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Edição 95 de Agosto de 2005
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Gerenciamento Espacial
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| Os recursos oferecidos pelo sensoriamento
remoto, tecnologia de análise dos canaviais a partir de imagens de
satélite, pode otimizar o tempo, a produtividade e os recursos financeiros
das usinas |
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O recente boom da indústria canavieira tem estimulado
um inédito movimento de instalação de novas usinas no Brasil – há
pelo menos 40 projetos anunciados ou já em fase de construção. Os
principais locais privilegiados com a implantação de novos empreendimentos
são Minas Gerais, a região Noroeste de São Paulo, sobretudo na área
de abrangência de Araçatuba, e até o Rio de Janeiro.
Mas a escolha destes Estados não foi aleatória, priorizou critérios
que avaliaram as oportunidades de investimentos em áreas propícias
para o negócio da cana. A identificação dessas possibilidades foi
resultado do uso pioneiro de uma tecnologia, o sensoriamento remoto,
que observa a superfície terrestre por imagens de satélites.
O trabalho, coordenado pelo CTC (Centro de Tecnologia Canavieira),
examinou o uso dos terrenos e as culturas plantadas em determinadas
regiões. Os técnicos buscaram informações sobre quanto tinha de cana,
de pastagem e de cultura anual cultivadas nos locais estudados, que
foram mapeados. As pesquisas ainda analisaram a rede hidrográfica,
as condições de rodovias para o escoamento da produção, os tipos de
solo, análise de relevo apto à colheita mecanizada e os dados climáticos
das áreas estudadas.
A elaboração de mapas de uso do solo é apenas uma das vertentes dos
estudos do sensoriamento remoto. O conceito da tecnologia baseia-se
na coleta de informações de um objeto sem a necessidade contato físico
com ele. A energia emitida pelo sol ao incidir sobre um determinado
objeto é refletida e a informação captada pelo sensor. A energia eletromagnética
proveniente de cada objeto é transformada em um sinal passível de
ser registrado e visualizado na forma de mapas – interpretados através
de softwares. É possível instalar em plataformas terrestres (tratores
e guindastes), em plataformas suborbitrais, (aviões e aeromodelos),
e em plataformas orbitais (satélites). “O sensor busca variações espectrais,
de reflectância da energia emitida. Busca variações de ‘cores’ entre
o objeto pesquisado “, explica o pesquisador José Alexandre Demattê,
professor da Esalq, em Piracicaba.
Utilizado para fins agrícolas, sensoriamento remoto é uma metodologia
auxiliar para facilitar a identificação de desordens que prejudicam
a produtividade em diferentes locais das lavouras. “ As informações
possibilitam um melhor gerenciamento da cultura”, diz o pesquisador
Jorge Luiz Donzelli, gestor de P&D do CTC.
Desenvolvimento brasileiro
Os países mais evoluídos nas pesquisas sobre o sensoriamento remoto
são o Japão, os Estados Unidos, a Índia, o Canadá e algumas nações
da Europa.
O Brasil vem investindo na área de sensoriamento remoto desde o início
da década de 70, com grande interesse do Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (MCT/Inpe).
Além do uso de imagens do satélite Landsat – o mais comum na agricultura,
o país também já demonstrou sua capacidade científico-tecnológica
ao, em parceria com a China, desenvolver, construir e manter sensores
e satélites, como os CBERS-1 e 2, situando-se entre os oito países
mais avançados neste setor.
“A tecnologia espacial é estratégica para um país de características,
recursos e dimensões como o Brasil e, para manter-se na posição já
conquistada é necessário estimular o programa espacial brasileiro
em constante crescimento, a fim de não nos distanciarmos demais dos
paises mais avançados”, acredita o pesquisador titular do Inpe, Antonio
Roberto Formaggio, da Divisão de Sensoriamento Remoto.
Em função da grande extensão e da dinâmica espaço-temporal da atividade,
que propicia condições favoráveis para o uso de sensores orbitais,
o setor canavieiro pode ser um dos maiores beneficiados com o uso
do sensoriamento remoto por satélites.
O oferecimento de informações detalhadas, precisas e em tempo quase-real
para o processo de tomada de decisões é interessante ao setor. “A
cana é a cultura mais avançada nesta tecnologia, porque sempre trabalhou
com experimentação. Além disso, hoje as usinas estão ávidas para melhorar
pequenos detalhes que existem para aumentar a produtividade”, acredita
Demattê.
Hoje, acreditam os pesquisadores, cerca de 10 usinas já utilizam a
tecnologia para obter melhorias no processo produtivo. Nenhuma, porém,
promoveu investimentos na compra de softwares avançados ou equipamentos
mais modernos, utilizam a infra-estrutura oferecida pelo CTC, que
pesquisa o sensoriamento há mais de 10 anos, para iniciar os procedimentos
técnicos exigidos pela técnica.
É o caso da Usina São José da Estiva, que em 2005/06 está completando
a terceira safra com respaldo do sensoriamento remoto. No momento,
a unidade utiliza as imagens de satélite para identificar foco de
pragas, sobretudo migdolus, nos 15 mil hectares de cana plantada.
A usina faz imagens de satélite da área em três períodos distintos
do ano: início, meio e fim da safra. Os resultados são cruzados com
informações dispostas em um banco de dados e os talhões atingidos
por focos da praga são visitados por profissionais do campo. Não há
a indicação de que problema ou tipo de praga está afetando a produção.
“Com a verificação do ponto certo de ataque, aplicamos o inseticida
apenas nas áreas necessárias. Temos redução de custo e menor agressão
ao meio-ambiente”, conta o gerente agrícola da Estiva, Júlio Araújo.
