| Revista Controle & Instrumentação
Edição nº 109 Outubro de 2005
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Cover Page
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Pesados investimentos devem
colocar o Farmanguinhos
entre os milhores do mundo |
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Farmanguinhos, Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fiocruz,
oriundo do antigo Serviço de Medicamentos do Departamento Nacional
de Endemias Rurais, foi ampliado e integrado à Fiocruz em 1976 para
crescer. É o único laboratório produtor de medicamentos ligado diretamente
ao Ministério da Saúde e tem mostrado força nas pesquisas e desenvolvimento
tecnológico de produtos distribuídos gratuitamente à população pelo
SUS. De suas linhas de produção saem, anualmente, 1,1 bilhão de
comprimidos, cápsulas e frascos de pomadas, medicamentos para doenças
como a AIDS, tuberculose, malária, hanseníase, hipertensão.
O Instituto, inserido na política de controle de preços de medicamentos
do governo federal, sobretudo com a produção de genéricos contra
a AIDS, já mostrou tamanha competência que grandes laboratórios,
depois de verificarem sua capacidade, baixaram o preço de medicamentos
contra a Aids de US$ 2,99 para US$ 0,69.
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| O Ministério da Saúde comprou o antigo site da Glaxo, no
Rio de Janeiro, com o intuito de fomentar a produção de medicamentos |
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Farmanguinhos, no ano passado, foi alvo de um
grande projeto do Governo: o Ministério da Saúde comprou o antigo
site da Glaxo, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, com o intuito de
fomentar a produção de medicamentos do sistema público e atender as
crescentes demandas. Antes, toda a produção da Fiocruz era processada
no campus de Manguinhos, na avenida Brasil, cidade do Rio de Janeiro,
complexo tombado pelo patrimônio histórico. A capacidade instalada
daquele campus chegou ao seu máximo com a produção de 1,1bilhão de
unidades.
No campus de Manguinhos da Avenida Brasil ainda ficam a administração,
a Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), o Ipec — Instituto de Pesquisa
Clínica Evandro Chagas, INCQS — Instituto Nacional de Controle e Qualidade
em Saúde, o Biomanguinhos — Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos
, o Cecal — Centro de Criação de Animais de Laboratório, o CICT —
Centro de Informação Científica e Tecnológica, o CPqAM — Centro de
Pesquisa Aggeu Magalhães, o CPqGM — Centro de Pesquisa Gonçalo Moniz,
o CPqLMD — Centro de Pesquisa Leônidas e Maria Deane, o CPqRR — Centro
de Pesquisa Renné Rachou, a ENSP — Escola Nacional de Saúde Pública
Sergio Arouca, e a EPSJV — Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio.
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| Um bom exemplo do arrojo da equipe é a máquina de compressão
para comprimidos, da alemã Fete |
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“O parque industrial estava se tornando obsoleto,
mesmo com as novas políticas de investimentos. Os últimos upgrades
aconteceram de 1997 a 2003 e tiraram a produção de 300 milhões de
unidades para os atuais 1,1 bilhão que, somados à parte terceirizada,
totalizam 1,7 bilhão de unidades. Ainda assim, não atendíamos as demandas”,
comenta Jorge Lima de Magalhães, assessor da diretoria de operações.
Mas, com a Dra. Núbia Boechat de Andrade à frente da diretoria do
Farmanguinhos, o Ministério está virando o jogo. Viu-se a necessidade
de fomentar a produção com tecnologia de ponta e tornar o Instituto
referência para a Vigilância Sanitária e outros laboratórios públicos
e privados, com registro na OMS e no FDA. Segundo Jorge Magalhães,
Farmanguinhos já era benchmark para os laboratórios das forças armadas
e do governo, mas o projeto de transformá-lo em potência foi elaborado
em 2003, quando adotaram a postura da Anvisa – Agência de Vigilância
Sanitária para se adaptar a resoluções como a RDC210 que rege as Boas
Práticas de fabricação , com tecnologia de ponta e qualidade. “Abraçamos
essa idéia com a Anvisa para nos tornarmos referência até para os
laboratórios privados, tendo em vista que buscamos atender também
as normas internacionais de qualidade através da OMS”.
