Revista Controle & Instrumentação – Edição nº 107 – Agosto de 2005
Cover Page
Macro Medição da Sabesp investirá 25 milhões em controle

A Sabesp investe, por ano, quase 100 milhões de reais em controle de perdas, em todas as suas áreas, seja em equipamento para redução de pressão, em hidrômetros ou treinamento. Segundo o gerente do departamento de controle do abastecimento, Amauri Pollachi, na Macro Medição existe um programa de investimento de cerca de 25 milhões para os próximos cinco anos. Grande parte dessa verba será investida na adequação de pontos de medição com aquisição e instalação de medidores com tecnologia mais avançada, e detecção de perdas por métodos não invasivos e com o aprimoramento do parque de instrumentação para calibração. Toda a especificação e as licitações serão feitas na unidade de Pinheiros, em São Paulo (SP).

“Temos completa aderência à metodologia proposta pela IWA – International Water Association ou seja, fazer distinção entre perdas aparentes — por falha de medição, ligações não autorizadas, erros comerciais — e perdas reais — vazamentos. Todo nosso trabalho atual e futuro está com os olhos voltados para indicadores de nível internacional, muito mais qualitativos”, comentou Amauri. Na Sabesp, até que as alterações sejam implantadas, as avaliações de índice de perdas são feitas pelo percentual de água perdida, de água não faturada, não medida, não contabilizada.

Os novos indicadores serão mais qualitativos, algo como litros por quilometro de rede , ou litros por número de ligações existentes. A Sabesp é pioneira na implantação dessa filosofia no Brasil, a empresa é benchmark na área de saneamento e em controle de perdas, no país. A Sabesp, no continente americano, é uma das mais avançadas porque não existe uma preocupação com controle de perdas nos EUA e lá o consumo per capita é muito alto. Em São Paulo, o consumo per capita de água tratada,está em torno de 150 litros por habitante/dia. Nos EUA, em algumas regiões, esse valor é 4 vezes superior: um bom exemplo são as cidades de Phoenix no Arizona, plantada no deserto, com consumo per capita de 600 l/h/d; e Dallas, no Texas, também numa região mais seca, o consumo chega a 800 l/h/d.

O controle de perdas — foco de vários programas internacionais — está muito ligado a questões ambientais e, consequentemente, é mais intenso nos países comprometidos com o Protocolo de Kioto e o Desenvolvimento Sustentável do planeta. Existem empresas privadas e públicas preocupadas com controle de perdas em todo o mundo. Na Sabesp, o controle das perdas vai começar com uma medição mais precisa nas próprias dependências da empresa, na Macro Medição — seria improdutivo e custoso impor outro tipo de medida sem assegurar os volumes internamente. Na Holanda por exemplo, não existe micromedição como aqui, não existem hidrômetros; a cobrança se dá por uma taxa em função do número de pessoas e da área construída. “Lá existe preocupação com uso racional da água,e como tudo, a água também é socializada. Micromedições em poços artesianos, por aqui, só depois que o projeto de lei que tramita na Assembléia de São Paulo seja aprovado e sancionado. Por enquanto, o controle que se pode exercer é mesmo na MacroMedição”, completou Amauri.

E as entradas e saídas para MacroMedição, na Sabesp, têm pontos muitos claros porque há a captação de água para tratamento, a produção de água tratada, a adução – leva a água da adutora aos reservatórios -, e a distribuição — do reservatório aos consumidores. As medições acontecem em todos esses pontos, por departamentos diferentes com os mesmos objetivos, o controle da operação e o controle da produção. A Sabesp capta água bruta e trata. O volume muda no tratamento e por evaporação, além do uso interno de cada unidade. O rendimento das ETAs (Estações de Tratamento de Água) da Sabesp é muito bom, quase não há perdas mesmo que a diferença de volume entre água bruta que entra e água tratada que sai dependa da estação. Na unidade do Guaraú, por exemplo, que produz mais da metade do sistema integrado do estado de São Paulo, a produção é de cerca de 33m3/s, com perda de menos de 1%. “Só se consegue isso com muito controle”, pontua Rildo Tetsuo Inaoka, engenheiro da divisão de MacroMedição e Controle de Perdas da Unidade de Negócio de Produção de Água da Metropolitana da Sabesp

