Revista Controle & Instrumentação – Edição nº 106 – Julho de 2005
Cover Page II
No rastro da excelência
Instrumento de aviação em ensaio de pressão

Em 1961, quando foram criados os Institutos de Pesos e Medidas – IPEMs, poucos diriam que o Brasil precisava de mais. Já em 1973, o volume de medições com precisão para a indústria mostrava que a metrologia era parte integrante do dia a dia e levou a criação do Instituto Nacional de Metrologia – Inmetro, sem o qual seria impensável a inserção brasileira em níveis internacionais de qualidade. Do seu apoio a implantação das normas ISO 9000 às pesquisas atuais sobre próteses médicas, o Inmetro é a base para a certeza da medição.

O Parque Tecnológico de Xerém (PTX), no Rio de Janeiro, busca suportar as empresas em alta tecnologia em metrologia com infra-estrutura de laboratórios e pessoal altamente qualificado. O Parque é um projeto estratégico do Inmetro e tem como objetivo consolidar a missão do Instituto para promoção da competitiva da indústria nacional.Em uma área de 420 mil m2, o Parque está sub-dividido em três segmentos, dentro de uma área total de 2.100 mil m2, cortado por rios e nascentes, com florestas preservadas, com 56 mil m2 em edificações e 25 mil m2 em laboratórios, com infra-estrutura de apoio à produção de tecnologias ligadas à Metrologia e Qualidade Industrial. 

O Inmetro é o responsável pela realização e manutenção das unidades do Sistema Internacional de unidades (SI), disseminando-as pelos diferentes e assegurando a confiabilidade metrológica nos serviços básicos de qualidade e de infra-estrutura para a competitividade, desenvolvendo pesquisa em metrologia e ensaios, além de participar de programas de comparação inter-laboratoriais em nível nacional e internacional. Nos laboratórios, estão abrigadas as áreas de Metrologia Mecânica, Elétrica, Térmica, Óptica, Química, Acústica e Vibrações, mantidas sob condições especiais de temperatura e umidade, com variações controladas em operação ininterrupta, de forma a preservar as condições ideais dos laboratórios. Algumas edificações do Parque Tecnológico de Xerém são “aterradas” para evitar trepidações.

O Inmetro tem estabelecido Acordos de Cooperação Técnica com muitos organismos, de relevante importância no desenvolvimento de Tecnologia Industrial Básica, dando ao Brasil a capacidade de superar algumas barreiras técnicas às exportações. O Inmetro possui acordo com o NIST (EUA), com o Comitê da Federação Russa para Normalização, Metrologia e Certificação (Gosstandart) e o PTB alemão – com este último, no mais alto nível de cooperação, a horizontal nos campos científico e tecnológico. O acordo com a BAM (Alemanha), desde setembro de 2002, permite desenvolver, certificar e comercializar materiais de referência em parceria. Além das atividades regulares, este acordo prevê ações de capacitação mútua dos órgãos em emissões veiculares. A parceria com a BAM deve dotar o Inmetro de técnicas específicas para a análise de contaminantes orgânicos e inorgânicos, possibilitando ao instituto brasileiro tornar-se referência em Metrologia Química no Brasil para diversas medições. Segundo o diretor de metrologia científica e industrial do Inmetro, Professor Dr. Humberto Brandi, essa parceria é estratégica, já que a metrologia química se mostra como referência para questões relativas a Barreiras Técnicas, seja no tocante à etiquetagem, rotulagem, ensaios nos campos da saúde, da agricultura e do meio ambiente.

