Revista Controle & Instrumentação – Edição nº 108 – Setembro de 2005
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Setor siderúrgico nacional é super atualizado,
sem fazer barulho

A origem da siderurgia perde-se no tempo, remontando aos primeiros ensaios na manufatura de armas e implementos agrícolas. O século XIX, com a revolução industrial e as ferrovias, deu o grande impulso para que o setor começasse a se estruturar. Segundo Rudolf Bühler, diretor técnico do IBS — Instituto Brasileiro de Siderurgia , o aço é fator básico para o desenvolvimento de países e seu consumo per capita é um dos principais indicadores econômicos estudados. O consumo de aço depende de ciclos econômicos e a indústria siderúrgica vem se modernizando cada vez mais para fazer frente a novos materiais.

O consumo de aço vem crescendo ano a ano e essa tendência não dá sinais de enfraquecimento. No Brasil, existem vinte e quatro usinas de aço, administradas por onze empresas, que faturam cerca de R$ 51 bilhões, com capacidade instalada de 34 milhões de toneladas/ano de aço bruto, o que coloca o país no oitavo lugar no ranking mundial do setor.

Hoje, o minério de ferro, no Brasil, é abundante e de boa qualidade; com disponibilidade de mão-de-obra e parque industrial atualizado mas com continuidade do processo de reestruturação interno. O Brasil é competitivo internacionalmente e apresenta baixos custos de produção, crescente demanda interna e elevação das exportações de semi acabados e ferro gusa.

Os principais desafios do setor são a competição com outros materiais, o forte posicionamento da China no mercado internacional, as crescentes restrições ambientais, um possível excesso de capacidade, a volatilidade dos mercados — embora os preços estejam estáveis — e as sempre inovadoras barreiras de comércio. E esses desafios entranham-se ainda mais no mercado brasileiro a medida em que existe uma forte tendência de internacionalização do setor com fusões e aquisições e mudanças na geografia da produção e consumo do aço. Ou seja, é um setor em expansão, com crescimento médio anual acima de 4% e um consumo aparente projetado para 2010 de 1.230 mil t/ano. A alta utilização da capacidade deve gerar aumento de produção pelo menos até 2008.

Segundo Mário Hermes Rezende — chefe de sistemas industriais da Gerência de Tecnologia da Informação da Gerdau Açominas e diretor da Divisão Técnica de Automação e Tecnologia da Informação da ABM — as empresas da siderurgia brasileira procuram – e estão conseguindo – acompanhar a evolução tecnológica da siderurgia mundial. Isto pode ser constatado através dos investimentos realizados nos últimos 15 anos, tanto em melhorias quanto em expansão das plantas existentes, bem como pelo sucesso na colocação dos produtos no mercado internacional. Novas técnicas e tecnologias são incorporadas através da aquisição de assistência técnica e novos processos, bem como pelo desenvolvimento técnico dos especialistas brasileiros. “O IBS considera o parque industrial siderúrgico atualizado frente ao mercado mundial”, comentou Mario Hermes, acrescentando que isso pode não ser mensurável do ponto de vista acadêmico devido ao tradicional grau de sigilo do setor.

Esse segredo sobre ganhos por implantação de novas tecnologias foi sentido pela analista de automação da Cosipa — Companhia Siderúrgica Paulista, Luciene Coelho Lopez, quando da realização de um levantamento sobre o uso de novas tecnologias pela indústria siderúrgica brasileira. “A Cosipa tem como filosofia discutir e divulgar tecnologia, o que não é regra no setor”, acrescentou Mário Hermes no IX Seminário de Automação de Processos da ABM, realizado em Curitiba. Todos os protocolos de comunicação são utilizados no setor siderúrgico, com predominância de sistemas em 4 ~ 20 mA, tanto pela história quanto pela segurança, mas os protocolos de comunicação digital apresentam taxa de crescimento exponencial. A tendência atual ainda é a de soluções híbridas na automação industrial e o uso de Ethernet é muito próximo de 100% nas empresas siderúrgicas, tornou-se um padrão de fato.

