Edição 95 de Agosto de 2005
A hora é agora!
Conjunto de caldeiras da Usina Santa Adélia: portaria oferece às usinas garantias de comercialização
Energia gerada via bagaço de cana reivindica entrada na matriz energética nacional – que parece estar próxima
O diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman, liderou, em agosto, uma comitiva de empresários, entre os quais executivos da Petrobras e da CPFL, durante uma visita a região de Sertãozinho, onde conheceram as fábricas da Dedini, da TGM, e a Central Elétrica da Usina Santa Adélia.

Pouco tempo antes, esteve nas mesmas empresas a então ministra de Minas e Energia, Dilma Roussef. Ao organizar os encontros, o setor sucroalcooleiro iniciou uma estratégia de promoção e divulgação da energia gerada via biomassa de cana, para viabilizar a entrada do produto na matriz elétrica nacional.

“O maior obstáculo que encontramos é o desconhecimento do potencial de agregação de valor que a energia cogerada tem, principalmente pelos investidores e demandantes de energia no Brasil”, afirma o vice-presidente executivo do Cogen (Associação Paulista de Cogeração de Energia), Carlos Silvestrin.

Da visita de Dilma Roussef resultou a determinação da portaria 384/2005, acerca da garantia física para a geração de energia por biomassa. De acordo com o assessor para assuntos de cogeração da Unica, Onório Kitayama, a medida é favorável e pode ser encarada como a primeira porta de acesso do setor sucroalcooleiro ao sistema elétrico nacional.

O setor pleiteia agora a complementariedade entre as fontes de energia no Brasil. “Mostramos ao Kelmann que a abertura da segunda porta depende dele”, complementou Kitayama. O diretor-geral da Aneel garantiu que a prioridade para o uso do gás natural não atrapalhará a inserção da biomassa na matriz nacional, porque há espaço para ambos. “É interessante usar uma fonte renovável e que não depende de gasodutos”.

Durante a visita, Kelmann também afirmou que a cogeração de energia elétrica a partir do bagaço de cana tem um potencial para oferecer até 4,5 mil megawatts (MW) ao sistema até 2008, o que representaria um volume 150% superior ao ofertado hoje pelo setor (2 mil MW).

Insistindo na tecla da complementariedade à hidroenergia, o setor demonstrou reservas ao aumento projetado pela Aneel. Um projeto liderado pela Cogen em parceria com a Unica prevê um incremento de oferta nominal de 1,5 mil MW pelas usinas instaladas em São Paulo, e com prazo maior: até 2010. “Os números apresentados pela Aneel são de grande potencial econômico e precisam de prazo maior”, descarta Silvestrin.

A associação também projeta que em cinco anos o potencial da bioeletricidade aumente dos atuais 8 mil MW para 12 mil MW. Parte desse volume, 1,5 mil MW ser ofertado no leilão de energia nova, previsto para dezembro deste ano.

Garantias

A publicação da portaria oferece às usinas garantias de comercialização do total ofertado. O documento especifica de que maneira as unidades devem se comportar para assegurar a oferta da energia co-gerada nos leilões futuros. Antes, o setor estava limitado a programas específicos, como o Proinfa. “Os empresários não tinham segurança que iam vender o volume produzido.

A portaria nos deu o selo, o crachá, para entrar no jogo”, acredita Silvestrin. A medida coincide com o desenvolvimento do Projeto “Inserção da Bioeletricidade na Matriz Energética”. O setor encara a iniciativa como a oportunidade de agregar valor ao terceiro produto da cana-de-açúcar, com a implantação de centrais de cogeração de energia a partir da biomassa, junto às instalações industriais de produção do açúcar e do etanol.

Segundo Kitayama, 2/3 das 400 milhões de toneladas de cana produzidas atualmente no Brasil são formados por bagaço e palha e, portanto, acabam desperdiçados. “Se agora a energia já é uma oportunidade de negócios, será mais ainda no futuro. Nenhum país produzirá tanta cana quanto o Brasil”.

Além de estimular os negócios sucroalcooleiros, o projeto pretende oferecer ao setor elétrico nacional uma alternativa renovável para um possível colapso do suprimento de energia elétrica, como o ocorrido há poucos anos. Alimentam as perspectivas negativas a queda nos índices pluviométricos, a redução dos níveis de água nos reservatórios das hidrelétricas e as privatizações do setor elétrico.

Segundo a Abesco (Associação Brasileira das Empresas e Serviços de Conservação de Energia), o consumo de energia elétrica no País vem crescendo em proporções superiores ao do PIB nacional, ao contrário do que se vê nos países desenvolvidos. Para crescer, o Japão precisa de quatro vezes menos de energia que o Brasil.

Dados divulgados pela Koblitz, empresa de consultoria em projetos de energia, indicam que o consumo de energia elétrica deve cresçer à taxa de 5,2% ao ano na próxima década, com uma meta de se ampliar a capacidade instalada de geração para 123.650 MW, até 2010. “Como conseqüência, haverá uma grande necessidade de novos projetos de oferta de geração de energia”, escreve o gerente comercial e de marketing da empresa, Romero Rego.
Bagaço de cana: matéria-prima assegurada
Diante desta demanda, os executivos sucroalcooleiros estão elencando e divulgando as vantagens da cogeração por biomassa para ganhar espaço no mercado. “A hora de nos apresentarmos como alternativa e ampliarmos o conhecimento dos investidores sobre a bioeletricidade é agora, momento em que o setor sucroalcooleiro está em expansão e há necessidade comprovada de diversificação da matriz energética”, sugere Silvestrin.

Vantagens

Além da oferta sustentada, com expansão da agroindústria canavieira em crescimento acelerado, a previsibilidade assegurada nas safras anuais e a sazonalidade definida (maio a dezembro) são apontadas como vantagens da bioeletricidade. “Somos a melhor alternativa para complementaridade com fontes hídricas, porque geramos energia no momento mais seco do setor elétrico nacional”, defende o assessor da Unica.

O próprio diretor-geral da Aneel reconheceu outra característica favorável: distribuição espacial definida, com oferta potencial de bioeletricidade no principal centro de carga do sistema elétrico do Sudeste, o Estado de São Paulo.

O setor também dispõe de tecnologia nacional dominada e com capacidade de produção de equipamentos assegurada caso haja necessidade de expansão das linhas de produção. “Temos matéria-prima e know-how. O Brasil não tem potencial para grandes hidrelétricas e nem PCH, porque gera fio de água. Somos a melhor alternativa”, reitera Kitayama.

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