Revista Controle & Instrumentação – Edição nº 102 – Março de 2005
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Caminhos para os grandes consumidores
Paulo Ludmer, diretor da Abrace

Para os grandes consumidores a energia tornou-se não só solução e insumo básico, mas também gasto – e um dos maiores. O que é feito então, para que esses custos não sejam tão penosos ? Quais as soluções encontradas por estas empresas para consumir menos ?

De acordo com o diretor Executivo da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace), Paulo Ludmer, estas empresas conseguem atingir melhores resultados tornando-se livre ou autogeradoras - ou os dois.

“Para o grande consumidor, qualquer 0,01% que possa ser reduzido na conta final - por ter um processo produtivo mais eficiente ou um sistema de conservação - já é muito significativo. Os investimentos realizados são muitos e é por isso que diversas empresas associadas quebram recordes mundiais de eficiência”, ressalta. “Quando ocorre um racionamento, por exemplo, cortamos o ‘topo do que podemos’. Os resultados que esses cortes de energia trazem são diretamente proporcionais: cortamos efetivamente a produção”, diz.

Os 63 grupos industriais reunidos na Abrace consomem juntos mais de 45% da energia elétrica industrial do país, o que corresponde a mais de 20% do total. Entre eles estão gigantes como produtores químicos e petroquímicos, de aço, não-ferrosos, cimento, papel e celulose, vidro, gases industriais e outros.

Chamados de grupos energointensivos, eles participam ativamente do desenvolvimento econômico e social brasileiro e, por depender exclusivamente da eletricidade e dos demais insumos térmicos para garantir a produção, são figuras importantes também no desenvolvimento do próprio setor energético brasileiro.

Do ponto de vista de automação, o ideal para as associadas da Abrace, segundo Ludmer, é investir no seu próprio negócio, na tecnologia do seu processo. “O problema é que elas não fazem isso o tanto quanto gostariam. Por causa da incerteza, da tributação e encargos, entre outros, elas são obrigadas a fazer investimentos defensivos em autogeração”, diz. O setor de alumínio, papel e celulose e as centrais petroquímicas, por exemplo, são setores campeões da autoprodução.

Mais de dois terços das associadas da Abrace são autogeradoras. Juntas, elas estão participando da construção de mais de 6 mil MW, com o objetivo de reduzirem a vulnerabilidade da competitividade no que diz respeito aos custos da energia, e de não tornarem-se reféns de um possível racionamento, como em 2001.

Para tornar-se livre uma empresa precisa consumir mais de 3 MW de potência e estar ligada em redes de tensões iguais ou superiores a 69 mil volts. “Tornando-se livres, elas podem evitar algumas despesas com comercializadores e distribuidores e buscar energia direto na alta tensão, o que equivale a 230 mil volts ou mais”, explica Ludmer.

Sendo livre, a empresa também pode flexibilizar contratos de compra, adquirindo energia de um ou mais geradores, obtendo condições contratuais mais flexíveis e que permitem uma aquisição de energia mais compatível com seus processos industriais e necessidade.

De acordo com o diretor da Abrace, o mercado livre hoje no Brasil corresponde a 12% do total, mas o mercado potencialmente livre pode chegar a 35% – sem contar a autogeração. Na Europa, por exemplo, os consumidores livres, recebem o nome de elegíveis e já são quase 100%. “No Brasil, os elegíveis estão restritos porque as distribuidoras pressionaram o governo no sentido de conter essa migração da condição de cativo. Porém, a tendência mundial é que, nos países com economias mais maduras e desenvolvidas, o número de elegíveis cresça”, diz.

“Uma outra providência é gerar uma parte do que se precisa para se defender da alta dos preços e também de eventuais faltas de energia”, conta Ludmer. Para fazer um investimento em autogeração, ou seja, uma usina geradora, a empresa precisa de capital intensivo - o que ela já tem pela própria natureza de suas plantas produtivas. Com a autogeração estas empresas passam a ter então dois capitais intensivos para remunerar com a venda e a margem de lucro do seu produto. “Ou seja, elas dobram a responsabilidade do produto, que passa a ser obrigado a remunerar dois investimentos intensivos”, explica Ludmer.

De quanto é a perda?

Preocupados com os constantes desligamentos sofridos ao longo de 2004, a Abrace e seus associados realizaram um criterioso levantamento em 18 empresas, com 28 unidades industriais, da quantidade de interrupções, perdas de produção e perdas financeiras decorrentes dessas paralisações.

Segundo o levantamento, foram registradas por essas companhias 663 interrupções que ocasionaram um prejuízo de R$ 55 milhões (decorrentes das 91 mil toneladas que deixaram de ser produzidas). As principais causas dos desligamentos segundo a pesquisa são as falhas operacionais, oscilações de tensão, queimadas, vandalismo e variação de freqüência. Desligamentos freqüentes ou mesmo variações de tensão em fração de segundos trazem prejuízos significativos para a indústria brasileira, podendo acarretar interrupções no processo produtivo, que implicam em perda de eficiência da indústria brasileira, com reflexos econômicos negativos extensivos à população.

Entre as propostas da Abrace estão: a criação de um comitê, formado por técnicos da Aneel, concessionárias e consumidores para apontar e acompanhar, anualmente, antes do reajuste/revisão tarifária de cada concessionária, investimentos que visem a melhoria do desempenho das redes de distribuição; realizar mensalmente análise de falha criteriosa de todos os desligamentos sofridos pela indústria que interfiram ou não no padrão de continuidade; e certificar, até dezembro de 2006, toda a mão-de-obra empregada na operação de sistemas elétricos de distribuição nas indústrias e nas concessionárias.


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