Edição 93 de Junho de 2005
Produtividades no faturamento
Projeções positivas para o setor sucroalcooleiro provocam uma corrida dos fornecedores por maior participação no mercado de herbicidas. Para atrair usinas e produtores, várias estratégias comerciais já sendo apresentadas
O mercado de herbicidas para cana movimenta anualmente US$ 300 milhões
A cana-de-açúcar é hoje, atrás apenas da soja, o segundo maior mercado de atuação da fornecedora de defensivos agrícolas FMC. Da cultura, a empresa tira 26% do seu faturamento total, o que corresponde a US$ 48 milhões. Em três anos, segundo projeções reveladas pelo gerente de negócios, José Ovídio Bessa, este volume deve chegar a US$ 60 milhões. “Atualmente somos o segundo maior fabricante de herbicidas para o setor sucroalcooleiro do Brasil, mas traçamos um planejamento para alcançar a liderança de negócios até 2008”.

As perspectivas da FMC estão embasadas nas projeções de crescimento vislumbradas para a cadeia canavieira nacional, que vai desfrutar de demandas volumosas por açúcar e álcool. A área de cana plantada, que nesta safra ocupa 6,2 milhões de hectares, crescerá 50% em 10 anos. O mercado de herbicidas para cana movimenta US$ 300 milhões.

Haverá, portanto, um aumento natural nos negócios para o combate das já conhecidas plantas daninhas que prejudicam a produção canavieira. “Os problemas atuais vão crescer com o aumento da área plantada e muitos deles ainda precisam de soluções trabalhadas. Além disso, não podemos descartar a possibilidade de surgimento de novos inimigos da plantação”, prevê o gerente de marketing para cana-de-açúcar da Dupont, José Eduardo Ferreira Silva.

As estatísticas do controle de plantas daninhas nos canaviais demonstram que o fornecimento de soluções é um negócio lucrativo. O combate ao problema representa hoje cerca de 50% do valor investido em tratos culturais de cana planta e mais de 25% do mesmo custo quando o tratamento é aplicado a situações de cana seca – a aplicação de adubos e herbicidas soma 12% do volume empregado na produção.
Segundo o pesquisador Pedro Jacob Christofoletti, professor da Esalq/USP a planta daninha pode comprometer de 0 a 86% da produtividade do canavial. “A negligência no controle certamente corresponde a prejuízos”, disse recentemente em palestra realizada em um Simpósio Técnico promovido na cidade de Piracicaba (SP). “Os preços remuneradores tanto para açúcar quanto para álcool já estão incentivando investimento em busca por produtividade, o que um adequado controle químico de daninhas pode oferecer”, completa o gerente de contas especiais da Dow Agrosciencies, Ronaldo Campos.

Competitividade


Para explicar como a cana tornou-se o centro das projeções de novos negócios, ao horizonte promissor do setor sucroalcooleiro também junta-se o péssimo desempenho dos resultados econômicos referentes a relacionamentos comerciais com o segmento da soja em 2005, principal cultura trabalhada pela maior parte de fornecedores de herbicidas.

Além dos planejamentos já elaborados com antecedência pelos principais fabricantes do mercado, algumas empresas de menor porte reposicionaram suas estratégias para compensar na cana parte do recuo verificado nas culturas de grãos. “O cenário traçado para o mercado sucroalcooleiro está atraindo concorrentes oportunistas”, identifica o gerente da Dupont.

Já acirrada, a competitividade no campo dos defensivos agrícolas está mais acirrada – e, obviamente, o principal beneficiado é o consumidor. “Isso é muito positivo. Haverá maior investimento em pesquisas, novos produtos e soluções para as necessidades dos produtores de cana brasileiros”, aponta o engenheiro agrônomo Oswaldo Alonso, consultor técnico da Canaoeste.

Estratégias

Comprovam o raciocínio do especialista as estratégias de mercado programadas pelas fornecedoras para aumentar a participação nos negócios do segmento. Para alcançar a liderança do ranking nacional, a FMC aposta no lançamento de dois produtos ainda em 2005: o Discover, para aplicação em épocas secas e o Aurora versão cana, produto multi-uso já aplicado em soja, algodão, milho e citrus.

A FMC não é a única a elaborar planejamento de crescimento. A Bayer também anuncia aumento da participação no mercado canavieiro, que rende à empresa 8% do seu faturamento - a multinacional, que prefere não divulgar valores, pretende elevar este percentual para 12% em dois anos.

Investe, portanto, no estudo de soluções para plantas daninhas que afetam a cana. “Muitas usinas hoje desconhecem a profundidade de alguns problemas. Oferecemos estas informações e sugerimos a nossa proposta de controle ”, explica o gerente para cana-de-açúcar, Humberto Calharini.

Uma pesquisa concluída recentemente identificou que a incidência de capim-colchão está ganhando espaço nos canaviais, sobretudo porque a planta resiste à ação de alguns herbicidas – as perdas podem atingir até 90% da produtividade. O tema virou tese de mestrado de Christofoletti, que avaliou o desempenho dos produtos Sencor e Provence, ambos da Bayer, no controle do problema.

De acordo com Calharini, tanto na forma isolada como em mistura, os herbicidas controlaram 100% da infestação de capim-colchão. Está sendo desenvolvida, agora, na Unesp de Botucatu (SP), uma tese de doutorado que analisa a ação dos dois produtos quando aplicados no palhiço da cana. Com os resultados, aliados a investimentos no atendimento, reitera o gerente, a empresa espera conseguir o crescimento projetado.

O reforço nos trabalhos técnicos desenvolvidos nas principais regiões canavieiras é o principal foco da Dow Agrosciencies para disputar o mercado, que atrai US$ 32, 4 milhões para a empresa todo ano – os atuais 9% de importância na receita da fornecedora se transformarão em 13% no fim deste ano, estima Campos. “Estamos acompanhando o crescimento do setor sucroalcooleiro”.

A Dow espera alcançar o objetivo concentrando equipes em oito cidades que considera chave, todas em São Paulo: Ribeirão Preto, Jaú, Rio Claro, Piracicaba, Araçatuba, Rio Preto, Assis e São Joaquim da Barra. A equipe da empresa compreende hoje oito promotores de vendas, mas deve ser elevada em 50% brevemente, com a contratação de mais quatro técnicos.

Embora também invista em pesquisa de novas moléculas e proximidade com o cliente final, a Dupont utiliza o marketing como uma ferramenta adicional de convencimento do setor. Adiantada, a empresa lançou em 2003 a Campanha Energia Brasileira que tem como carro-chefe um rallye de regularidade entre participantes das usinas parcerias comerciais da fabricante. O objetivo declarado do projeto é a divulgação do álcool como combustível renovável.

Nem a própria empresa apostava, quando lançou a idéia, confessa o gerente de marketing, que a repercussão da campanha seria tão positiva. O Rallye da Energia Brasileira já está consolidado no calendário de eventos da agroindústria canavieira nacional. Este ano será realizado em dezembro e terá 60 carros participantes, quase o dobro dos competidores da primeira edição, que somou 35 concorrentes.

O local e os dias de realização do evento serão divulgados em agosto pela Dupont, que faz um certo mistério sobre a Campanha de 2005. “São surpresas que estamos preparando”, diz Ferreira Silva. O anúncio oficial será feito no evento Cedutec, promovido há 10 anos pela empresa, mas que também não teve o local revelado. O gerente adianta apenas que o foco será na gestão de pessoas, a importância do profissional enquanto ser-humano. “Estas iniciativas contribuem para a imagem do setor, das usinas e do país. E, claro, os negócios são uma conseqüência”.

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