Edição 96 de Setembro de 2005
Socialmente Correto,
Comercialmente Necessário
Em processo de profissionalização, setor está trocando ações filantrópicas esporádicas por um engajamento social maduro. Bem para a imagem e para o orçamento – a sociedade também agradece
O Ministério Público está investigando as mortes de pelo menos 10 bóias-frias ocorridas neste ano em canaviais da região de Ribeirão Preto (SP). Aliciados pelos chamados “gatos”, os cortadores, migrantes do Maranhão, teriam procurado em São Paulo melhores salários. O que encontraram, segundo o órgão federal, foi um panorama de descaso, descumprimento de leis trabalhistas e condições precárias até de moradia e sobrevivência. Colegas dos trabalhadores rurais mortos atribuem as tragédias ao aumento da exigência por grandes produtividades diárias.

Embora haja evidências de maus tratos, os procuradores encarregados ainda não determinaram punições às usinas, mas enquanto o caso segue em investigação paira sobre o setor sucroalcooleiro uma negativa imagem perante a sociedade, da qual o segmento canavieiro não consegue se dissociar. “Não podemos generalizar para todo o setor uma visão provocada por erro de alguns. Temos muitos projetos sociais que beneficiam milhares de pessoas”, ressalva a consultora de responsabilidade social da Unica, Iza Barbosa.

Além dos reflexos imediatos da manutenção de 400 mil empregos diretos e 1,2 milhão indiretos, o setor produtivo brasileiro, principalmente o paulista, tem uma história de ação social junto aos seus colaboradores e à comunidade, defende a consultora. Segundo a Unica, são realizados em São Paulo atualmente mais de 400 projetos e atividades envolvendo mais de 114 mil pessoas, nas áreas de educação, habitação, meio ambiente, cultura, lazer e saúde – há ainda uma nova iniciativa, em parceria com o Instituto Banco Mundial, para estimular o conceito de gestão entre os diretores e gerentes de usinas.

No momento em que o setor vislumbra os mercados internacionais de açúcar e álcool, com perspectivas fantásticas de exportação, o segmento mostra sinais de amadurecimento e já sustenta exemplos concretos de gestão estruturada. Além de contribuir para o desenvolvimento da sociedade, a profissionalização proposta também quer demonstrar aos clientes estrangeiros que o know-how e a tecnologia na produção sucroalcooleiro convivem harmoniosamente com a sustentabilidade – o tripé formado por eficiência econômica, social e ambiental.

Produtos de qualidade e preços competitivos não garantem ao setor o visto de entrada para EUA e Europa. O mercado externo tem intensificado a imposição de barreiras técnicas a importações. As empresas que têm uma prática consistente de responsabilidade social são vistas com mais credibilidade. “Essa história de que nós produzimos comodities não existe mais. Se o mercado consumidor nacional já está atento a essas práticas, imagine o internacional”, pondera o consultor do Gerhai José Darciso Rui, gerente de recursos humanos da Usina Alvorada.

No atual contexto de globalização cobra-se transparência, a nova ordem mundial obriga as empresas a transpor as suas tradicionais fronteiras e envolver a sociedade ao seu redor. A responsabilidade social é, portanto, um critério de exclusão nas negociações comerciais. “Alguns clientes já exigem que mantenhamos projetos de cunho social e ambiental, principalmente todos os bancos e empresas internacionais”, confirma o diretor administrativo e financeiro do Grupo Sabarálcool, Fábio Vicari Rezende.

O Grupo Sabarálcool, com duas unidades no Paraná, apresenta um dos quadros mais desenvolvidos em responsabilidade social no setor. Até o final deste ano planeja investir R$ 2,3 milhões em projetos desta natureza - em 2004, a empresa injetou R$ 1,8 milhão em programas assistenciais que beneficiaram funcionários e comunidade, tanto em Engenheiro Beltrão como em Perobal, onde estão instaladas as suas unidades.

De acordo com o gerente de recursos humanos da empresa, Márcio José Pereira, há mais de 20 anos a Sabarálcool participa do Programa de Assistência Social (PAS), uma linha de ação vinculada ao Ministério da Agricultura cujo principal objetivo é ampliar os benefícios aos trabalhadores do Grupo. “A iniciativa da usina visa o aperfeiçoamento cada vez maior dos métodos de trabalho e satisfação das necessidades básicas dos nossos mais de três mil funcionários”.

Para cumprir as metas do programa, é necessário que a empresa tenha um investimento mínimo na área social equivalente a 2% do faturamento do álcool no período, e 1% da arrecadação de açúcar. “Mesmo assim, os investimentos na área social da usina sempre ultrapassaram os índices mínimos”, reitera.

