005/06 apontam para novo recorde de produção; usinas anteciparão moagem para garantir suprimento de álcool

Produção de álcool em 2005: perspectiva inicial de aumento de pelo menos 12%
Os recordes conquistados pelo setor sucroalcooleiro na safra passada foram surpreendentes mas a euforia por estes números não deve durar muito tempo – no máximo uma temporada. Se as primeiras previsões forem confirmadas, o ciclo 2005/06 apresentará produções ainda maiores, com grande destaque para a fabricação de álcool.

Os 15,2 bilhões de litros do combustível fabricados no ano passado proporcionaram um crescimento de 3,4%, índice que deve ser de pelo menos 12% ao final da próxima safra, quando as estimativas apontam para um processamento de 16,2 bilhões de litros – volume considerado suficiente para atender às demandas dos mercados interno e externo.

Ao contrário do que ocorreu no ano passado, quando contava com 1 bilhão de litros armazenados, o setor praticamente não terá estoque de passagem em 2005, o que obriga as usinas a utilizarem uma estratégia já adotada há dois anos: a antecipação do início da moagem para o mês de março – ainda não oficialmente, os especialistas estimam uma safra de 350 milhões de toneladas apenas no Centro-Sul.

Historicamente, a região mói cerca de 9 milhões de toneladas de cana até o final de março, número que alcançou 13,7 milhões na temporada 2003/04. Para a próxima safra a produção esperada no período é de 18,5 milhões de toneladas. Para alcançar o volume, as usinas acrescentaram as 5 milhões de toneladas que deixaram de ser processadas no ciclo anterior devido ao clima.

Com esta providência, as usinas pretendem assegurar o abastecimento de álcool para o mercado interno e não abrir espaço para rumores sobre a falta do produto. A expectativa dos empresários é conseguir estocar até maio cerca de 200 milhões de litros do combustível, cuja demanda deve manter alta tanto internamente, motivada pelos preços da gasolina, quanto para exportações. “Somos fornecedores mais do que confiáveis”, descarta o presidente da Unica, Eduardo Pereira de Carvalho.

Os investimentos mais consistentes na produção de álcool não devem se restringir apenas ao início da safra. Além das grandes perspectivas de exportação do combustível, os preços mais remuneradores em relação ao açúcar no mercado interno verificados a partir de setembro passado tendem a se manter. “Nestas condições de mercado e considerando a produção do combustível estratégica, os produtores podem decidir priorizá-la”, acredita o presidente da Datagro Consultoria, Plínio Nastari.

Mesmo com a preferência pelo combustível nos últimos meses do ano, o mix de produção da safra foi estimado em 51,3% (açúcar) e 48,7% (álcool). Mas os especialistas analisam desde já a possibilidade de inversão deste índice na temporada 2005/06.
Eduardo Carvalho: “Precisamos de mais apoio do governo”
Demanda aquecida

A inversão do mix de produção será determinada de acordo com a confirmação da perspectiva de demanda aquecida para o álcool nos mercados interno e externo. Os avanços internacionais do álcool, que antes de 2004 apresentavam crescimento tímido, serão impulsionados principalmente por duas conquistas: a ratificação do Protocolo de Kyoto e as altas constantes dos preços do barril do petróleo.

Com a esperada adesão da Rússia confirmada, o protocolo entrará oficialmente em vigor no próximo dia 16 de fevereiro. O documento vai exigir redução da utilização de combustíveis fósseis, geradores de dióxido de carbono (CO²), o que vai obrigar muitos países a buscarem alternativas renováveis. Neste contexto, o álcool se apresenta como uma das melhores opções. “São novos mercados. Buscá-los: este é o nosso verdadeiro desafio para crescer”, argumenta o executivo Hermelindo Ruette de Oliveira, presidente do Grupo Copersucar.

Os altos preços do petróleo também favorecem o álcool, que se torna competitivo internacionalmente, além do já propalado apelo ambiental. A tendência já foi vista em 2004, ano em que o combustível brasileiro foi embarcado principalmente para a Índia – com quebra de safra, o país importou 451,3 milhões de litros de etanol brasileiro. Estados Unidos (418,6 milhões de litros), Coréia do Sul (230,5 milhões de litros) e Japão (196,8 milhões de litros) também foram mercados bastante explorados pelo setor sucroalcooleiro nacional.