Sorte ou não, surgiu a oportunidade de comprar a fábrica da Glaxo
depois da fusão com a SmithKline, que estava com um site novinho também
em Jacarepaguá. O Ministério oficializou a compra de portas fechadas
por seis milhões de dólares, o que poderia ser considerado uma verdadeira
pechincha já que só a avaliação do terreno alcançaria esse valor,
pelos cálculos do mercado, na época. |
| Reações em busca de intermediários para anti-retrovirais |
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Então, Farmanguinhos começou a migrar suas linhas
de produção para o site de Jacarepaguá. O primeiro passo foi ir ao
mercado internacional buscar tecnologias de ponta, igualando-se aos
melhores laboratórios e um bom exemplo do arrojo da equipe é a máquina
de compressão para comprimidos, da alemã Fette, única na América Latina,
instalada há dois meses. Essa linha de compressão e a de blister,
toda instalada e automatizada, já produz duas vezes mais que a do
antigo campus, sem transferir as outras máquinas. Novas máquinas devem
chegar até fevereiro e estão sendo instaladas outros equipamentos,
como o de revestimento, de várias tecnologias de empresas alemãs,
italianas e inglesas. Mas as compras passam sempre pela avaliação
da equipe, pois o fornecimento de qualquer equipamento ou nova tecnologia
está condicionado a um período relativamente longo de treinamento
para que seja passado todo o know how (automação, manutenção, elétrica)
e ainda dar suporte por mais um ano. A estratégia é dominar todas
as novas tecnologias até para atuar como agente multiplicador no país.
“Hoje estamos no meio desse processo de migração com várias licitações
ainda em andamento. É um processo que vai durar mais dois anos. Nossa
idéia é entrar 2007 com uma capacidade instalada de 10,3 bilhões de
unidades, com a planta 100% automatizada e integrada, do chão de fábrica
ao corporativo”, completa a coordenadora de projetos do Instituto,
Ana Braga. |
| Dissolutor: estudo da biodisponibilidade de medicamentos |
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O Farmanguinhos ainda possui linhas manuais mas
está com 60% da planta automatizada. “Os equipamentos novos já vêm
com automação embarcada mas a nova planta de Jacarepaguá não é a linha
do Instituto. O processo dos antigos donos era verticalizado enquanto
o da Fiocruz é horizontalizado, o que faz com que a equipe tenha que
adaptar a nova fábrica para seus processos e equipamentos. Vale lembrar
que o Instituto está doando todos os equipamentos obsoletos em boas
condições que podem processar com perfeição mas não estão dentro dos
novos padrões e volumes. Ou seja, é uma fase de adaptação. Segundo
Jorge Magalhães, noventa por cento da antiga fábrica era manual e
o que está acontecendo é um salto enorme. O Instituto está comprando
o que há de mais novo, num processo quase modular de levar a fábrica
a estar cem por cento on line e automatizada: as novas aquisições
têm muitas possibilidades que vão ser postas em ação aos poucos porque
o chão-de-fábrica ainda não está preparado.
“Cada equipamento adquirido já inclui necessariamente a possibilidade
de trabalhar no seu máximo potencial previsto pelo projeto. Tecnologia
da Informação e Tecnologia da Automação estão trabalhando juntas porque
se fôssemos esperar aprontar tudo para dar o start, não conseguiríamos
atender as demandas de hoje. Temos demandas preciosas a atender e
não podemos parar. Estamos trabalhando em várias frentes”, comenta
o gestor de TI de Farmanguinhos, Neemias Leite.
Ana, responsável pela análise software supervisório – ainda a ser
adquirido – tem conversado com várias empresas porque o Farmanguinhos,
ao mesmo tempo em que quer um software de mercado, possui muitos módulos
desenvolvidos pelo pessoal interno que devem ser aproveitados. “Essa
tem sido uma fase lenta porque o supervisório que idealizamos precisa
englobar nossos desenvolvimentos, conversar com o software corporativo
e ter interface com os diversos equipamentos da planta, que trabalham
com mais de um protocolo de comunicação”, frisa Ana. “
Usamos um software de modelagem e seqüenciamento de função de toda
a organização, incluindo o controle da produção. Não podemos queimar
etapas porque queremos fortalecer a arquitetura do nosso ERP. Vamos
comprar uma parte e desenvolver outra, de tal forma que o sistema
suporte o volume de dados com segurança e não se torne obsoleto rapidamente.
Essa mistura, de comprar no mercado e aproveitar o que temos de bom
internamente, foi a forma mais rápida de alcançarmos nosso objetivo:
a melhor fábrica de medicamentos do Brasil”, afirma Neemias.
Mas não pára por aí: o projeto inclui um MES para ligar tudo, um sistema
que acompanha a lógica do projeto. Como a empresa estabeleceu metas
altas a serem alcançadas em um curto espaço de tempo, a equipe fez
um mix entre desenvolvimento interno e software de mercado para ter
tudo linkado, via web, usando produtos Microsoft para desenvolvimento
de software, gerenciamento de rede Cisco System 6500, com três camadas
de firewal, usando wireless, dupla redundância e Servidores Blade
IBM.
A idéia é de que a integração aconteça desde a entrada de matéria-prima,
ou seja, de que as análises sejam realizadas on line, com a matéria-prima
sendo checada por infra-vermelho e o laudo analítico encaminhado para
o sistema que emitirá um input para o planejamento da produção e essa
informação deve ser enviada ao Scheduling — que vai dizer quanto,
quando e quais fármacos serão produzidos, em quais linhas. Quem elabora
o Scheduling do Instituto é o Ministério da Saúde.
