Faça a coisa certa e colha os dividendos
Petrobras: após 30 anos desenvolvendo ações com as comunidades interna e externa, a companhia está incentivando seus fornecedores
Onipresente no cotidiano do mundo corporativo, o assunto responsabilidade social empresarial desperta a adesão de empresas preocupadas com a perpetuação de seu negócio
Ser socialmente responsável pode render muito mais do que uma boa imagem para qualquer empresa. O bom relacionamento com funcionários, acionistas, clientes, comunidade e meio ambiente tem proporcionado dividendos que vão desde a redução de despesas com acidentes de trabalho até valorização das ações negociadas em bolsa.
Claro que esse não é o objetivo principal das ações de responsabilidade social empresarial. Mas, no ambiente corporativo, gastar dinheiro sem esperar nenhum retorno é pecado capital.

“A primeira pergunta que o empresário faz é: ‘o que eu ganho com isso?’ Essa é uma questão legítima, porque se não houver ganho financeiro a empresa fecha – ela só pode existir se, a cada mês, ganhe mais do que gaste. Agora existem outros benefícios”, ressalta o diretor da certificadora DNV, Samuel Barbosa.

No elenco desses outros benefícios é que são mensurados todas as vantagens – diretas e indiretas – de uma ação socialmente responsável – tome como exemplo um potencial mercado consumidor que pode ser formado a partir do momento em que as pessoas que hoje vivem abaixo da linha da pobreza possam ter acesso a alimentação, saúde, vestuário, etc...

Ou seja, todas as iniciativas que as empresas adotarem com foco na responsabilidade social acabam refletindo em seu próprio favor, não só em valorização da imagem, mas também em resultados econômicos.

“Qualquer ação de uma empresa tem impacto sobre seus funcionários, consumidores, fornecedores, meio ambiente, sociedade e acionistas. Responsabilidade Social significa procurar fazer com que esse impacto seja o mais positivo possível sobre as pessoas”, explica o presidente do Instituto Ethos, Oded Grajew.

Ou seja: responsabilidade social é a forma de gestão empresarial pautada pela relação ética com todos os públicos com os quais ela se relaciona – e pela atuação compatível com o desenvolvimento sustentável. E isso é fundamental para a preservação dos consumidores – e da própria empresa.

“O maior ganho para a empresa, que justifique sua atuação com responsabilidade social e ambiental, é a crença de que isso é fundamental para que ela se preserve”, comenta o gerente de Comunicação da Petrobras, Luís Fernando Nery.

No meio desse caminho, a empresa ainda vai se deparar com sinais mais concretos de que ser socialmente responsável se traduz em dividendos. O maior exemplo disso é o índice Dow Jones Sustainability, que classifica empresas segundo critérios de responsabilidade social – as empresas que fazem parte desse índice têm uma substancial valorização de suas ações negociadas na Bolsa de Nova York.

A própria Bovespa vem trabalhando para lançar, ainda no primeiro semestre deste ano, um índice de responsabilidade social – que deve funcionar como uma espécie de orientador para os investidores.

Alguns fundos de investimentos já analisam as empresas levando em consideração não só o balanço financeiro, mas também suas relações com funcionários, acionistas, clientes, comunidade e meio ambiente. “Fundos de pensão trazem dinheiro de trabalhadores, e seria uma incongruência aplicar esses investimentos em empresas que tratam mal o funcionário ou que agridem ao meio ambiente”, explica Oded Grajew.

Na análise do presidente do Instituto Ethos, as empresas que consideram critérios de responsabilidade social em sua gestão estarão menos sujeitas a processos ou escândalos. “Todas as estatísticas mostram que empresas socialmente responsáveis são mais lucrativas e mais duradouras – porque correm menos riscos e não acumulam grandes passivos ambiental ou ético”.

Os ganhos não param por aí: os mercados mais maduros já demonstram menor tolerância com as empresas que não respeitam seus vários públicos– haja visto as quedas nas vendas enfrentadas pela Nike depois da acusação do uso mão de obra infantil, e pela Enron após estar envolta em um escândalo financeiro.