Já o wireless é muito forte em sistemas de aquisição de dados nos processos de acabamento, movimentação e controle de estoque, com crescimento da sua utilização na parte administrativa do negócio. Equipamentos para monitoração nos sistemas de controle já são uma realidade e demonstram uma tendência de crescimento. Os novos processos, em função do alto índice de utilização de equipamentos digitais, já estão utilizando o gerenciamento de ativos – que além do gerenciamento físico dos ativos, busca ter o controle de quem acessa e utiliza os recursos e com quais direitos; controle de versões e parametrizações – identificando o quê, porquê, quem, quando e onde ocorreram as alterações. Enfim, busca o controle do processo de gerenciamento de mudanças com softwares e ferramentas pro ativas e preditivas, maximizando o tempo dos especialistas e é “sonho de consumo” de 11 entre cada 10 empresas de qualquer setor.

Todas as empresas siderúrgicas, quando investem, contemplam grandes orçamentos para automação e instrumentação pois, para as plantas existentes, há um ganho potencial na introdução de tecnologia digital, otimizando e racionalizando processos produtivos. Os novos processos produtivos já são projetados com um alto índice de utilização de Sistemas Digitalizados e com integração total desde os instrumentos de campo até aos Sistemas de Gestão. Segundo Mário Hermes, quanto à Tecnologia da Informação, todas as empresas fizeram e estão fazendo investimentos significativos em Sistemas de Gestão (ERP) que suportam as transações operacionais, em sistemas colaborativos e de inteligência de negócio que apóiam e suportam a tomada de decisão dos gestores em todos os processos de vendas, finanças, administrativos e cadeia logística. Mas vale lembrar que o foco está no core business, assim, o primeiro desafio será sempre o desenvolvimento de aços de melhor qualidade e com o menor preço possível, produzido segundo as restrições ambientais.

Planos setoriais existem para solucionar problemas de processos externos – como o abastecimento de carvão – e as preocupações com a produção, a qualidade, o meio ambiente e o setor de utilidades – são resolvidos por cada empresa. Todas possuem setores dedicados à gestão de energia e utilidades, com controle eficiente de demanda e consumo junto às concessionárias e existe uma luta constante para evitar desperdícios. A monitoração, o controle da demanda e os consumos internos são dependentes da instrumentação e de sistemas de automação, integrados e sincronizados, onde os gestores têm domínio completo dos índices e indicadores de geração e consumo de energia e utilidades nas empresas siderúrgicas.

As grandes novidades tecnológicas, segundo Mário Hermes, são, no processo, a identificação e controle on-line de não-conformidades, a busca contínua da redução de defeitos em cada etapa do processo, a otimização com redução de custos e maximização de rendimentos. Some-se a isso a pressão constante (não apenas no setor siderúrgico) para reduzir o tempo de desenvolvimento, implantação, montagem e testes de um novo processo/planta e a evolução constante das normas e padrões internacionais possibilitando a interoperabilidade de equipamentos nos sistemas de controle, como a IEC 6185.

Pelas projeções do IBS, a siderurgia brasileira vai continuar em ascensão, ainda que com um ou outro imprevisto. Os investimentos em automação industrial, em 2005, aumentaram em 20% em relação ao ano anterior e, desde a privatização (1993), as siderúrgicas vêm investindo, em média, US$ 50 milhões por ano em automação. Os objetivos são, em geral, a redução da variabilidade dos processos, a estabilidade operacional, segurança, menores custos, menor impacto ambiental.

No começo de 2005, o executivo da Gerdau apresentou um resumo dos programas de ampliação das usinas, por ocasião da Abinetec, que projetava investimentos de US$12 ,5 bilhões até 2010 apenas para elevar a capacidade de produção do parque já existente, sem contar com os novos projetos. Esses recursos seriam em sua maioria próprios (52,7%) com captações interna e externa para o restante.

Segundo Mário Hermes, não existe segredo: para atender o setor, é preciso vender solução, conhecer o dia a dia do cliente, praticar a empatia e ter certificação de serviços e produtos.


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