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O Governo Federal anunciou no final de janeiro que pretende ampliar
a carteira de produtos beneficiados pelo seguro rural. A cana-de-açúcar
será uma das cinco novas culturas que devem passar a integrar
o benefício. Criado em 2004 no Brasil, o mecanismo de proteção
à atividade agrícola contempla em suas regras as lavouras
de algodão, milho (1ª e 2ª safras), trigo, arroz
irrigado, soja, maçã e uva.
O Ministério da Agricultura aspira ainda criar seguros para
a pecuária, aqüicultura, laranja, e florestas. O Governo
ainda estuda o projeto com representantes da cadeia produtiva e
as seguradoras. Queremos aumentar o leque de ofertas. A cana
foi escolhida porque a cultura é atingida por muitos problemas
e tem poucos seguros privados contratados, informa o coordenador
de seguro rural do ministério, Geraldo Mafra.
O seguro rural é uma nova ferramenta de proteção
oferecida ao agronegócio brasileiro. Foi criado para cobrir
os danos provocados nas lavouras por eventos climáticos incontroláveis
ou doenças e pragas sem método difundido de combate,
controle ou profilaxia, nas modalidades aprovadas pela Superintendência
de Seguros Privados (Susep), autarquia vinculada ao Ministério
da Fazenda.
As primeiras experiências de subvenção ao prêmio
foram testadas há menos de dois anos, mas o modelo assumido
demonstrou excesso de exigências burocráticas e inoperância.
Em 2005, o Ministério apresentou um formato reformulado,
com simplicidade de operação e adaptado aos procedimentos
do mercado de seguros, o que permitiu o acesso a uma parcela de
produtores nacionais.
O economista Getúlio Pernambuco, chefe do Departamento Econômico
da CNA (Confederação Nacional da Agricultura) avalia
que, se bem definido, o produto estará a disposição
do mercado canavieiro em curto prazo. É preciso estudar
as necessidades do produtor e negociar regras com as seguradoras.
Se o trabalho for bem feito, com especialistas na área, rapidamente
o produto pode estar no mercado.
A cana-de-açúcar já se protege atualmente por
meio de um seguro contra incêndio durante a entressafra, e
ganharia mais estabilidade em relação às perdas
associadas a fatores climáticas pragas e doenças com
a contratação do seguro rural.
Embora possa encarecer o negócio, a hipótese de inserção
da cana na política do seguro agrícola é considerada
bem-vinda. O único país emergente que não tem
a sua safra segurada é o Brasil. O produtor, independente
do local de sua atuação, está sujeito a atropelos.
Imagina quando isso acontece e o produtor perde a safra e ainda
tem um financiamento para pagar. A idéia do seguro para
cana é fantástica, diz o presidente da Unida,
Raimundo Nonato Siqueira.
Aperfeiçoamento
Para atender as expectativas do setor canavieiro, o atual modelo
do seguro rural brasileiro ainda precisa ser aperfeiçoado,
garantem os especialistas. O volume de recursos subvencionado pelo
Governo não é suficiente para viabilizar o instrumento.
No ano passado, o montante destinado aos prêmios somou R$
10 milhões, quantia suficiente para cobrir apenas 0,8% da
área plantada no País também está
limitado a algumas regiões.
O Governo anunciou um pacote de R$ 45 milhões para 2006,
ainda pouco diante do PIB da agropecuária nacional, que atingiu
cerca de R$ 146 bilhões no ano passado. O risco de grande
parte da produção nacional é assumido pelo
próprio empresário agrícola. O seguro
rural hoje ainda é muito tímido, caro e restrito a
algumas culturas, sem atender de fato a necessidade do agricultor,
afirma o gerente geral da Cocred (Cooperativa de Crédito
dos Plantadores de cana de Sertãozinho), Márcio Meloni.
A falta de uma política rural transparente e capaz de desonerar
o agronegócio nacional pode pôr em risco a liderança
nas exportações agrícolas brasileiras. O País
pode perder força no mercado de commodities por não
dispor de uma ferramenta de seguro.
O secretário de Política Agrícola do Ministério
da Agricultura, Ivan Wedekin, disse que o Governo concentra esforços
para fortalecer o seguro rural. O Brasil tenta espelhar o seu modelo
em casos consagrados no México, Canadá e Espanha.
Entre as propostas estudadas estão o aumento do limite do
subsídio hoje fixado em R$ 7 mil para culturas anuais e R$
12 mil para maçã e uva. O percentual de subvenção,
que varia de 30% a 50%, também será ampliado. Modalidades
novas precisam ser implementadas, sobretudo o seguro de renda, que
representa hoje a grande demanda dos produtores.
O presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), João de
Almeida Sampaio Filho, considera as iniciativas são boas,
mas não acredita que as medidas isoladamente refletirão
benefícios ao produtor. O seguro ainda é embrionário.
O principal entrave é a falta de recursos. O Governo precisa
financiar a maior parte do prêmio até que mais seguradoras
participem do mercado e o tornem auto-suficiente, sugere.
Mercado promissor
O mercado nacional de seguros agrícolas ainda é incipiente,
mas interessante. No ano passado, as circunstâncias da safra
brasileira reduziram em 35% a carteira de solicitações
em relação a 2004, quando foram movimentados US$ 11
milhões em receita de prêmios. Na Argentina este valor
ultrapassou US$ 100 milhões - na Espanha chegou a € 540
milhões. A discrepância demonstra o potencial que ainda
pode ser explorado no País.
Atualmente, a soja representa o carro-chefe das contratações
de seguro rural, responde por 50% das emissões de apólices,
seguida por trigo, milho e algodão. Mesmo com atuação
particular, a contratação do seguro para cana tem
crescido muito nos últimos ciclos agrícolas. Observamos
isso principalmente na região de Ribeirão Preto (SP).Hoje
a cultura atinge uma participação de 10% no total
da carteira, conta o gerente comercial da Scaramel Seguros,
Márcio Ruivo.
Uma pesquisa realizada recentemente pela CNA com 30 mil produtores
nacionais revela que o interesse pela nova ferramenta é crescente.
Segundo Getúlio Pernambuco, 71% dos entrevistados manifestaram
aspirações em contratar o seguro rural. A perspectiva
de adesão é grande, o mercado segurador pode crescer
bastante, confirma.
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Hoje apenas seis seguradoras oferecem o produto. Os
baixos índices de subvenção espantam as empresas
do mercado, incapazes de distribuir os riscos de sinistralidade. Ainda
assim, a Seguradora Brasileira Rural aposta que o mercado brasileiro
deve crescer em 2006, somente com a comercialização
de produtos destinados a programas de subsídio ao prêmio
que os Governos de São Paulo e Federal disponibilizaram para
o ano.
Fundo de catástrofe
O aumento do valor destinado à subvenção possibilita
ao mesmo tempo maior participação de produtores e seguradoras.
Outros fatores simpáticos ao desenvolvimento do mercado de
seguros agrícolas no País são a formatação
de um fundo de catástrofe e a quebra do monopólio do
Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). O fim desta hegemonia
ampliaria os recursos disponíveis para o seguro e reduziria
os custos do resseguro, descreve Geraldo Mafra. Hoje, as empresas
absorvem somente 20% da operação, os outros 80% cabem
ao órgão.
As seguradoras também pleiteiam a modelação de
um fundo de catástrofe, que representaria uma garantia de distribuição
financeira dos riscos nos casos de grandes sinistros causados por
efeitos climáticos a modalidade seria financiada pelo
próprio mercado e pelo Governo.
O risco climático pode produzir sinistros superiores a 200%
das receitas angariadas pelas seguradoras. Nos últimos seis
anos, o Brasil registrou pelo menos tivemos três casos considerados
catastróficos. O clima no mundo está mudando rapidamente e
para pior. O fundo será totalmente estruturado, objetivando
a manutenção e equilíbrio técnico nas
operações privadas de seguros rurais no País,
garantindo assim o controle e liquidez do fundo, explica Ruivo.
O mercado pecuarista já opera um modelo semelhante, o Fundepec
(Fundo de Desenvolvimento da Pecuária do Estado de São
Paulo), que recolhe uma taxa do produtor e cria um fundo indenizatório
para o produtor que tiver problemas. O órgão ainda fiscaliza
e ajuda na defesa sanitária.
Segundo o presidente da SRB, Sampaio Filho, o fundo de catástrofe
do seguro rural deveria absorver a experiência do Fundepec,
mas alerta que a iniciativa demanda compromisso do Governo. O
fundo deve ser usado para as atividades rurais, e não para
cobrir eventuais déficits do Governo como aconteceu com o Funcafé,
lembra.
O próprio Ministério da Agricultura defende que o sucesso
da iniciativa do Brasil depende da harmonia entre as três partes
interessadas: produtores, seguradoras e governo. Precisa haver
concentração de objetivos e confiança entre as
partes, acredita Mafra. Com isso, o modelo deve evoluir naturalmente.
É evidente que há muito ainda a evoluir, mas nesse
momento o mais importante é assegurar que o modelo brasileiro
funcione, ou seja, haja adesão por parte das seguradoras e
os produtores participem, sendo rapidamente indenizados na ocorrência
de sinistros, conclui Pernambuco, da CNA. |