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Navega, Brasil!
Movida pelo aquecimento da demanda, indústria naval brasileira busca retomar posição de destaque internacional
Nesse momento, os estaleiros espalhados mundo afora têm 4.700 navios em carteira. Mas apesar do mercado aquecido, nenhuma grande embarcação foi contratada junto a estaleiros brasileiros. A indústria naval nacional, que já ocupou lugar de destaque no cenário internacional, sobrevive hoje de poucas encomendas de embarcações de apoio marítimo às atividades de petróleo – atualmente são 28 em carteira.

A expectativa para a retomada da construção de grandes navios desponta com o prazo imposto pela International Maritime Organization – IMO para substituição de navios petroleiros: até 2015, por questões de segurança ambiental, as empresas devem utilizar navios de casco duplo no transporte de petróleo.

Estimativas otimistas dão conta de que o mercado brasileiro de tecnologia naval e offshore deve movimentar US$ 8 bilhões em encomendas nos próximos cinco anos. A perspectiva é de bons negócios também na América Latina – principalmente com a Venezuela, que tem investimentos previstos de US$ 3 bilhões até 2015.

“A indústria naval mundial vive um pico acentuado de encomendas: as carteiras dos principais estaleiros estão abarrotadas, com carreiras completamente ocupadas até 2008 – e parcialmente ocupadas já para 2009. Isso permite que abra-se uma janela de oportunidades para o reingresso do Brasil”, comentou o professor da Coppe/UFRJ, Floriano Pires, durante palestra feita na Niterói Fenashore.

Mercado aquecido, mas resta ainda a incerteza quanto a capacidade competitiva dos estaleiros nacionais. Oportunidade de voltar a ocupar o posto de destaque começa a aparecer com as novas encomendas de navios petroleiros, principalmente da Transpetro. A empresa precisa renovar sua frota de petroleiros: além de idade média avançada – 23 anos – a maioria dos navios não está equipada com casco duplo.

E é justamente essas encomendas da Transpetro – aliada a uma política governamental – que podem dar o primeiro “empurrão”. “A Transpetro tem que lançar imediatamente a licitação dos 22 navios, e o Governo deve manter a política hoje existente”, conta o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Naval, Ariovaldo Rocha.

Trilhar a rota

Os estaleiros brasileiros não têm demanda – nem capacidade de investimento – para almejar plantas do porte dos principais estaleiros asiáticos. “Mas vale a pena observar que apenas cerca de 30% da produção naval mundial tem sido absorvida por esses grandes estaleiros. 90% dos estaleiros do mundo produzem menos de 15 navios por ano. Na faixa de porte dos nossos estaleiros existe um mercado internacional bastante significativo”, ressalta o professor Floriano.

Segundo os dados do próprio Sinaval, as empresas prevêem investir aproximadamente US$ 500 milhões na modernização e construção de novas plantas. “Todos os estaleiros precisam de um certo grau de modernização – alguns precisam mais, outros precisam menos, mas não existe nenhum estaleiro que possa passar incólume por este processo de renovação”, disse o representante do Sindicato, Paulo de Oliveira – em apresentação na Niterói Fenashore.

Necessidade de modernização

Antes de pensar em disputar grandes contratos para a construção de petroleiros, os estaleiros nacionais precisam modernizar suas instalações, adquirir máquinas de grande porte, formar mão-de-obra qualificada e implantar sistemas modernos de gestão. “Cada um de uma maneira diferente, e de uma forma específica”, ressalta Paulo Almeida.

Mauá-Jurong, Aker Promar e Mac Laren já anunciaram modernização de suas instalações – para concorrer em pé de igualdade com quatro plantas novas que serão construídas no Rio Grande do Sul (2), Espírito Santo e Pernambuco. “Essas quatro plantas , por definição, incorporarão toda a tecnologia disponível, e conterão todos os recursos mais modernos”.

Em Pernambuco, o consórcio formado pelos grupos Camargo Correia e Andrade Gutierrez irá instalar uma nova planta – um investimento de US$ 190 milhões que só aguarda a encomenda da Transpetro para ocorrer. Em Barra do Riacho / ES, o Mauá Jurong vai montar sua segunda planta – um investimento de R$ 500 milhões em um dique.

O Estado do Rio Grande do Sul conseguiu atrair dois investimentos: o segundo estaleiro do Aker Promar e o Estaleiro Rio Grande. US$ 100 milhões serão investidos pela Aker Promar numa primeira fase de obras.

O consórcio Rio Grande investirá US$ 115 milhões em um programa de obras civis que consumirá 18 meses. “A partir do 12º mês, entretanto, a produção do primeiro casco poderá iniciar, com a conclusão das obras dos galpões de processamento de aço e de sub-montagem de blocos”, explica o diretor do Estaleiro Rio Grande, Roberto Dieckmann.

A formatação e o projeto detalhado do estaleiro já estão prontos. “Para prepararmos a cotação dos navios, será necessário ainda detalhar o projeto básico dos navios, ainda não informado pela Transpetro.

Para a unidade já existentes em Niterói / RJ, o estaleiro Aker Promar anunciou investimentos de US$ 2 milhões na aquisição de equipamentos para a modernização de suas instalações. O estaleiro já fez investimentos de aproximadamente R$ 7,5 milhões este ano – destinados basicamente para capacitação e treinamento de pessoal, equipamentos e programas de informatização.

Já o grupo Mauá-Jurong vai investir na implantação de uma nova linha de painelização, na instalação de novos equipamentos de movimentação horizontal, na ampliação da carreira dos atuais 240 metros para 280 metros e em uma nova cabine de pintura.

O consórcio Rio Naval – formado por MPE, Sermetal e Iesa – será responsável pela modernização do Estaleiro Sermetal, no Rio de Janeiro. É mais um que aguarda as cartas-convites da Transpetro para pôr em andamento as obras de modernização.

Aumento da produtividade

O principal objetivo de todos eles é reduzir o tempo de carreira – ou de dique – de tal maneira que o estaleiro seja mais rentável e mais eficiente. “A carreira ou o dique é um ativo único no estaleiro. Reduzir o tempo de utilização desse ativo significa aumentar a capacidade e produtividade da planta industrial”, conta o diretor do Sinaval.

Para isso, os investimentos serão direcionados à ampliação do tamanho da maior unidade construtiva ou ao peso do maior bloco, aumento do porte e da capacidade dos guindastes e do uso de novas tecnologias de fabricação e montagem e gerenciamento das obras. “Existem recursos técnicos que sequer pensamos em usar, e que são fundamentais se queremos reduzir o tempo de construção de uma embarcação”.

A reboque, será necessário melhorar a capacidade de movimentação dos itens que serão utilizados no navio a ser construído dentro do estaleiro. “Temos que pensar em lotar os pátios de movimentação com guinchos com suspensão eletromagnética, e também aumentar a capacidade das pontes rolantes nas oficinas de fabricação”.

Paulo Almeida também recomenda o uso mais intensivo do CAD e do CAM em projetos e manufatura. “É preciso incentivar o uso de processos de fabricação e estratégias de fabricação em que a utilização de computadores e de sistemas gerenciáveis através do computador permitam uma maior eficiência”.

Outro gargalo é o acabamento, que precisa ser feito nas fases iniciais de produção – algo semelhante à montagem de um automóvel, em que as peças chegam prontas à linha de montagem. “O navio precisa ir para a carreira ou para o dique praticamente pronto”.
Ed. 276 - Outibro de 2005
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Matéria exibida na Revista Petro & Química, edição 276 de outubro de 2005.