| Revista Controle & Instrumentação
Edição nº 110 Novembro de 2005
|
|
Cover Page
|
Ambev ganha flexibilidade
na adequação de unidades
à S-88 |
|
|
|
Depois de ter iniciado o processo nacional de contabilização da
produção para a Receita Federal – foi a primeira a implantar o SMV
(sistema de medição de vazão on line) —, a Ambev começa um novo
movimento: a adequação de suas plantas à Norma S-88 (para bateladas).
E a simples decisão de seguir a norma já seria um grande feito,
que torna-se maior na medida em que terá as primeira unidades de
um grupo mundial (Inbev, formado pela fusão da Interbrew com a Ambev)
a se enquadrar à S-88: todos os olhos se voltam, então, para as
quatro unidades escolhidas para a empreitada – a de Cuiabá, a de
Goiânia, a de São Luis do Maranhão e a de Camaçari, na Bahia, sendo
que as três utilizando tecnologia Siemens e e uma com tecnologia,
a Rockwell. No Brasil, a corrida pela adequação à norma já acontece
porque a Kaiser também possui uma unidade trabalhando em S-88. A
área de alimentos e bebidas, fortemente baseada na produção em batelada,
deu início, no Brasil, a um movimento em direção à norma S-88 nos
últimos três anos, nas empresas com perfil mais inovador. Mas existe
uma grande necessidade de se criar uma massa crítica de profissionais
com uma formação mais sólida nessa norma para obter os benefícios
esperados e melhor quantificar os ganhos.
O coordenador do projeto de modernização com adequação à S-88 na
Ambev, o engenheiro especialista na área de automação industrial,
Flamarion Ferreira Pieroni, que está envolvido ainda com vários
outros projetos internos, teve que, junto com os fornecedores, tentar
equalizar as enormes diferenças existentes entre as unidades escolhidas
e a unidade-protótipo, a de Jaguariúna. As diferenças são naturais
já que a Ambev fabrica uma multiplicidade de produtos numa diversidade
de protocolos – como 4 a20mA, Profibus-DP, AS-Interface, ControlNet
e DeviceNet. No Brasil, as unidades cervejeiras do grupo são oriundas
da Brahma, da Antarctica e da Skol onde se encontravam unidades
automatizadas, semi-automatizadas e quase completamente manuais!
“Iniciamos, em 2004, projetos pioneiros em algumas plantas para
a implantação de sistemas de controle de batelada para criar cases
reais de implementação da norma S-88 dentro do grupo, além de desenvolver
a cultura necessária nas equipes das plantas envolvidas, identificar
os ganhos reais e as dificuldades práticas de implementação – sempre
contando com o apoio intensivo dos principais fornecedores de sistemas,
para posterior replicação nas outras plantas do grupo, no Brasil
e no exterior”, afirma Flamarion.
Tomada a decisão de adequar as unidades, o Ceng — centro de engenharia
corporativo da Ambev, que engloba a manutenção, as utilidades, os
cuidados ambientais e a qualidade das cervejas, refrigerantes e
não alcoólicos da companhia — tinha como meta criar, desde já, uma
cervejaria padrão Ambev, tarefa que não foi abandonada mas precisa
levar em consideração os resultados práticos das mudanças implantadas.
Segundo Flamarion, até dois anos atrás, antes mesmo do início do
projeto S-88, a Ambev tinha por padrão definir dois fornecedores
mestres para sistemas de automação onde cada um deles possuía um
padrão próprio que indicava a parte de endereçamento, cor de tela,
cor de válvula, e animação em geral da parte de automação. “Como
muda muito essa configuração com qualquer aquisição ou modificação
como um controlador, um novo supervisório, etc, também tínhamos
que constantemente fazer alterações. Nesse contexto, vislumbramos
ganhos com a padronização por uma norma internacional de batelada,
que pode ser aplicada a todo nosso processo, com exceção do engarrafamento”.
A opção era, então, por um sistema em S-88 para padronizar a modelagem
de uma cervejaria. Ter um padrão, do ponto de vista de Flamarion,
libera a companhia para escolher qualquer fornecedor de software
ou hardware, bastando atender os requisitos da norma, padrão dentro
da Ambev. Já foram modelados a ensilagem e a brassagem, e estão
em processo a adega e a filtração. “Hoje, qualquer projeto – seja
uma planta nova ou uma modernização de uma planta – possui especificação
técnica em S-88 desenvolvida”. Enfim, o projeto partiu do desejo
de aumentar a repetibilidade dos processos produtivos, implementar
processos de manutenção preditiva baseada em condição com gerenciamento
de ativos, utilização maciça de redes de campo para a conexão dos
dispositivos com os sistemas de controle, garantir a rastreabilidade
total dos produtos fabricados, gerenciamento automatizado dos indicadores
chave de performance (KPIs) das plantas e implementar a transparência
do chão de fábrica para os gestores.