Segundo Tetsuo, uma ETA pode receber água limpinha para tratamento mas podem acontecer perdas por processo, por exemplo na lavagem de filtros de decantadores. Sem contar as perdas nas unidades em que é baixo o percentual de recirculação da água utilizada — devolvendo-a para tratamento. Nem todas as ETAs têm esse tipo de sistema porque, se o processo de produção de água tratada é igual, independente do tamanho — porque a qualidade da água tem que ser a mesma — o design da estação, sua automação e topografia diferem muito. O rendimento ideal seria 100% de aproveitamento mas as perdas realmente acontecem e as medições servem para os cálculos dos índices dessa perda, na produção. O maior índice de perda não é na adução (da ETA ao reservatório) mas da saída do reservatório ao consumidor e, segundo a assessoria de imprensa da Sabesp, o índice atual está em torno de 15% o que não é alto comparado a índices de outros países e mesmo com resultados anteriores da companhia.

A distribuição compara a MacroMedição com a soma dos hidrômetros residenciais e industriais. Segundo Tetsuo, não se costuma calcular a perda geral, da entrada no manancial direto ao consumidor, mas da produção da ETA em diante, comparando água tratada com água tratada. A MacroMedição cuida da produção da ETA até o reservatório e daí cada unidade de negócio tem suas medições, com as distinções entre perdas físicas e perdas comerciais cuja nova nomenclatura chama de reais e aparentes. “A perda real é a de processo; a aparente acontece pelas derivações clandestinas ou medidores imprecisos. Na Macro, os medidores estão sendo trocados por outros de tecnologia melhor. São cerca 500 pontos de MacroMedição só na Região Metropolitana de São Paulo. Estamos trocando os antigos deprimogêneos (diferencial de pressão) por eletromagnéticos de diversos diâmetros, desde 50’’ até 3.200 metros. Um bom exemplo é o de 2,5 m de diâmetros em Guarapiranga, instalado em 2000 e calibrado na Holanda”, comenta Tetsuo.

A tecnologia para medidores de vazão de grandes diâmetros e sua calibração vem do exterior mas já existem representantes brasileiros. A Conaut, depois de firmar jointventure com a Krhone, fabrica e calibra no Brasil. O problema dos medidores de grande porte — 600 milímetros pra cima —, é que o maior laboratório certificado pelo INMETRO não atinge as vazões necessárias. O laboratório horizontal de vazão da Conaut calibra até 600 milímetros pelas normas da Sabesp, mais rígidas, sempre acompanhando as NBR ISO. Calibrar medidores acima de 600 milímetros em território nacional, somente após a certificação do novo laboratório de vazão vertical da Conaut — que deve ser inaugurado em dois meses.

Os valores de compra e calibração para medidores acima de 500 milímetros são muito altos, ainda. Por isso a Sabesp criou, em conjunto com o IPT, uma outra metodologia, que permite a calibração do medidor no campo. “Só tiramos para a bancada se o medidor estiver danificado, caso contrário a gente calibra no local mesmo, garantindo a confiabilidade do mesmo. Retirar requer uma parada que gera desabastecimento e vários custos envolvidos, para isso, temos nossa metodologia de calibração”.

Sobre as trocas dos medidores, Tetsuo só adianta que um medidor pode até ser antigo mas se ele estiver dentro do programa periódico de calibração, ele está confiável. Somente no caso de medidores mecânicos como os hidrômetros, é preciso trocar com freqüência porque há o desgaste de sua relojoaria. “Aí sim, existe norma com tempo de uso ou volume medido”.

Na Sabesp, a calibração sempre foi feita por pitometria porque é uma tecnologia que casou bem com as necessidades do setor de saneamento porque, para medir onde não há medidor no local, pode-se instalar um registro ( TAP ) e insere-se um Tubo de Pitot para medir por diferencial de pressão comparando seu resultado com o medidor instalado.

