MATÉRIA DE CAPA – Edição 262 - julho de 2004
Demanda Refinada 
Projeções sobre demanda de derivados apontam déficit no fornecimento de derivados – e abrem espaço para novos investimentos

O Brasil vai precisar de novas refinarias? Quantas? E com qual perfil de produção? A resposta para essas questões passa por vários fatores – desde o crescimento da economia até a concorrência com outros energéticos – entre eles o gás natural e o álcool.

Dois estudos encomendados pelo Instituto Brasileiro do Petróleo e Gás – à consultoria Purvin & Gertz e à Coppe / UFRJ – dão conta de crescimentos variando entre 1,6% e 2,3% ao ano na demanda de derivados pelos próximos dez anos.

“A conclusão desses estudos é que, se não houverem investimentos no aumento da capacidade, existirá um gap entre a demanda e a oferta, e o país será dependente da importação de derivados”, avalia o gerente da Área de Abastecimento do IBP, Ernani Filgueiras.

Segundo o estudo apresentado pela Purvin & Gertz, a demanda de derivados crescerá, em média, 1,6% ao ano até 2015 – com destaque para o diesel (crescimento de 2,4% ao ano), gasolina (2,6% ao ano) e nafta (2,2% ao ano).

O estudo realizado por pesquisadores da Coppe / UFRJ, tendo como base o consumo registrado em 2002 traça dois cenários – base e alternativo – em que o consumo de derivados cresça, em média, 2,3% até 2015.

“São metodologias diversas que as instituições usaram, e é por isso que contratamos os dois. Cada um usou seus próprios bancos de dados e suas próprias técnicas para avaliar o desenvolvimento desse mercado”, conta o superintendente da Refinaria de Manguinhos, Arthur Cassiano.

Para avaliar como o parque de refino brasileiro deveria evoluir, os pesquisadores partiram de cenários macroeconômicos e traçaram os cenários de demanda de energia. A conclusão indica que, para o país atingir a auto-suficiência em diesel, seria necessária a construção de duas refinarias – sem as duas refinarias, a deficiência no abastecimento de derivados seria de 24%.

O estudo também aponta quais os tipos de refinarias que seriam necessárias:unidades focadas na produção de diesel, ou até mesmo refinarias petroquímicas – que também produzam diesel.

Caso a perspectiva inicial feita pela própria Petrobras – que levam em conta um crescimento de 2,4% no consumo de derivados até 2010 – se confirme, uma nova refinaria no país seria necessária em 2012, com capacidade de 150 mil a 200 mil barris diários.

Isso porque os investimentos que a Petrobras vem aportando em suas refinarias garantirão também um processamento adicional de cerca de 160 mil barris por dia até 2010 – a atual capacidade de processamento de todas as refinarias do Sistema Petrobras é de 1,7 milhão de barris.

“Pretendemos chegar, em 2005, a uma capacidade de processar 1.750 mil barris por dia, sendo 1.360 mil barris de petróleo nacional – o que é um volume expressivo de processamento de petróleo nacional”, explica o diretor da Área de Refino da Petrobras, Alan Kardec.

O Planejamento Estratégico da companhia prevê que, até 2010, sejam investidos US$ 8,64 bilhões – 2% especificamente para aproveitar oportunidades de aumento na capacidade de processamento. A maior parcela desse valor será destinada à conversão das refinarias para processamento do petróleo nacional (33%) e especificação de produtos (38%).

Novas unidades?

Atrair investimentos para o setor, no entanto, pode não ser uma tarefa fácil, mesmo em um momento em que o mundo observa um estrangulamento da oferta e um aumento nas margens de refino.

O problema, na opinião de Arthur Cassiano, é o descompasso entre os preços do petróleo e os preços dos derivados praticados no mercado interno. “A política de preços é fundamental para a sobrevivência das duas refinarias privadas e para o nascimento de uma outra refinaria no país. A incerteza é inimiga do investimento”.

A indústria do refino, mundo afora, vem observando mudanças de cenário nos últimos anos – o excesso de capacidade desapareceu após dois anos de crescimento econômico mundial e conseqüente aumento no consumo por derivados. Em 2004 o segmento registrou uma rentabilidade recorde – o que já aguça os ânimos das empresas a investir em novos empreendimentos. “As margens, no exterior, chegam a US$ 8 por barril processado”, informa a superintendente da Refinaria Ipiranga, Elizabeth Tellechea.

A Agência Internacional de Energia vem indicando a necessidade de ampliação dos investimentos em refino. ExxonMobil, Saudi Aramco e Total já anunciaram investimentos de US$ 11 bilhões em novas unidades nos próximos seis anos – todas no Oriente Médio ou na Ásia.

Sinopec (com duas novas refinarias), CNOOC (uma unidade) e PetroChina (expansão) investirão US$ 9,6 bilhões par ampliar em 1,56 milhão de barris diários a produção na China até 2008. A Indian Oil e Bharat Petroleum planejam investimentos para a ampliação da capacidade em 180 mil barris/dia de suas refinarias.

No Brasil, de concreto existem projetos para a construção de uma nova refinaria na região Nordeste – empreendimento conjunto entre Petrobras e PDVSA – e uma Unidade Petroquímica Básica – liderado pela Petrobras e grupo Ultra.

“A configuração dessa refinaria que será instalada na região Nordeste está sendo discutida pelo grupo de trabalho que envolve os dois sócios. Até a metade deste ano teremos definido o local, a capacidade, a composição acionária e o perfil de produção”, conta Alan Kardec.

Já a Unidade Petroquímica irá processar petróleo pesado e produzir matérias-primas para a indústria petroquímica e combustíveis – a Petrobras ainda estuda a tecnologia a ser utilizada e a composição acionária do empreendimento. Um grupo de técnicos e executivos da Petrobras e do Grupo Ultra esteve visitando a estatal chinesa Sinopec para conhecer a tecnologia usada em três pequenos projetos de refino voltados para o setor petroquímico.

O diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, promete para breve o anúncio da microlocalização da refinaria – possivelmente no Norte do Rio de Janeiro ou em Itaguaí. A refinaria terá capacidade para processar 150 mil barris por dia.

Só que as margens não estão favoráveis às refinarias privadas instaladas no Brasil. Pelas contas de Elizabeth Tellechea, a defasagem entre os preços dos derivados chegaram a 20% para o diesel e 30% para a gasolina em 31 de março.

Depois de amargar prejuízo na atividade, e sem ter como repassar a alta do petróleo para os combustíveis, a Refinaria Ipiranga interrompeu sua produção em abril. “Estamos conversando com o Governo para encontrar uma solução estruturada”, conta a superintendente.

Sem aumentar os preços para o consumidor final, a solução seria utilizar os recursos da Cide para absorver eventuais flutuações do mercado internacional. “A Cide pode ser o mecanismo que vai dar à Petrobras ou ao Governo valor para que esse petróleo que nos é entregue tenha custo consistente com os produtos”, explica Elizabeth.

“A solução para a refinaria é ter uma receita compatível com os seus custos. A Cide é uma forma de obter custos compatíveis com a receita, mas pode existir outro mecanismo que garanta que a receita seja maior do que a despesa”, completa Arthur Cassiano.

Também em situação desconfortável ante os reflexos das cotações dos preços internacionais do petróleo, a Refinaria de Manguinhos decidiu reduzir a produção – embora não dê sinais de que vá interromper sua operação. A produção atual gira em torno dos 9,5 mil barris dia – 6 mil barris abaixo da capacidade instalada.

Edição Impressa 262
Assine já!

Todos os direitos reservados a Valete Editora Técnica Comercial Ltda. Tel.: (11) 6292-1838