|
| Engarrafamento em uma unidade da Ambev |
|
E esse projeto S-88 de atualização tecnológica
pode se estender para as outras fábricas do grupo — 32 no Brasil,
uma na Guatemala, uma na República Dominicana, uma na Venezuela, uma
no Peru, uma planta de malte na Argentina e duas plantas de malte
no Uruguai — mas isso depende do planejamento previsto para os próximos
anos. Existe, sim, um levantamento elaborado que determina se uma
fábrica necessita ou não de automação mas se ela vai ou não receber
o investimento, depende de muitas variáveis e estudos para definir
qual unidade está mais atrasada tecnologicamente. Um dos critérios
é a obsolescência porque, às vezes, uma planta possui um equipamento
do qual não se faz mais sobressalentes, dificultando até a manutenção.
E se uma tendência no setor de cervejaria, mesmo de food & beverage,
é a implantação de sistemas que sigam a norma S-88, outra grande tendência,
em toda a indústria de bebidas mundial, é a implantação de sistemas
de execução de manufatura, MES, LIMS, PIMS... com vistas a uma integração
mais vertical, com os ERPs corporativos. “Mas os investimentos, agora,
estão todos em estudo”, frisa Flamarion.
O processo da produção de cervejas possui fases bem definidas, com
diferentes tempos de duração. A ensilagem – onde o malte é armazenado
e também beneficiado (limpo e moído); brassagem – onde se inicia o
processo de fabricação de cerveja; a adega de fermentação e maturação;
e a filtração. Depois disso, a cerveja está pronta para ser engarrafada.
É no engarrafamento que encontramos os medidores magnéticos dos Sistemas
de Medição de Vazão on line que informam os volumes produzidos à Receita
Federal. A fase de engarrafamento não é considerada uma parte da batelada.
Outra fase que gera controvérsia e expectativa quanto ao desenvolvimento
da solução é a filtragem por causa dos tempos curtíssimos que dificultam
seu encaixe nas definições da norma S-88. Mas, como na modelagem da
Ambev a batelada engloba Ensilagem, Brassagem, Adega e Filtração,
o software utilizado pela Siemens recebeu carga extra de engenharia.
“Uma batelada segundo a S-88 implica em tempos de troca de informação,
o que na filtração precisa acontecer muito rápido. Mas o SimaticBatch
deve satisfazer ambos, cliente e norma”, comenta Carlos Fernando Albuquerque,
engenheiro da equipe da Siemens, fornecedora da solução para três
unidades em modernização. |
| SMV na Ambev, primeira a implantar a medição de vazão fiscal |
|
Desenvolvidas as receitas (segundo a S-88, receita
é fórmula+procedimento), desaparecem as caixas-pretas do processo,
o que permite maior transparência do que está acontecendo no chão-de-fábrica.
E quando se produz em larga escala, quanto mais tranqüilo o trabalho,
maior o número de bateladas seguras. E a norma define o sistema que
praticamente reverte a coleta de dados em dois conceitos-chave: o
histórico e o report — que fornece tempo ótimo da fase, tempo realizado
e desvio ou seja, todos os tempos de cada fase, qual operador fez
o quê e quando, cada intervenção, cada evento... A informação deixa
o engenheiro de processo mais seguro para buscar melhorias de sistema
e mesmo melhoras pontuais, como treinar melhor um operador numa tarefa
específica. Mas é bom deixar claro que um software de batelada não
é um simples software de coleta de dados engenheirado. Ainda não existe
a obrigatoriedade de um relatório final para bateladas de cerveja
no Brasil mas ele pode ser útil no caso de exportação... e quanto
mais regulado o setor, maior a importância de um relatório de batelada
detalhado. Não apenas para os exportadores a implantação da S-88 cria
um diferencial competitivo mas também para produtores de commodities
que querem otimizar o processo e reduzir o custo de produção. Mesmo
quando um processo é semi-automatizado, existe muita margem para variação
de desempenho por conta do operador. O software de batelada homogeneíza
a repetibilidade do processo, otimizando os procedimentos operacionais
com registros precisos. O sistema valoriza, então, as qualidades do
mestre cervejeiro garantindo que o produto final será aquele imaginado,
sempre.