“Os medidores são instalados dependendo da sua aplicação e o eletromagnético é o único que por norma aceita transferência de custódia. Como a Sabesp produz água tratada, distribuída para os reservatórios/população e outros municípios, para custódia, o medidor utilizado é o eletromagnético. Existem medidores mais baratos, com tecnologia até superior, mas que não atendem a norma e, consequentemente, não podem ser utilizados para medições fiscais”, comenta o engenheiro da Sabesp, lembrando que o hidrômetro é usado até determinado porte porque se for muito grande o desgaste e as trocas acontecerão mais vezes, gerando perda de carga e atrapalhando a vazão nas substituições. Por isso, a Sabesp só utiliza hidrômetros até 300 milímetros; depois disso são usados os Venturi (deprimogêneos) em diversas configurações instalados num corte da tubulação. “Tecnologicamente, os Venturi estão imediatamente antes dos medidores eletromagnéticos mas introduzem perdas de carga. Não colocamos mais esse tipo de medidor ainda que mantenhamos o parque instalado calibrado. A maioria dos grandes medidores da Sabesp ainda é Venturi mas estão em fase de troca para eletromagnéticos”, comentou Tetsuo para quem a troca deve ser vista mais como uma melhora das condições de vazão – para evitar perda de carga e manutenções freqüentes — do que por problemas tecnológicos ou de aplicação.. Outro ganho da troca, segundo o engenheiro, é a precisão que aumenta muito pois, nos Venturi é de 2% a 3%, enquanto que nos eletromagnéticos, a precisão é de 0,5%.

A Sabesp está instalando medidores eletromagnéticos mas seus engenheiros já estudam um modelo ainda mais preciso e menos invasivo, o ultrassônico. E a equipe da Sabesp já tem uma idéia de aplicação para os dois tipos: um deles é colocado externamente e acaba não sendo muito preciso porque demanda de informações como a espessura e a composição da parede do tubo, o que pode variar por causa das incrustrações internas: a incerteza aumenta. Mas já existe um outro medidor ultrassônico, onde o sensor fica em contato com a água através de uma inserção mínima mas não está normatizado. Segundo Tetsuo, a equipe da Sabesp já sabe experimentalmente que ele é tão preciso quanto o eletromagnético, mais barato e fácil de instalar. “A relação custo benefício do ultrassônico, para diâmetros superiores a 400 milímetros, compensa”, completa Tetsuo que lembra que o grande desafio tecnológico para medição é a busca pelo menor custo, pela facilidade de instalação e desinstalação, calibração e sempre maior precisão. No caso, de medições de canais abertos são aplicados medidores tipo calhas e vertedouros, onde se utiliza um medidor de nível associado a uma fórmula para obter a vazão.

Na Unidade de Produção de Água da Metropolitana, fica o controle do sistema de água tratada onde a sala de controle recebe os dados de todas as unidades produtoras na sala de telemetria, onde a medição de vazão é só uma variável que chega com os dados de temperatura, nível, aberturas de válvulas, status de bombas.... A transferência para a CCO da Metropolitana é feita por linha privativa de telefone mas cada ETA tem um sistema interno de coleta e envio de dados.

Tetsuo apresentou um trabalho na Fenasan – Feira Nacional de Materiais e Equipamentos para Saneamento sobre como escolher o melhor medidor. “Para escolher o melhor equipamento tem-se que levar em conta o local de instalação, se é permanente ou provisório, qual a finalidade da medição — e aí existem restrições legais se for para transferência de custódia — e o nível de precisão requerido também”, resume o engenheiro.

Durante sua palestra, Tetsuo lembrou que o medidor precisa ser corretamente instalado para cumprir sua função, seu dimensionamento deve ser verificado, sua faixa de operação e trechos retos a montante e a jusante. “Não existe equipamento que trabalhe de qualquer jeito, todos têm uma condição determinada”, finalizou.


© Valete Editora Técnica Comercial Ltda. – São Paulo, SP