Para esta identificação são usadas imagens de satélites, como o Landsat,
o Spot, o CBERS, além de séries históricas e dados de campo. Hoje
o mais viável é identificar que há problemas, mas apontar exatamente
qual é a anomalia ainda não é possível.
O satélite registra o dado e é preciso um técnico especializado, com
apoio de uma equipe de campo, discernir o que significa a informação
transmitida. “A partir do momento em que o satélite registra a cana-de-açúcar,
tudo o que fugir do padrão considerado ‘normal’ de registro pode significar
algum tipo de problema, mas para saber qual é preciso ir no campo”,
detalha Donzelli.
Os sensores do satélite normalmente são separados em duas partes:
a visível; e o infravermelho, baseado na emissão de calor, informação
que o olho humano não consegue captar. Todo organismo emite uma radiação
de calor que fica registrada nesse sensor termal. Quando não tem um
organismo emitindo calor na superfície terrestre, isso aparece como
uma anomalia na imagem que é registrada pelo satélite.
No caso das plantas, os problemas são identificados se a massa vegetal
foi prejudicada e existe uma menor emissão da superfície. Com essa
informação, com sistema de dados do campo pesquisado previamente,
é possível reconhecer além da presença de pragas, deficiências de
fertilização, doenças, idade da planta, tipo de variedade e existência
de compactação.
Manejo
O satélite registra pixels da imagem. O mais comum utilizado hoje
em agricultura mede uma área de 30 por 30 metros – é a menor unidade
de informação que o satélite capta. Já há modelos mais avançados,
ainda não usados nesta atividade, que registram até 60 por 60 centímetros.
Com esta riqueza de detalhes, além dos focos de pragas, as imagens
de satélite podem auxiliar o produtor a identificar áreas onde a fertilização
está sendo aplicada de maneira incorreta. Hoje este tratamento é realizado
de maneira homogênea, com taxas iguais para todas as zonas dos talhões.
É a união do sensoriamento remoto com a tecnologia de agricultura
de precisão.“A gente não toma remédio para o corpo inteiro se está
com problema apenas na perna. Com a cana tem que ser assim também”,
recomenda Araújo, da São José da Estiva, que já faz aplicações em
taxas variadas.
O uso de dados de satélites para agricultura de precisão pretende
evoluir agora para a elaboração de mapas que quantifiquem cada elemento
químico está presente no solo. O Brasil está desenvolvendo conhecimentos
e metodologias envolvendo dados de satélites de última geração como
é o caso do satélite EO-1 (Earth Observing-1), que carrega o sensor
Hyperion, cujos dados são classificados na categoria dos hiperespectrais.
“Estes dados permitem vislumbrar a possibilidade de estimar componentes
das culturas agrícolas como nitrogênio, proteínas, lignina, pigmentos,
etc., através de imagens de sensoriamento remoto, ou seja, a geração
das informações de manejo de forma espacializada”, afirma Formaggio.
Outra demanda das pesquisas com sensoriamento remoto é evoluir para
a estimativa de produção dos talhões durante os períodos de pré-colheita
– é um estudo ainda em fase inicial. As primeiras descobertas apontam
que o sensor infravermelho indica que quanto maior a massa vegetal
presente em determinada área, maior a intensidade do valor de um pixel
(de 0 a 256 tons de cinza).
“Dependendo do valor numérico dessa emissão, é possível associar ao
valor de produção de tonelada por hectare. Atualmente, as previsões
atingem 60% a 65% de acerto. Mas este tipo de utilização do satélite
tem muito a evoluir, ainda estamos na infância desta vertente”, define
o pesquisador do CTC, Donzelli.
O estudo do cálculo da biomassa é aguardado com ansiedade pelas usinas,
que, de posse destas informações, poderão pautar fatores econômicos
como preços, quantidades produzidas para consumo interno e volumes
exportáveis. Hoje o preço do açúcar e do álcool, escreve Formaggio,
movimentam cifras de vários algarismos e têm seus valores determinados
muito mais pelo chamado “mercado global” do que por qualquer lógica
referente ao custo de produção ou eficiência produtiva local.
“Com estes dados será possível calcular a produção e estimar precisamente
a comercialização. Este é o ponto de evolução mais interessante da
tecnologia”, indica Araújo.
Custos e treinamentos
Embora as possibilidades de uso da tecnologia sejam diversas, o pesquisador
José Alexandre Demattê aponta que para evoluir mais o sensoriamento
remoto precisa ser plenamente compreendido pelos profissionais que
vão utilizá-lo. “O treinamento é a parte principal, saber usar a tecnologia
é fundamental. Estamos treinando os estudantes de agronomia, que vão
operar tudo no futuro”.
Outra questão que pode definir a popularização do sensoriamento remoto
no setor sucroalcooleiro é o custo da tecnologia, que demanda pagamento
de imagens de satélites e aquisição de modernos sistemas de software.
“Acredito que estes custos cairão pouco a pouco, mas temos que ter
em mente que a redução de recursos proporcionada é bastante significativa.
Às vezes as usinas investem muito dinheiro em outros equipamentos
que não trazem uma relação custo-benefício tão interessante”, defende
o gerente da Usina São José da Estiva.
Os avanços das pesquisas do sensoriamento remoto em geral, mas principalmente
o orbital, têm surpreendido pela rapidez e devem prosseguir esta trajetória.
Os primeiros experimentos mostram que o setor sucroalcooleiro, desde
que conscientizado das possibilidades, vai usufrui muitos benefícios
provenientes da tecnologia.
”Mais usinas vão usar. Pelo menos todas aquelas que buscam um diferencial,
que querem menores custos e produtividade”, acredita o agrônomo Luciano
Moraes Neto, diretor agrícola da Usina Santo Ângelo, que está iniciando
um trabalho de correção do solo a partir da análise de imagens de
satélite. |
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