“A empresa pode perder um negócio se não comprovar que é ambientalmente ou socialmente responsável”, comenta Samuel Barbosa.

A própria Petrobras está trazendo os critérios sociais – com base nos indicadores do Instituto Ethos – para dentro de seu sistema de cadastro de fornecedores. “Não estamos fazendo uma cobrança, mas uma mobilização e incentivo. Responsabilidade Social é algo a ser assumido, não a ser imposto”, explica Luís Fernando Nery.

Samuel Barbosa lembra de outro ganho: empresas certificadas segundo a norma SA8000 apresentaram redução no índice de acidentes de trabalho. “Na hora em que uma empresa apresenta redução no índice de acidentes, apresenta uma redução nos gastos com despesas por afastamentos”.
Afinal, qual é o conceito correto?

Mas, o que vem a ser Responsabilidade Social Empresarial? O assunto vem ganhando espaço privilegiado no mundo corporativo – e também na mídia – com peso nas decisões estratégicas e indispensável no comercio internacional.

“Quando o Instituto Ethos foi criado, há 6 anos, a primeira tarefa foi explicar o que era Responsabilidade Social – nem a palavra existia. Começamos com 11 empresas, e hoje temos por volta de 970 empresas associadas. Isso mostra que houve uma grande evolução”, comenta Oded Grajew.

As empresas adoram divulgar suas ações. O problema é que, nem sempre classificam de maneira correta uma ação de responsável social ou ambiental – e aí, qualquer atividade filantrópica é bradada aos quatro cantos como ações socialmente responsáveis.

Apoiar financeiramente uma entidade ou uma ONG até que é uma atitude digna de louvores – mas o conceito exato de Responsabilidade Social tem um outro sentido. “Ações filantrópicas implicam na relação da empresa com a comunidade. Mas a Responsabilidade Social Empresarial implica na postura ética da empresa com todos os públicos que estão envolvidos e são impactados pela empresa”, explica o presidente do Instituto Ethos.

“Responsabilidade Social possui três vértices: ambiental, social e econômico. Se a empresa não está exercendo seu papel em arrecadar e pagar seus impostos, por exemplo, o governo não terá meios de manter escolas e hospitais públicos”, completa a gerente de comunicação da PQU, Izabel Galvão.

Basta prestar atenção aos critérios do próprio Instituto Ethos ou do Ibase. Lá devem constar como é a gestão da empresa com seus vários públicos – incluindo indicadores sociais internos e externos e a distribuição do valor adicionado.

E aqui é que residem os benefícios que não são diretamente mensurados. Em primeiro lugar, não dá para conceber uma empresa como uma ilha de excelência cercada de miséria por todos os lados – até porque um ambiente de desequilíbrio social não propicia desenvolvimento econômico para ninguém.

Há uma outra questão diretamente relacionada à relação empregado-empregador – quando a empresa zela pelos seus funcionários, acaba se sobressaindo perante seus concorrentes. “A empresa depende de pessoas – e as pessoas gostam de ser bem tratadas. Isso significa que a empresa tem a oportunidade de atrair e reter talentos, e ter pessoas motivadas trabalhando”, avalia o presidente do Instituto Ethos.

Aquela história do “lucro a todo custo”, em que os executivos precisam fazer tudo pela empresa não importando os efeitos sobre a sociedade e o meio ambiente, já era. E não estamos falando de apenas mais um modismo, mas muito provavelmente de uma nova ordem mundial. Mais do que lucro para seus acionistas e impostos para o Estado, a empresa tem que entender seu papel na sociedade.
“A sociedade é cada vez mais exigente em relação as questões relacionadas com o meio ambiente e ao direito ao trabalhador. Aqueles que ainda imaginam que isso é uma coisa passageira, ainda não perceberam a direção para onde isso está caminhando”, finaliza Oded Grajew.
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