Edição 99 de Jan/Fev de 2006
Temporada de financiamentos
Investimentos em ampliação de unidades e construção de novas usinas provocam alta nas solicitações por recursos e crédito em bancos nacionais

O Grupo São João, de Araras, no interior de São Paulo, anunciou no ano passado a expansão de seus negócios, por meio da construção de mais uma usina. Para instalar a nova unidade produtora de açúcar e álcool no município de Quirinópolis, em Goiás, a diretoria da empresa obteve do BNDES um financiamento de R$ 166,5 milhões.

O empreendimento do Grupo São João integra a lista de 40 projetos em carteira do setor sucroalcooleiro nacional atualmente financiados pelo BNDES. Deste volume, 25% são programas de montagem de novas usinas - os demais correspondem a iniciativas de modernização e ampliação das plantas que já operam no Brasil.

Em quantidades de solicitações, o setor sucroalcooleiro é o carro-chefe do departamento de agroindústria do Banco, o maior custeador das atividades do segmento atualmente. Os financiamentos para o agronegócio canavieiro crescem expressivamente no BNDES. No ano passado, os recursos liberados alcançaram quase R$ 843 milhões, um aumento robusto - os desembolsos não passaram de R$ 165 milhões em 2000.

Em apenas seis anos, houve crescimento superior a 500%. “E a tendência é de se ampliarem os financiamentos para  o setor, em função do crescimento das vendas de veículos com motores do tipo flex e das exportações de álcool”, explica o assessor de diretoria do BNDES, Carlos Newton.

O desenvolvimento do mercado canavieiro aponta que a demanda por financiamentos realmente deve aumentar. Quando as moendas começarem a processar os primeiros volumes de cana da safra 06/07, em março, 19 novas usinas estarão em funcionamento no País – totalmente construídas, as unidades absorveram investimentos de US$ 700 milhões.

A Unica estima ainda que mais 90 usinas sejam instaladas no Brasil até 2014, quantidade suficiente para o esmagamento das 120 milhões de toneladas de cana consideradas necessárias ao suprimento das demandas previstas por açúcar e álcool. Estatísticos calculam que para cada tonelada de cana adicional são aplicados US$ 70. Serão investidos no setor, portanto, mais de US$ 8 bilhões em oito anos – grande parte desses recursos vai requerer financiamento.

O BNDES demonstra interesse em participar deste mercado, mas restringe os financiamentos a operações destinadas a plantio de cana-de-açúcar, moagem de cana, refino de açúcar, produção de álcool, instalação de novas destilarias, reforma de unidades antigas e geração de energia com biomassa (bagaço de cana).

Segundo o chefe do departamento de agroindústria do BNDES, Jaldir Freire Lima, o Banco não trabalha com dotação setorial de recursos. Não há, logo, critérios que priorizem determinado tipo de projeto. “O que o setor vier a demandar será atendido. Os itens de financiamento estão na apresentação e a única restrição que temos é aquisição de terra. Também não financiamos plantio desvinculado de unidade industrial”, esclarece.

Newton informa, porém, que há interesse especial no financiamento das exportações negociadas pelo setor sucroalcooleiro, tanto de açúcar quanto de álcool. “Os financiamentos são muito importantes para o desenvolvimento do setor”, frisa o presidente do Sindaçúcar/PE, Renato Cunha.

Além do BNDES e outros bancos privados, no ambiente interno, ainda aplicam recursos no segmento os Fundos Constitucionais de Financiamento Regionais, mas estes não se prestam para projetos de longa maturação. De origem externa, estão disponíveis o IFC (International Finance Corportion) e o JBIC (Japan Bank for International Cooperation).

Imprescindíveis ao setor, os financiamentos ainda não atendem plenamente todas as expectativas da cadeia produtiva. “Sabemos que existem recursos, só falta saber se conseguiremos usá-los”, diz o superintendente da Alcopar, José Adriano Dias. Os principais empecilhos apontados são a burocracia, considerada relativa, e as altas taxas de juros praticadas no Brasil. Para utilização de recursos externos, os empresários indicam a variação cambial como grande fator de risco.


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