| A Comissão Especial da Lei do Gás criada na Câmara dos Deputados para analisar os projetos de criação de uma lei específica para o segmento de gás natural aprovou o substitutivo do deputado João Maia (PR-RN) um projeto que, na análise do próprio deputado, é “enxuto” e pouco depende de regulação. “Minha sensação, pelo próprio resultado da votação na Comissão, é de que saiu uma proposta bastante adequada”. Agora o Projeto 334/07 segue para o Senado pelo regimento da Câmara, um projeto aprovado em comissão especial tem caráter terminativo, e só não segue direto ao Senado se for apresentado requerimento solicitando que vá a plenário, assinado por 10% dos deputados.
Lá estará mais uma chance de mudar algo. É verdade que a proposta traz vários avanços o mais notável é a criação do regime de concessão para a construção de gasodutos e o tratamento diferenciado ao insumo que é utilizado como matéria-prima mas ainda deixa em aberto alguns pontos onde a regulação poderia contribuir para tornar o mercado mais competitivo como a participação de produtores na operação de gasodutos e a compra de gás por terceiros. “Perdemos uma excelente oportunidade para fazer uma reestruturação do setor de gás na direção de um mercado mais competitivo”, avalia o analista Marco Aurélio Tavares, sócio-diretor da consultoria Gás Energy.
Desde março, quando a Comissão Especial foi criada, o deputado teve que lidar com pleitos mais divergentes possíveis como a flexibilização do monopólio das distribuidoras estaduais e o compartilhamento de gasodutos. O substitutivo foi elaborado a partir de três Projetos de Lei: PL 334/07, do ex-senador Rodolpho Tourinho, PL 6.673/06, do Executivo, e PL 6.666/06, do ex-deputado Luciano Zica. Além disso, o relator da proposta recebeu 340 emendas antes de apresentar o substitutivo. “Depois do substitutivo, ainda recebi 110”, comenta o deputado João Maia, lembrando que o trabalho foi feito em cima de cerca de 50 emendas. O substitutivo foi acatado na integra com apenas um voto contra.
Uma das mudanças em relação a versões anteriores do texto foi a introdução de novas definições de gasodutos de transferência e de transporte, que previnem interferências no segmento de distribuição de gás cuja regulamentação é responsabilidade dos Estados. Também foram definidos conceitos de consumo próprio de gás natural restrito agora ao volume de gás consumido na produção, coleta, transferência, estocagem e processamento.
Mas a principal mudança apontada pelo deputado é a criação de um regime de concessões para a construção de gasodutos que serão disputadas em licitações feitas pela Agência Nacional do Petróleo. Caberá ao Ministério das Minas e Energia após ouvir a ANP fixar o período de exclusividade a que terão direito os operadores dos novos gasodutos. “Definimos os prazos do livre acesso para os gasodutos já autorizados: de dez anos a partir da entrada em operação”, destaca João Maia.
Somente quando o gasoduto for oriundo de um acordo internacional ou quando atender a um único usuário o projeto prevê a outorga por meio de autorização. As autorizações já concedidas pela ANP serão prorrogadas por 30 anos.
Se não houver investimento e se o projeto for qualificado como “de interesse público” está prevista a utilização de recursos da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico Cide e da Conta de Desenvolvimento Energético CDE para a construção das malhas.
O projeto também coloca em lei a obrigatoriedade de transportadores realizarem chamada pública, com o objetivo de atrair interessados em utilizar os gasodutos e dimensionar a demanda por capacidade de transporte na construção ou ampliação.
Para atender a um pedido do Executivo, ficou estabelecido as regras gerais para a elaboração de um plano de contingenciamento que será decretado pelo presidente da República em situação de restrição no abastecimento reconhecida pelo Conselho Nacional de Política Energética. Também deixou a lista de prioridades para ser definida pelo Executivo. “Não tem um plano de contingenciamento dentro da Lei, e nem poderia ter, porque o plano de contingência é uma coisa transitória”.
O deputado explica que o Governo Federal receava lançar um plano de contingenciamento sem ter uma base legal que sustentasse o próprio plano. “O Governo tem se reunido com os setores e está elaborando um plano de contingenciamento para o caso de haver contingenciamento. Na verdade está todo mundo trabalhando para não ter mas não podemos esquecer que metade do gás consumido no Brasil é fornecido por duas regiões que são problemáticas dentro da Bolívia”.
É bem verdade que deixar essa decisão na mão do Executivo é um risco. “Em outros países a utilização desses mecanismos de contingência foi a válvula para intervenções em contratos, causando danos ao mercado de gás firme”, ressalta Marco Aurélio Tavares.
O consultor avalia que a discussão acabou contaminada pela questão do contingenciamento. “E isso fez com deixássemos de discutir aspectos fundamentais da regulação para buscar esse mercado mais competitivo. Hoje temos um mercado muito pequeno e sem escala o preço é alto, e por isso o mercado é pequeno. A forma de quebrar esse círculo vicioso é buscar, através da regulação, mecanismos que incentivem a entrada de novos produtores, e que isso pudesse trazer mais competição no mercado de gás”.
Pior ainda se a Lei do Gás não conseguir atrair investimentos, e o setor ver repetido o que aconteceu no segmento de refino no país onde a forte presença da Petrobras inibe a entrada de outros players. “A Lei do Petróleo é insuficiente para tratar dos problemas específicos do gás. Mas as propostas de Lei do Gás que estão aí não atenderão o objetivo, porque a situação de mercado é muito parecida com o downstream”, analisa o professor Edmilson Moutinho dos Santos, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP. (Flávio Bosco)
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