E como na macropolítica nacional o estímulo às exportações está entre as prioridades, o Inmetro lançou em julho um edital para a construção de um laboratório em Metrologia Química, avaliado em R$ 65 milhões. “No novo prédio da Química teremos um laboratório grande... este e outros laboratórios estão em fase de definições e são estratégicos de acordo com a política industrial do país”, lembra o diretor Brandi. “Estão na fase do edital de licitação do projeto executivo. O que queremos para estes novos laboratórios e os já existentes é dar competitividade à indústria. Queremos colocar essas áreas no mesmo nível de seus pares internacionais”. Além do novo laboratório em metrologia química, o Inmetro está construindo um laboratório em Metrologia de Materiais e Metrologia de Telecomunicações. A área de vazão também está recebendo investimentos – só que o Inmetro não precisou se preocupar com a parte de grandes vazões: a iniciativa privada e pioneira da Conaut, com sua parceira Krohne, estão finalizando um laboratório de calibração para grandes vazões em São Paulo, e ofereceram uma participação técnica ao Inmetro.

De fato, o Inmetro entrou em um ciclo de investimentos em pessoal e equipamento. A área de química só existe há três anos e a de materiais, há um ano e meio, com 19 e 14 doutores, respectivamente. Todas essas pessoas estão sendo incorporadas aos projetos através de um programa de bolsas diferenciadas em conjunto com o CNPq onde o Inmetro repassa recursos ao CNPq e gerencia o programa. “Temos um projeto para trazer para o Inmetro 200 doutores, entre 2004 e 2007. Até agora, já foram trazidas 72 pessoas, e dessas, 48 são doutores. Nosso objetivo é estabelecer um local de alto conhecimento pronto para fazer pesquisa e inovação”, afirmou Dr. Humberto Brandi.

A nova área de Telecomunicações do Inmetro envolve compatibilidade eletromagnética, radiações não ionizantes, entre outras tecnologias. Segundo o Dr. Humberto Brandi não é só o Brasil que está defasado em metrologia nessa área – tanto que ainda não se sabe ao certo quais os efeitos de usar um celular, por exemplo. A definição dos padrões não ionizantes está em aberto no mundo inteiro, só existem normas não obrigatórias.

A tarifação da telefonia brasileira é outro exemplo, já que não é feita por tempo, mas por pulso – que varia de acordo com horários e lugares – e fazer a compatibilização disso é muito difícil. Não há padrão. Para isso também o laboratório do Inmetro será fundamental pois já existe uma legislação e estabelecimento das normas e procedimentos – feitos pela Anatel.

A metrologia legal – essa utilizada como referência de cobranças e tarifas – é apenas um dos aspectos da metrologia. E se você quer cobrar um imposto, tem que ser capaz de medir, como nos lembra o Dr. Humberto Brandi ao contar uma história sobre a origem da “metrologia fiscal”, que começou com a geometria, no Egito Antigo, quando Hamsés resolveu dar a seus súditos terrenos iguais e dividiu uma grande faixa em lotes quadrados, mais fácil de medir, e todos pagariam o mesmo imposto. Só que o Nilo, nas cheias, mudava o desenho de suas margens, alterando, assim, o tamanho dos terrenos. Logo, foi preciso recalcular os terrenos para que os impostos fossem cobrados corretamente. Com isso, criaram-se métodos geométricos e métricos, que estão na origem da nossa metrologia. A metrologia legal é apenas uma parte da metrologia, mas a parte que garante o todo é a metrologia científica.

A metrologia é a ciência da medição com o conhecimento das incertezas do meio. Uma medida sem o conhecimento da incerteza é inútil. E é importante diminuir a incerteza para que a vida se torne cada vez mais segura. E aumenta-se a precisão fazendo pesquisa. A medição do segundo, por exemplo, aumentou quando foi realizada uma pesquisa de armazenamento e resfriamento do átomo – área que rendeu seis prêmios Nobel em oito anos. Um dos programas do Inmetro com a COPPE estuda materiais no nível atômico, materiais para próteses médicas e dentárias, sistemas biocompatíveis onde se utiliza ligas de titânio. No Brasil, não existe padrão para próteses e implantes então o novo Laboratório de Materiais do Inmetro vai estudar e criar ligas-padrão e doá-las ao mercado brasileiro como referência.