O Brasil pretende agora se consolidar como o principal fornecedor mundial de etanol, com exportações equivalentes a 39,8% do comércio mundial de álcool. “Temos um plano estratégico para o mercado internacional de álcool, mas abrir novos mercados será uma guerra”, destaca Carvalho.

PERSPECTIVAS PARA O SETOR

• Demanda adicional de 10 bilhões de litros de álcool e 7 milhões de toneladas de açúcar até 2010

• Necessidade de 180 milhões de toneladas de cana adicionais

• Necessidade de 2,5 milhões de hectares de cana-de-açúcar

• Criação de 360 mil empregos diretos

• Criação de 900 mil empregos indiretos

• Faturamento adicional de US$ 4,5 bilhões/ano

• Volume adicional de impostos US$ 1,5 bilhões/ano

• Contribuição para a balança de pagamentos: US$ 5 bilhões/ano

• Açúcar OMC: Demanda adicional de 4 milhões de toneladas

Fonte: Unica

A primeira batalha será transformar o produto em uma commodity mundial, arma indispensável para negociações consistentes com os mercados que já demonstram interesse no álcool brasileiro. É o caso da União Européia, que ainda em 2005 irá recomendar a substituição de 2% da gasolina por combustíveis de origem renovável, com metas progressivas até atingir 5,75% em 2010. Hipoteticamente, se todos os países aderissem apenas este ano o mercado potencial seria de 3 bilhões de litros.

No ano passado, o Japão baixou uma diretiva semelhante que preconiza a mistura de etanol a combustíveis fósseis em uma proporção de até 3%. O mercado japonês necessitará de 12 bilhões de litros quando a medida entrar em vigor em caráter obrigatório no percentual de 10%.

Já a China, sede das Olimpíadas de 2008, planeja chegar aos Jogos com a mistura estabelecida em 10%, o que representa um mercado de até 6 bilhões de litros. “A China é totalmente dependente do petróleo, tivemos uma receptividade assustadora lá. A expectativa do governo chinês é fantástica”, conta o secretário de Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Carlos Gastaldoni.

O Brasil também encontra oportunidades de negócios na Tailândia, na Coréia, Colômbia e países da América Central, mas precisa de políticas de longo prazo para aproveitá-las. “O mercado é como uma jóia: precioso, mas precisa ser lapidado. Precisa de políticas, porque pequenos detalhes podem fazer grandes diferenças”, aponta o presidente da Coimex Trading, Ricardo Pimenta.
Plano estratégico

Além de um plano estratégico para explorar o potencial internacional do mercado de álcool, o crescimento sustentado do setor sucroalcooleiro também requer medidas internas. “Precisamos de tributação mais adequada ao veículo flex-fuel, racionalização do ICMS, revisão do PIS/COFINS e combate mais rigoroso à adulteração. Para isso, precisamos do apoio do governo”, relaciona Carvalho.

Neste desafio de desenvolvimento algumas questões estruturais são consideradas prioritárias: o estabelecimento de estoques de passagem e financiamento da expansão. Embora haja reclamações contrárias, o governo se dispõe a enfrentar os obstáculos do crescimento em coordenação com a iniciativa privada, mas adota um discurso cauteloso.
“Agora seremos negociantes de combustíveis, o mercado é para profissionais. Temos que estar prontos para dizer que somos capazes de oferecer álcool nas condições dos outros países cumprirem o compromisso de Kyoto. Se não houver confiança, outras alternativas serão procuradas”, discursa o diretor do Departamento do Açúcar e do Álcool do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Ângelo Bressan.

Embora concorde com a necessidade de cumprir o fornecimento, o setor garante que os esforços devem ser direcionados para a abertura de novos mercados e para o estabelecimento de esquemas de financiamento. “Quando tivermos contratos de longo prazo, garantiremos o abastecimento de álcool no mercado externo. Se tivermos mercados, conseguiremos resolver as outras questões”, responde o presidente da Unica.

O crescimento sustentado do setor não dependerá de medidas benéficas apenas para o mercado de álcool. O açúcar também precisa de providências: a abertura dos mercados protegidos pela UE, Japão e Estados Unidos; e a desmistificação dos argumentos que associam o açúcar à obesidade. “Faça exercícios para reduzir a obesidade, mas consuma açúcar, que é importante para a saúde”, ironiza Carvalho.

Pelos ânimos demonstrados no fim de 2004, é possível perceber que não vai faltar açúcar para sustentar o crescimento do setor – e nem energia para brigar por novos mercados. Antes mesmo de começar, a safra 2005/06 já promete.


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