Somente na safra 2003/ 2004 foram destinados ao programa R$1,041 milhão. Um ano depois, enquanto deveria aplicar recursos de R$ 930 mil na última safra – valor mínimo exigido pelo programa, de acordo com a previsão de produção da usina – a Sabarálcool investiu R$ 1,8 milhão, quase o dobro previsto pelo programa. A previsão da empresa é ultrapassar R$ 2 milhões na atual temporada. “A direção da empresa acredita que, se os seus funcionários ganham, ela também irá ganhar. É por esta razão a sua preocupação na área social”, diz Pereira.

Gargalos

Embora não sejam raridades, exemplos como a Sabarálcool também não representam unanimidade no setor sucroalcooleiro nacional. O próprio presidente da Unica, Eduardo Pereira de Carvalho, reconhece a necessidade de ações mais concentradas. “O setor já conta com muitos projetos, mas ainda há muito caminho a percorrer, sobretudo com organização, e não apenas por obrigação ou filantropia”.

Para Rui, do Gerhai, o setor passa por uma transformação de cultura organizacional e agrega novos conceitos de responsabilidade social, melhorando sensivelmente neste aspecto. “Precisamos apoiar mais nossos colaboradores em ações voluntárias, inserir em nosso planejamento estratégico nossas ações e prover verba financeira para atuação neste campo. O avanço um pouco lento na questão social é fruto da nossa cultura arraigada em paternalismo e filantropia exagerada”.

A filantropia é basicamente uma ação social externa, que tem como beneficiária principal a comunidade e organizações. A responsabilidade social é focada na cadeia de negócios da empresa e abrange preocupações com um público maior (acionistas, funcionários, prestadores de serviço, fornecedores, consumidores, comunidade, Governo e meio ambiente). Esta necessidade deve ser entendida e incorporada aos negócios.

No setor sucroalcooleiro, entretanto, os conceitos de responsabilidade social e filantropia ainda são confundidos. “Muitos profissionais e, mesmo empresários, ainda confundem. A diferença é simples: a responsabilidade social agrega valor ao negócio da empresa (produto, imagem, receita, etc). A filantropia agrega um ‘muito obrigado’ e para por aí”, detalha o consultor do Gerhai.

Segundo o especialista na área de qualidade e responsabilidade social, Oceano Zacharias, diretor da Quality Consultoria, o setor sucroalcooleiro é um terreno muito rico para o trabalho de responsabilidade social, mas ainda precisa quebrar muitos paradigmas. “O primeiro deles é compreender que hoje as usinas são empresas agrícolas e não mais propriedades agrícolas. Ainda há um ranço de ligação com a terra, advindo da cultura histórica do segmento”.

Em um artigo escrito recentemente, Darciso Rui descreve que setor sucroalcooleiro foi tradicionalmente formatado como negócio familiar, por meio da administração de fazendas de cana-de-açúcar, quando o usineiro tinha poderes decisórios na vida da comunidade. Décadas mais tarde, o segmento passou a ser adulado – e praticamente administrado – pelo Governo, época em que não manifestava preocupações de custo, social ou de eficiência.

A desregulamentação induziu o processo de profissionalização do setor, ainda em curso. “O modelo de administração pública sofre a influência da troca de benesses. Não se pode ser profissional nesse ambiente. A intervenção atrapalha qualquer tipo de prática porque a sua imposição prejudica a criatividade, dificultando a elaboração de políticas mais adequadas às situações”, opina o assessor de relações institucionais do Cosan, Erotides Gil Bosshard, também conselheiro do Gerhai.

Os novos desafios do setor neste momento, aponta Gil Bosshard, é oferecer condições para o desenvolvimento de dois departamentos novos nas empresas de açúcar e álcool: recursos humanos e marketing. “O setor precisa melhor na sua comunicação. Por ter sido regulamentado pelo poder público, permaneceu avesso à divulgação de seus feitos, pois à época, cabia ao IAA a incumbência mercadológica. A quebra desse vínculo é recente e somente agora é que as empresas do setor organizam seus departamentos de marketing”.
Vantagens

Mas o desenvolvimento de programas sociais com o intuito único de divulgação da empresa, ou como forma compensatória, não traz resultados positivos sustentáveis ao longo do tempo. As organizações que incorporarem os princípios e os aplicarem corretamente podem sentir resultados como a valorização da imagem institucional e da marca, maior lealdade do consumidor, maior capacidade de recrutar e manter talentos, flexibilidade, capacidade de adaptação e longevidade.