Um exemplo bem sucedido das pesquisa do Inmetro é o padrão da cachaça, estabelecido para que a tradicional bebida fosse melhor aceita nos mercados externos – o que de fato está acontecendo. Os padrões, no caso, são realmente doados quando são fruto de pesquisa exclusivamente do Inmetro; quando a pesquisa envolve outros agentes, isso é estudado com os parceiros. No caso de materiais-padrão com dureza específica, projeto desenvolvido com a PUC e a Mitutoyo, a colocação no mercado foi feita por venda onde um terço do valor arrecadado ficou com o Inmetro. Mas quando se trata de padrão desenvolvido para aumentar a competitividade do país, como foi o caso da cachaça, ele é doado.

O Inmetro gera, com os serviços – medições, calibrações, ensaios, etc – prestados a terceiros, recursos que praticamente cobririam suas despesas mas essa receita vai para o Tesouro, que os repassa de volta de acordo com as normas. Uma outra parte dos recursos vem dos projetos ou seja, de fundos setoriais e de parceiros privados ou públicos – incluída também a mão-de-obra.

No meio acadêmico, tem-se discutido ultimamente a colocação de doutores no mercado de trabalho privado e a pretensão do Inmetro de incluir 200 desses profissionais em seu quadro não chegou sequer a repercutir. Segundo Dr Humberto Brandi, o Brasil forma cerca de 8 mil doutores por ano, uma parte substancial nas áreas humana e social. Mas na área científica existe uma defasagem em relação à demanda. Somente 10% dos cursos de pós graduação são de engenharia. Um bom exemplo é o déficit de professores de física: enquanto a demanda é de 50 mil por ano, formam-se apenas 700. Mas, segundo o diretor do Inmetro, um doutor em engenharia tem emprego certo, o que já não é tão fácil para um doutor em física, e isso se complica ainda mais nas áreas de humanas.

“O Brasil tem um bom projeto de formação de mão-de-obra – ainda que com distorções de concentração entre as áreas biológicas, exatas e humanas – mas falta ao desenvolvimento industrial brasileiro a absorção de engenheiros... 85% dos doutores continuam na universidade. Se olharmos países com desenvolvimento forte e crescente, acontece exatamente o contrário porque as indústrias estão envolvidas com pesquisa e inovação. E o Inmetro pode fazer o papel de mediador entre a academia e a indústria através dos diversos programas em andamento”.

Vale lembrar que a iniciativa privada investe pouco em pesquisa, no mundo todo. O MIT, expoente da pesquisa aplicada, tem cerca de 17% do seus recursos vindos da iniciativa privada; Harvard, apenas 3%. Então o papel do governo é fundamental. Não há possibilidade da pesquisa fundamental ser toda feita pela iniciativa privada. Ao menos áreas estratégicas têm que ter a presença do Governo porque é uma coisa cara e sem datas. O objetivo de uma pesquisa na universidade é sua publicação, a divulgação do conhecimento, o reconhecimento dos pares; o objetivo das pesquisas privadas é gerar produtos que gerem lucros – em sigilo – e isso só acontece dentro de prazos estipulados. O conhecimento gerado nas universidades faz parte do acervo global, que é a base para o desenvolvimento e para a tecnologia.

“Conhecimento e tecnologia são bases para manter a qualidade da indústria. Para manter a qualidade do Inmetro, é preciso que estejamos sempre em contato com sangue novo... Por isso criamos o Centro Internacional para Capacitação em Metrologia fazendo com que, através de diversos programas, as universidades e seus jovens pesquisadores estejam em contato com o Inmetro. A gente precisa fazer isso de uma maneira orgânica! E aí, quando se fala em jovem não estamos medindo a idade, mas o frescor da formação acadêmica e seu comprometimento com a busca contínua da excelência”, finaliza Dr. Humberto Brandi.


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