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O Brasil vai precisar de novas refinarias? Quantas? E com qual
perfil de produção? A resposta para essas questões passa por vários
fatores – desde o crescimento da economia até a concorrência com
outros energéticos – entre eles o gás natural e o álcool.
Dois estudos encomendados pelo Instituto Brasileiro do Petróleo
e Gás – à consultoria Purvin & Gertz e à Coppe / UFRJ – dão conta
de crescimentos variando entre 1,6% e 2,3% ao ano na demanda de
derivados pelos próximos dez anos.
“A conclusão desses estudos é que, se não houverem investimentos
no aumento da capacidade, existirá um gap entre a demanda e a oferta,
e o país será dependente da importação de derivados”, avalia o gerente
da Área de Abastecimento do IBP, Ernani Filgueiras.
Segundo o estudo apresentado pela Purvin & Gertz, a demanda de derivados
crescerá, em média, 1,6% ao ano até 2015 – com destaque para o diesel
(crescimento de 2,4% ao ano), gasolina (2,6% ao ano) e nafta (2,2%
ao ano).
O estudo realizado por pesquisadores da Coppe / UFRJ, tendo como
base o consumo registrado em 2002 traça dois cenários – base e alternativo
– em que o consumo de derivados cresça, em média, 2,3% até 2015.
“São metodologias diversas que as instituições usaram, e é por isso
que contratamos os dois. Cada um usou seus próprios bancos de dados
e suas próprias técnicas para avaliar o desenvolvimento desse mercado”,
conta o superintendente da Refinaria de Manguinhos, Arthur Cassiano.
Para avaliar como o parque de refino brasileiro deveria evoluir,
os pesquisadores partiram de cenários macroeconômicos e traçaram
os cenários de demanda de energia. A conclusão indica que, para
o país atingir a auto-suficiência em diesel, seria necessária a
construção de duas refinarias – sem as duas refinarias, a deficiência
no abastecimento de derivados seria de 24%.
O estudo também aponta quais os tipos de refinarias que seriam necessárias:unidades
focadas na produção de diesel, ou até mesmo refinarias petroquímicas
– que também produzam diesel.
Caso a perspectiva inicial feita pela própria Petrobras – que levam
em conta um crescimento de 2,4% no consumo de derivados até 2010
– se confirme, uma nova refinaria no país seria necessária em 2012,
com capacidade de 150 mil a 200 mil barris diários.
Isso porque os investimentos que a Petrobras vem aportando em suas
refinarias garantirão também um processamento adicional de cerca
de 160 mil barris por dia até 2010 – a atual capacidade de processamento
de todas as refinarias do Sistema Petrobras é de 1,7 milhão de barris.
“Pretendemos chegar, em 2005, a uma capacidade de processar 1.750
mil barris por dia, sendo 1.360 mil barris de petróleo nacional
– o que é um volume expressivo de processamento de petróleo nacional”,
explica o diretor da Área de Refino da Petrobras, Alan Kardec.
O Planejamento Estratégico da companhia prevê que, até 2010, sejam
investidos US$ 8,64 bilhões – 2% especificamente para aproveitar
oportunidades de aumento na capacidade de processamento. A maior
parcela desse valor será destinada à conversão das refinarias para
processamento do petróleo nacional (33%) e especificação de produtos
(38%).
Novas unidades?
Atrair investimentos para o setor, no entanto, pode não ser uma
tarefa fácil, mesmo em um momento em que o mundo observa um estrangulamento
da oferta e um aumento nas margens de refino.
O problema, na opinião de Arthur Cassiano, é o descompasso entre
os preços do petróleo e os preços dos derivados praticados no mercado
interno. “A política de preços é fundamental para a sobrevivência
das duas refinarias privadas e para o nascimento de uma outra refinaria
no país. A incerteza é inimiga do investimento”.
A indústria do refino, mundo afora, vem observando mudanças de cenário
nos últimos anos – o excesso de capacidade desapareceu após dois
anos de crescimento econômico mundial e conseqüente aumento no consumo
por derivados. Em 2004 o segmento registrou uma rentabilidade recorde
– o que já aguça os ânimos das empresas a investir em novos empreendimentos.
“As margens, no exterior, chegam a US$ 8 por barril processado”,
informa a superintendente da Refinaria Ipiranga, Elizabeth Tellechea.
A Agência Internacional de Energia vem indicando a necessidade de
ampliação dos investimentos em refino. ExxonMobil, Saudi Aramco
e Total já anunciaram investimentos de US$ 11 bilhões em novas unidades
nos próximos seis anos – todas no Oriente Médio ou na Ásia.
Sinopec (com duas novas refinarias), CNOOC (uma unidade) e PetroChina
(expansão) investirão US$ 9,6 bilhões par ampliar em 1,56 milhão
de barris diários a produção na China até 2008. A Indian Oil e Bharat
Petroleum planejam investimentos para a ampliação da capacidade
em 180 mil barris/dia de suas refinarias.
No Brasil, de concreto existem projetos para a construção de uma
nova refinaria na região Nordeste – empreendimento conjunto entre
Petrobras e PDVSA – e uma Unidade Petroquímica Básica – liderado
pela Petrobras e grupo Ultra.
“A configuração dessa refinaria que será instalada na região Nordeste
está sendo discutida pelo grupo de trabalho que envolve os dois
sócios. Até a metade deste ano teremos definido o local, a capacidade,
a composição acionária e o perfil de produção”, conta Alan Kardec.
Já a Unidade Petroquímica irá processar petróleo pesado e produzir
matérias-primas para a indústria petroquímica e combustíveis – a
Petrobras ainda estuda a tecnologia a ser utilizada e a composição
acionária do empreendimento. Um grupo de técnicos e executivos da
Petrobras e do Grupo Ultra esteve visitando a estatal chinesa Sinopec
para conhecer a tecnologia usada em três pequenos projetos de refino
voltados para o setor petroquímico.
O diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, promete
para breve o anúncio da microlocalização da refinaria – possivelmente
no Norte do Rio de Janeiro ou em Itaguaí. A refinaria terá capacidade
para processar 150 mil barris por dia.
Só que as margens não estão favoráveis às refinarias privadas instaladas
no Brasil. Pelas contas de Elizabeth Tellechea, a defasagem entre
os preços dos derivados chegaram a 20% para o diesel e 30% para
a gasolina em 31 de março.
Depois de amargar prejuízo na atividade, e sem ter como repassar
a alta do petróleo para os combustíveis, a Refinaria Ipiranga interrompeu
sua produção em abril. “Estamos conversando com o Governo para encontrar
uma solução estruturada”, conta a superintendente.
Sem aumentar os preços para o consumidor final, a solução seria
utilizar os recursos da Cide para absorver eventuais flutuações
do mercado internacional. “A Cide pode ser o mecanismo que vai dar
à Petrobras ou ao Governo valor para que esse petróleo que nos é
entregue tenha custo consistente com os produtos”, explica Elizabeth.
“A solução para a refinaria é ter uma receita compatível com os
seus custos. A Cide é uma forma de obter custos compatíveis com
a receita, mas pode existir outro mecanismo que garanta que a receita
seja maior do que a despesa”, completa Arthur Cassiano.
Também em situação desconfortável ante os reflexos das cotações
dos preços internacionais do petróleo, a Refinaria de Manguinhos
decidiu reduzir a produção – embora não dê sinais de que vá interromper
sua operação. A produção atual gira em torno dos 9,5 mil barris
dia – 6 mil barris abaixo da capacidade instalada.
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