No mundo globalizado, onde informações sobre empresas circulam nos mercados internacionais em minutos, a organização que mantiver uma conduta ética e transparente terá diferenciais nas relações comerciais. “A responsabilidade social empresarial definitivamente tornou-se uma importante ferramenta para a sustentabilidade das organizações. Hoje, os conceitos que norteiam uma gestão socialmente responsável trouxeram vários benefícios para as organizações”, afirma o presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos e Responsabilidade Social, Ricardo Young.

A responsabilidade social corporativa é uma estratégia empresarial de condução dos negócios que torna a organização parceria do desenvolvimento ao longo da sua cadeia de partes interessadas, os stakeholders: fornecedores; funcionários; clientes; acionistas; sociedade. “Ora, funcionários e fornecedores que se sentem parceiros de uma empresa, porque dela dependem e nela confiam, com certeza trabalharão com mais comprometimento e profissionalismo”, garante Zacharias.

Os especialistas enumeram vantagens oferecidas por um comportamento social adequado ao contexto atual: ganhos de qualidade; ganhos de produtividade; redução significativa de custos; facilidade para gerenciar a empresa.

“Absenteísmo, grande rotatividade de funcionários, custo por afastamento devido acidentes são fatores que oneram as empresas. Se você consegue reduzir esses fatores, sua eficiência aumenta. Passando a ser mais lucrativa, a empresa aumenta seu período de existência no mercado. Passa a ser alvo de investidores”, enumera o diretor da DNV Certificadora Brasil, Samuel Barbosa

Foco no colaborador

A melhoria da imagem da empresa perante a sociedade e clientes, e ainda, maior satisfação dos colaboradores são os principais benefícios apontados pelo gerente de recursos humanos da Sabarálcool. O investimento nos funcionários também é foco dos programas sociais desenvolvidos pelo Grupo Nova América, que tem duas usinas. “A área de RH está diretamente relacionada a melhorias na produtividade e qualidade”, frisa o diretor de recursos humanos do Grupo, Mário Ibide.

Os projetos do Grupo são desenvolvidos pela Fundação Nova América, que hoje beneficia mais de 300 jovens e adolescentes – muitos dos que passaram pela iniciativa se tornaram funcionários da empresa. “Nós temos obrigação de dar condições ideais de trabalho, com remuneração satisfatória, ambiente salutar. Mas principalmente oferecer perspectivas de crescimento pessoal e profissional”, acredita Ibide.

Colaborador da Viralcool há 10 anos, Nadir Nascimento Junior iniciou suas atividades na empresa como microbiologista, passando para assistente de produção. Quando estava no cargo, decidiu fazer um curso de técnico em química. Hoje, com apoio da empresa, estuda engenharia química na faculdade e foi promovido para encarregado da área de produção “Aqui sou valorizado como pessoa e também como profissional, podendo obter mais conhecimentos e crescer”.

Um plano de responsabilidade social, ainda que tímido inicialmente, deve começar pelos funcionários indica o economista Vicente Golfeto. “É o maior patrimônio da empresa”. Zacharias corrobora: “A responsabilidade social é implantada de dentro para fora”.

Para o consultor, conforme a empresa passa a ter ações efetivas voltadas primeiramente para seus funcionários e colaboradores, eles passarão a ser geradores de novas e múltiplas ações nas suas comunidades, e terão a empresa como exemplo e referência.

Zacharias defende ainda que pessoas felizes e emocionalmente estáveis fazem o trabalho fluir com qualidade, enquanto mal-humoradas e infelizes oferecem serviços de péssima qualidade e atendimento. “A empresa faz uma contratação inadequada achando que está economizando 10% ou 20% na folha de pagamento, enquanto está perdendo muitíssimo mais no faturamento, ou nos custos de retrabalho e nos desperdícios de materiais”.

Em algumas usinas, os investimentos em responsabilidade social são ilustrados por selos e certificados que oferecem à empresa o título de “socialmente responsável”, mas a manutenção e continuidade dos programas são fundamentais para crescimento da organização no mercado.

São preceitos de planejamento, necessários para a conquista dos objetivos. Este é também um dos paradigmas que o setor vai precisar quebrar para refazer a sua imagem.

Ao contrário do que muitos acham, projetos de ação social dentro de um programa planejado de responsabilidade social não exigem tantos recursos financeiros – alguns até são auto-sustentáveis. “Embora seja necessário a manutenção de uma equipe de coordenação, os recursos a serem aplicados são menos onerosos do que ações filantrópicas isoladas”, calcula Oceano Zacharias.

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