Para gerar esse fluxo, a empresa tem que ser vista como um processo
preciso e flexível. As linhas de produção de Farmanguinhos são divididas
embora sejam flexíveis: grupos de produtos similares podem ser fabricados
numa mesma linha. Medicamentos para hipertensão e diabete, por exemplo,
ocupam duas linhas de alta produtividade, respondendo por quase 80%
da produção da fábrica. Os fármacos estão agrupados por altura, cartucho,
bolsa de blister... o que muda é a receita — com bateladas controladas
segundo a Anvisa. |
| Jorge: projeto de transformar Farmanguinhos em potência |
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Farmanguinhos está se preparando para ser referência
nacional mas também para exportar medicamentos para países mais carentes.
Um bom exemplo são os medicamentos segregados como os DST/Aids, que
não podem ser misturados com outros produtos, e que consomem apenas
10% da capacidade instalada. “Estamos ociosos aí. A OMS já esteve
fazendo uma pré-avaliação e, como estamos certificados pela Anvisa,
vamos buscar a certificações todas que nos coloquem como players no
mercado internacional”, afirmou Jorge Magalhães. Ana lembra que, para
se tornar referência, as normas S-88 e S95 estão incluídas no modelamento.
“Essas normas já são exigidas em outras partes do mundo e são necessárias
para competirmos internacionalmente”.
A equipe está comprando o que há de melhor e mais moderno, complementos
topo de linha para entrar no mercado internacional com segurança e
competitividade. Um bom exemplo foi a modelagem do sistema de granulação,
com a compra de três equipamentos modelo 2006, que reduz o processo
convencional de três equipamentos em uma única operação.
Um caso a parte nesse raciocínio competitivo é a linha de produção
de medicamentos para doenças negligenciadas, como Chagas e leishmania.
Como não são remédios lucrativos pela baixa escala, resta ao Governo
a missão de continuar fornecendo para os poucos casos brasileiros
e para socorrer algum país vizinho. Mas a regra é a excelência: o
Farmanguinhos está aumentando sua linha com novos medicamentos e deve
entrar 2007 com capacidade de 10 bilhões de unidades. O Instituto
é responsável pela linha de Amoxicilina — por enquanto, o único antibiótico
produzido, o que deixa a linha com quase 90% de capacidade ociosa,
abrindo possibilidades diversas, a depender das negociações do Governo.
Além das linhas comuns — analgésicos, hipertensivos, diabetes e outras
— o Instituto inicia uma linha para xaropes, uma para gotas, outra
de estatinas, uma linha para hormônios e outra para aerossóis, ainda
por aprovar.
No antigo site, por exemplo, existiam sete linhas de embalagens. Em
Jacarepaguá, apenas cinco, fabricando cinco vezes mais. Houve aumento
de produtividade, com produção limpa, automatizada, segura, monitorada,
com rastreamento e controle de qualidade. O medicamento já sai embalado,
lacrado, marcado no lote com segurança. Com a garantia de que é um
genérico que não é farinha, tem equivalência biofarmacêutica.
Farmanguinhos é o único player farmacêutico que mantém a parte de
produção junto com a pesquisa — desenvolvendo as receitas, não o princípio
ativo. Essa proximidade torna a comunicação rápida entre os técnicos
farmacêuticos e os operadores. E os pesquisadores influenciam até
no design da linha porque são eles que dão a rota para as formulações.
Os laboratórios começaram esse processo de modernização e atualização
bem antes da fábrica, tendo hoje equipamentos de ponta procurados
até por universidades e grandes empresas, caso do CIVA — Centro de
Instrumentação e Validação Analítica. Formado por um conjunto de laboratórios
integrados, tem como principais atividades a pesquisa, o desenvolvimento
e a validação de metodologias englobando elucidação molecular e especificação
de matérias primas.
O prazo de modernização da produção é curto, mas a equipe não abre
mão do rigor. As poucas apresentações de fornecedores se devem ao
fato das licitações serem muito detalhadas e já incluírem normas ainda
pouco conhecidas. Para o MES, apenas três empresas se apresentaram:
Active — um fornecedor potencial porque nasceu na indústria farmacêutica
—, a Rockwell — que tem histórico no setor — e a Running. “O conhecimento
do setor é fundamental”, indica Ana.
Enquanto se moderniza, o Farmanguinhos não deixa de trabalhar: já
pulou, neste ano e meio de novo site em obras, de 1,1 bilhão para
4,5 bilhões de unidades de fármacos. E, a julgar pelo ritmo, as metas
devem ser atendidas com facilidade. “Esperamos estar ajudando a quebrar
este estigma de que o que é público não funciona”, finaliza Jorge. |
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