Reportagem de Capa Edição 89 de Janeiro/Fevereiro
de 2005
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Central agroenergática
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| A entrada em vigor da mistura de biodiesel
ao diesel de petróleo abre uma nova oportunidade para as usinas.
Algumas unidades já estudam implantar plantas para fabricação
do combustível e se transformar em centros produtores de energia
e alimentos.
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| Planta de biodiesel e destilaria de álcool:
sinergia semelhante à existente no setor de petróleo |
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Ao simplesmente abastecerem seus veículos,
os proprietários de automóveis ou caminhões movidos
a diesel derivado de petróleo podem ser considerados, desde
de fevereiro, personagens importantes da nova fase que o setor de
energia brasileiro espera iniciar com a determinação
do Governo de misturar 2% de biodiesel ao combustível. Antes
mesmo do uso comercial alcançar escalas expressivas, o país
já planeja se transformar no maior fabricante mundial do novo
produto, que tem origem renovável e terá demanda para
suprir necessidades de outras nações.
Assim como ocorrera com o álcool em 1975, o biodiesel é
a aposta do Governo brasileiro para reduzir a dependência dos
combustíveis derivados de petróleo. Já no estágio
inicial, o produto pode significar uma economia expressiva para o
Brasil, que importou no ano passado 17% do diesel consumido internamente.
Com o novo combustível misturado, o país pode deixar
de gastar cerca de US$ 160 milhões. "Agora em 2005, iríamos
importar 4 bilhões de litros. Com esse programa, nós
vamos poupar, vamos utilizar 800 milhões de litros de origem
vegetal", calcula a ministra de Minas e Energia, Dilma Roussef.
A abertura do mercado de biodiesel é modesta inicialmente,
mas com projeções futuras muito promissoras. Um levantamento
realizado pela Agência Internacional de Energia (AIE) indica
que dentro de 15 anos os biocombustíveis poderão representar
30% do mercado mundial de combustíveis utilizados para abastecer
veículos.
Facultativa no princípio, a adição de 2% ao diesel
será obrigatória daqui a dois anos - em 2012, a mistura
sobe para 5%. Até lá, o produto, já utilizado
comercialmente nos Estados Unidos e em países da Europa, também
deve ser requisitado para exportação.
O Ministério de Minas e Energia estima que 1 tonelada de biodiesel
evita a produção de 2,5 toneladas de CO². Com o
produto, o Brasil pretende abocanhar fatias do mercado norte-americano
e de alguns países europeus. Uma lei ambiental regulamentada
na União Européia estabelece que, até 2010, 20%
dos veículos do continente serão obrigados a usar combustíveis
renováveis. Embora fabricante de biodiesel, o continente não
possui espaço para cultivo e nem disponibilidade industrial
para produzir os volumes necessários, cerca de um bilhão
de litros por ano.
Além de condições naturais favoráveis
e vantagens comparativas e competitivas, o Brasil tem no histórico
a experiência de ter se transformado na maior potência
tecnológica para produção do combustível
proveniente da cana. O país busca agora repetir a conquista
com o biodiesel e garantir os mercados já anunciados.
Com produção anual de 20 milhões de litros de
biodiesel por ano, o Brasil precisa ampliar rapidamente a capacidade
instalada se quiser garantir vida longa ao combustível no mercado.
Já se especula que ao menos US$ 40 milhões são
estritamente necessários. Mas, de olho nas possibilidades comerciais,
empresários estariam dispostos a empregar US$ 100 milhões
a curto prazo em tecnologias de fabricação do produto
e plantio de oleaginosas. |
| Caio carvalho: evolução natural |
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Corrida pelo domínio da tecnologia
O sistema de fabricação do biodiesel já é
amplamente conhecido no mundo, mas a produção é
realizada através de transesterificação metílica,
que usa o metanol, combustível poluente, como substância
reagente. Há mais de 14 anos pesquisando para gerar o biodiesel
renovável, o Brasil quer ser visto mundialmente como grande
detentor da tecnologia reconhecida como rota etílica - neste
processo, o álcool é catalisado na mistura com o óleo
de oleaginosas.
O domínio desta tecnologia representaria mais do que o controle
sobre uma poderosa opção ante uma possível crise
de preços e escassez do petróleo. Este know-how poderia
atrair ao Brasil cerca de R$ 50 bilhões. Se houver uma
política pública adequada, com certeza o Brasil poderá
se transformar na Arábia Saudita verde do mundo", acredita
o professor Miguel Dabdoub, coordenador do projeto Biodiesel Brasil,
desenvolvido na USP (Universidade de São Paulo) - campus Ribeirão
Preto (SP).
Seria, como o próprio presidente Lula já conclamou,
um novo Proálcool, mas com duas diferenças básicas:
o Brasil já possui hoje a tecnologia e o conhecimento que usou
para desenvolver e promover nacional e internacionalmente o álcool
ao longo de 30 anos; o combustível não precisará
de subsídios do Governo para ser produzido.
Mais do que uma nova fase para o setor energético brasileiro,
a entrada do biodiesel no mercado pode significar também uma
nova fase para o segmento sucroalcooleiro, mas não apenas porque
se abre mais um mercado para o álcool. Empresários do
setor já estudam transformar as usinas de açúcar
e álcool em unidades produtoras de energia, combustíveis
e alimentos, por meio da integração das cadeias produtivas
de grãos e cana-de-açúcar.
O projeto prevê a unificação de dois importantes
potenciais de produção brasileiros - grãos e
álcool para oferecer ao mundo uma solução
máxima de competitividade em biocombustíveis. A
palavra mágica é sinergia. Isso já existe no
setor de petróleo, que, do produto bruto, gera diesel e gasolina.
Hoje as usinas fazem álcool e energia e será uma evolução
natural produzirem biodiesel, aponta o Presidente da Câmara
Setorial de Açúcar e Álcool do Ministério
da Agricultura e do Abastecimento, Caio Carvalho.
Além de fabricar o próprio álcool necessário,
o setor também adquiriu, através do processo de rotação
de culturas, conhecimento suficiente para produzir oleaginosas, precisando
apenas otimizar as instalações agrícolas e industriais
existentes para gerar o biodiesel em larga escala. Em cerca
de 20% dos canaviais são plantadas oleaginosas durante a rotação.
O setor já tem esse conhecimento, frisa Carvalho. |
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