Reportagem de Capa – Edição 90 de Março de 2005
O lixo para fora
Com crescimento da colheita mecanizada e necessidade de aumento da capacidade de moagem, usinas começam a demonstrar maior interesse por tecnologia de limpeza de cana a seco.

Sistema de limpeza a seco implantado na usina Quatá: mais sacarose no final do processo
Metade das 1,5 milhão de toneladas de cana processadas pela usina Jalles Machado na safra 2004/05 foram colhidas mecanicamente. Por questões prioritariamente ambientais, a unidade está expandindo a prática, mas a eliminação de alguns empregos no campo não tem sido a única restrição intrínseca à modernização do corte. Picada e crua, a matéria-prima que chega na indústria carrega consigo uma quantidade maior de impurezas, tanto vegetais como minerais, o que limita a quantidade de sacarose concentrada no caldo extraído durante o processo de moagem.

A lavagem da cana surgiu para a Jalles Machado como a solução mais óbvia ao problema, mas a hipótese foi prontamente descartada, porque esbarrou em duas restrições. “Lavando com água também teríamos perda. E precisamos direcionar a água para a tecnologia de irrigação, necessária às lavouras de Goiás”, justifica o gerente industrial da usina, Ricardo Steckelberg.

A unidade estuda agora a implantação de uma técnica de limpeza de cana a seco, que, embora pesquisada no Brasil há mais de uma década, ainda alcança um universo limitado de usinas. Esta tecnologia de separação das impurezas deve ganhar em breve, porém, mais espaço no ambiente sucroalcooleiro.

Segundo os especialistas, esta deve ser uma conseqüência do avanço da colheita mecanizada no Brasil, que na temporada passada já foi responsável pelo corte de 38% da produção nacional – e deve aumentar ao longo dos anos. A matéria-prima picada possui mais áreas de atração de impurezas. “Se a usina for lavar a cana picada, a perda de açúcar será de uma proporção equivalente a 5%. Lavar cana picada é proibitivo”, assinala o coordenador de P&D do CTC (Centro de Tecnologia Canavieira), Paulo de Tarso Delfini.

Uma tonelada de cana-de-açúcar possui, em média, 150 quilos de sacarose – 2% deste volume pode ser perdido no procedimento de lavagem da cana. Entre 4% e 6% também são eliminados durante o processamento da cana na moenda ou no difusor.

Com a tecnologia de limpeza a seco, parte dessas perdas pode ser evitada – as proporções, entretanto, não estão quantificadas. Dois fatores são determinantes para a obtenção desse resultado. Quando a usina remove a impureza vegetal (palhiço), este material fica impedido de “roubar” sacarose do caldo durante o processo de extração. Mais importante para o sucesso da empreitada é o aumento da capacidade de moagem da indústria.
Separação de impureza mineral: até 70% de eficiência

Por excluir a necessidade de processamento do palhiço, a tecnologia permite que a usina diminua o tempo de moagem e ajuste a safra para um período maior de maturação de cana, o que renderá maior concentração de sacarose. “Com isso o pol médio do material processado vai ser mais alto”, garante o pesquisador do CTC.

Embora os resultados possam parecer promissores, o sistema, pesquisado inicialmente em Cuba, é complexo e possui duas vertentes. É aplicado por meio de um processo de sopragem ou por ação mecânica. A primeira opção promove a separação das partículas vegetais e a outra remove as impurezas minerais.

O sistema de ventilação foi desenvolvido pelo CTC, antiga Copersucar, em parceria com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). A técnica empregada é semelhante ao túnel de vento utilizado para testar aviões. Já a ação mecânica é realizada em separadores ou em mesas com fundo furado, que fazem revolvimento do material para obter a separação de partículas.

Ambos os processos retiram o resíduo sólido e entregam a cana limpa na moenda ou no difusor. Hoje, o sistema permite, segundo cálculos do CTC, eficiência de no máximo 70% de separação de impureza mineral e vegetal.

A primeira versão do projeto foi instalada há 12 anos na usina Quatá. O sistema até hoje já passou um conjunto de aperfeiçoamentos. Embora esteja disponível no mercado há mais de uma década, hoje, menos de 20 usinas têm o equipamento implantado.

Uma das unidades que já aderiu ao sistema de limpeza a seco é a Guarani - Cruz Alta, de Olímpia – a usina implantou no ano passado um processo de ventilação semelhante ao desenvolvido pela Copersucar. “A tecnologia vai ao encontro do que se está procurando em economia de água, proibição de queima da cana e preocupação com o meio ambiente”, justifica o chefe de controle de processo da usina, Adalberto Voltarelli.

Além da restrição já mencionada imposta pela mecanização, o crescimento do uso da tecnologia pode ser determinado pela necessidade de aumento da capacidade de moagem. As usinas enquadradas neste contexto seriam, para Delfini, as unidades mais propensas a adquirir um sistema de lavagem a seco.

Quando a usina está operando no limite da capacidade, cada tonelada de palhiço que passa na moenda representa menos uma tonelada de cana a ser moída. Além disso, o teor de fibra deste material é maior se comparado ao verificado na cana,o que pode derrubar ainda mais a capacidade de moagem. “A usina não deixa de moer só aquela tonelada, deixa de moer mais um pouco. É o efeito dessa fibra no comportamento da moenda”, argumenta Delfini.

Testes realizados pelo CTC compararam o desempenho de duas moendas, com condições operacionais similares, que processaram cana crua (7% de palhiço) e cana queimada (1% de palhiço). “Nessa situação em todos os testes observamos queda média de 10% na capacidade no equipamento que moeu o palhiço”, conta o coordenador de P&D do CTC.

O custo de implantação da tecnologia de limpeza a seco está condicionado ao porte e às características operacionais de cada unidade. De uma maneira geral, é considerado alto – os investimentos variam de acordo com a necessidade de cada usina. Mesmo assim, defende o CTC, o volume de recursos aplicado ainda representa um gasto do que demanda a aquisição de novos equipamentos para aumentar a capacidade de moagem.


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