A S-88 utilizada pelo software do Siemens deixa o trabalho de customização
relativamente mais fácil, porque a norma é muito detalhada, diferente
de um software Scada, por exemplo, que precisa ser programado para
permitir acessos, registrar eventos, etc. — isso já faz parte do software
de batelada onde a engenharia é traduzir o modelo físico e procedural
na linguagem do sistema. “É complexo mas não complicado com uma ferramenta
S-88 porque a norma cobre o detalhe. A diferença é quem executa a
engenharia porque precisa ter a metodologia da norma senão, mesmo
com uma ferramenta S-88, faz um projeto não complied”, comenta o engenheiro
da Siemens, que lembra que, se o que se quer é só um Batch Report,
é possível gerar com um bom historiador e muita engenharia, mas aí,
não existem ganhos de processo.
E claro, um servidor de batelada não é apenas um computador a mais,
ele tem uma função mais ativa dependendo da velocidade e da flexibilidade
que se queira dar ao sistema e ao engenheiro de processo. Mas o SimaticBatch
sempre trabalha em duas frentes, uma executando o controle em tempo
real e a outra armazenando dados — mas esse historiador não é semelhante
ao a um PI – orientado a tempo -, porque ele faz um relatório por
equipamento, unidade, fase e operação. O melhor, para o responsável
pela produção seria, com certeza, um outro tipo de relatório, que
incluísse os relatório de MES/LIMS/PIM ao Batch Report porque, então,
se poderia consolidar os dados de laboratório aos da batelada – tipo
mais adequado quando existe um órgão regulador da qualidade do produto
que se coloca no mercado. “Para ligar um nível Batch à camada intermediária
entre o ERP, onde se situa o PIM, LIMS e MES, pode-se seguir três
estratégias: a de trabalhar com um nível em S-88 e outro em S-95;
a de ter um DCS ou um Batch “turbinado” e a de ligar o Batch aos outros
níveis via códigos C++ específicos. Claro que as soluções têm preços
e tempos de vida diferentes mas o principal, é que a primeira estratégia
é a mais segura, concede flexibilidade para expansões na horizontal
ou na vertical. E a Ambev, como todos os clientes Siemens, tem escolhido
a primeira”, comenta o engenheiro da Siemens.
Segundo Flamarion, há um bom nível de utilização de sistemas supervisórios
nas plantas da AmBev, que também possuem uma camada e sistemas de
aquisição de dados no nível da camada MES em todas as plantas, apontando
para boas oportunidades de melhoria na integração entre as funcionalidades
de PIMS e MES com a interligação desta camada com os sistemas de controle
e ERP, para maior visibilidade das plantas e melhor integração no
supply chain corporativo. O que, resumidamente, a S-88 pode fazer
é confinar a complexidade dos diversos eventos da batelada, detalhando-os
e ordenando-os. A estruturação é melhor e permite que, além de quem
idealizou, os outros entendam o que está acontecendo. E, além dos
ganhos de processos e redução de custos de produção, a adequação à
norma traz a tão sonhada flexibilidade que pode reduzir o time to
market de qualquer produto. Um bom exemplo seria a cerveja azul: alguém
viu, virou moda, todo mundo quer. Então, é preciso desenvolver a receita
rapidamente. Até aí, é com o mestre cervejeiro – e ele dá conta, esteja
certo.
No SimaticBatch, fazer um produto novo que não exija um novo equipamento
mecânico, fica 100% na mão do engenheiro de processo. Por que? Porque
existe um editor de receitas que trabalha com sub-receitas de unidades
e operações que isola o engenheiro de processo de qualquer detalhe
de hardware — responsabilidade do pessoal de automação e já previamente
detalhada para tirar o máximo de rendimento de cada device, mapeando
toda e qualquer funcionalidade de qualquer hard (válvulas, controladores,
bombas, tubos, silos, etc). Então, é só recombinar os tijolos básicos:
se dá pra fazer em laboratório, traduzir para a escala industrial
é sensivelmente mais rápido com o software de batelada segundo a S-88.
De outra forma, é preciso chamar alguém para refazer o programar do
PLC, alguém que pode estar fazendo melhorias em outros pontos: o tempo
do engenheiro de automação é precioso e ele é, no Brasil, um profissional
raro; o mais comum é encontrar um técnico de automação que acaba responsável
por uma infinidade de outras coisas. Então, a S-88 coloca a responsabilidade
do processo na mão do engenheiro de processo, verdadeiro beneficiário
da aplicação da norma.
Nesse contexto, a Ambev pode estar se tornando um catalisador para
o setor de bebidas: da mesma forma que foi pioneira na medição de
vazão para a Receita Federal, pode estar se tornando o embrião de
cuidados com o consumidor até agora inimagináveis no Brasil. |
|
|