Reportagem de Capa Edição 90 de Março
de 2005
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O calor da globalização
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| Para manter competitividade num mercado cada
vez mais exigente, usinas brasileiras estão adequando qualidade
à produção; tecnologia de caleagem a quente ressurge
no país como ferramenta para evitar perdas e reduzir custos.
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| Dosagem do leite de cal na tubulação
de caldo aquecido pré-decantação: menor
necessidade de adição de cal |
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Os reflexos da ainda não confirmada vitória
obtida pelo Brasil sobre a União Européia na OMC (Organização
Mundial do Comércio) contra os subsídios para a produção
do açúcar já começam a demandar mudanças
dentro das fábricas de açúcar nacionais
processo também requerido pelo mercado interno, considerado
cada vez mais exigente.
O rigor dos mercados exige uma procura incessante pela melhoria da
qualidade dos produtos e reclama mudanças nos processos de
produção. Neste novo conceito, os ganhos de escala também
conduzem a reduções de custos. Se a competitividade
é o principal combustível da globalização,
a adição de qualidade à produtividade torna-se
o desafio das usinas açucareiras.
Embora possa ser usado para fins variados, a principal utilidade do
açúcar hoje é adoçar bebidas e alimentos.
Carboidrato, o produto cumpre uma função essencial ao
organismo humano ao proporcionar calor e energia. As usinas
hoje não podem se preocupar apenas com quantidade de produção.
Já têm perfil de indústrias de alimentos,
destaca o coordenador de processo e microbiologia da Fermentec, Alexandre
Godoy.
A produção de açúcar que comungue qualidade
a preços vantajosos está condicionada a um conjunto
de variáveis que interferem no processo de fabricação:
qualidade na matéria-prima, tratamento eficiente de caldo (sistema
de preparo de leite de cal), controles automáticos de pH e
temperatura dos caldos, sistema de decantação rápido
com controle de dosagem de polímeros e extração
de lodo, sistema eficaz de filtração, entre outros.
O processo de clarificação, por ser um importante removedor
de impurezas, também se insere neste contexto, porque há
normas padrões que determinam a cor ideal para comercialização
do açúcar. Uma tecnologia pesquisada nos Estados Unidos
e testada no Brasil no ano passado promete resultados interessantes
neste procedimento.
Durante cinco anos, de 1995 a 2000, a pesquisadora Gillian Eggleston,
do United States Departament of Agriculture (USDA-EUA), conduziu uma
série de estudos sobre a aplicação de calagem
a quente (101ºC) em três fábricas do estado de Lousiana.
Os resultados são animadores. Quando a pesquisa começou,
apenas uma das 19 usinas locais operava com a tecnologia. Hoje, 85%
das unidades aderiram ao novo sistema no mundo inteiro, a calagem
intermediária (82-93ºC) é predominante no processo
de clarificação.
A calagem a quente foi experimentada pela primeira vez na década
de 60 nas Ilhas Maurício. O método recomenda a dosagem
de cal no caldo após o aquecimento no balão de flash,
antes do decantador. A tecnologia surgiu como importante ferramenta
para as usinas da Lousiana, que estão instaladas em um estado
com condições climáticas favoráveis ao
aparecimento de impurezas vegetais na cana e baixo grau de maturação. |
| Gillian: perda de 0,8% de sacarose nos EUA
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Menos perdas
O estudo de Gillian Eggleston foi baseado em uma investigação
comparativa entre a clarificação a quente versus a
intermediária e o procedimento a frio com cal em uma fábrica
para a produção de açúcar bruto.
Na calagem a frio, o caldo misto foi incubado por oito minutos e
então caleado num tanque por mais quatro minutos, ambos a
~ 40,5ºC. Para a clarificação intermediária,
50% do caldo misto foi aquecido antes da incubação
também de oito minutos. Depois, foi caleado em um
tanque por quatro minutos a 65,5ºC.
O procedimento a quente foi executado similarmente, mas o tempo
de incubação foi elevado para 12 minutos e a cal adicionada
após o flasheamento. No total, ambos, calagem a quente
e intermediária, foram melhores do que a calagem a frio,
relata a pesquisadora.
Além disso, Gillian Eggleston também concluiu que
a calagem a quente ofereceu algumas vantagens extras em relação
à intermediária, como a menor necessidade de adição
de cal. A fábrica consumiu, na média da safra, 0,46
kg de cal por tonelada de cana, enquanto a calagem intermediária
demandou 0,58 kg cal/ton para o período prévio de
moagem.
O estudo também revela que pré-aquecendo 50% do caldo
misto na calagem a quente ou na intermediária, removeu-se
consistentemente a cor, dextrana e amido, mas os níveis de
silicato não foram significativamente alterados. O
pré-aquecimento do caldo misto criou flocos maiores, que
removeram as impurezas mais rapidamente. Somente 30% de pré-aquecimento
são necessários para melhorias, descreve Gillian.
Segundo a pesquisa, os maiores flocos e a formação
mais rápida ocorreram na calagem intermediária, mas
a maior remoção de turbidez foi verificada nos dois
processos, com melhor controle em relação ao procedimento
a frio. Claramente menos cor foi formada e a remoção
de dextrana foi melhor através da calagem a quente,
informa a pesquisadora norte-americana.
Menos sacarose foi eliminada através dos processos de calagem
a quente por safra, a perda registrada foi de 0,8%, um pouco
superior à taxa vista com a intermediária, de 1%.
O maior índice de perdas foi constatado pelo procedimento
a frio, responsável pelo não aproveitamento de 1,5%.
Pelo uso da calagem a quente, somente a redução
nas perdas de sacarose levou a uma economia de US$ 283 mil por fábrica
sobre a calagem a frio, observa Gillian.
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